A idolatria da máquina e o atropelamento de ciclistas

Eu estava fora de Porto Alegre quando fiquei sabendo do absurdo que aconteceu sexta-feira no fim da tarde. Fora de Porto Alegre, quase sem internet e praticamente sem ver TV, tanto que acabei sabendo apenas no sábado, pela Zero Hora. Além de indignada, fiquei preocupada e liguei na hora para um amigo que participa sempre da Massa Crítica. Por sorte nesta última ele se atrasou e chegou só depois que o estrago já estava feito. Também por sorte, o tempo estava feio e tinha menos gente. Principalmente, não tinha crianças.

Mas outras pessoas estavam lá e se machucaram. Meu amigo me passou o contato de outro ciclista, que participava pela primeira vez, com quem conversei por telefone e cujas declarações coloquei aqui ontem. Mas faltou dizer algumas coisas. Faltou constatar, por exemplo, que Porto Alegre segue a cultura do resto do país, imitada dos americanos, em boa parte. A idolatria do carro confere aos motoristas a sensação de poderes especiais.

Passei toda a infância e a adolescência sem carro. Meus pais andavam de ônibus, e era assim que eu ia e voltava do colégio. Que era particular, o que fazia com que eu fosse um dos poucos alunos que usavam estritamente o ônibus como meio de transporte. Nunca me deixei abalar, mas eu sempre parecia meio pouco perto dos outros. Uma bobagem tremenda.

Como nosso transporte público é deficitário, deixei de aproveitar muitas coisas porque o passeio se tornaria uma indiada de troca de ônibus, que são demorados nos fins de semana, e eu levaria horas para chegar a alguma atividade mais distante. Indo de táxi, sairia uma fortuna; a grana era curta.

Quando já tinha mais de 20 anos, aprendi a dirigir na auto-escola na mesma época em que minha mãe comprou um carro. Foi aí que ela veio me dizer que também tinha uma sensação de inferioridade nos meios em que circulava. São essas sensações veladas, que a gente tem um pouco de vergonha de admitir.

Quando a gente dirige, é automática a sensação de poder. Isso porque o carro é uma máquina poderosa, mas principalmente porque a nossa cultura supervaloriza o automóvel. Vale mais socialmente quem tem carro. É errado. Mas muita gente se deixa levar por isso, e não é preciso ir longe para comprovar. Os pedestres são constantemente desrespeitados, assim como os demais motoristas, as calçadas, as bicicletas. Tudo ao redor é menor. O carro empodera o motorista, que se sente o dono da rua, passível de cometer qualquer infração e, às vezes, crimes, como o de sexta-feira.

Pode parecer que não tem nada a ver, mas todo o problema tem uma mesma origem.

Tudo isso, aliado à sensação – às vezes certeza – de impunidade, causa danos tremendos. Alguns grandes e mais alarmantes, como as tragédias que levam vidas, as que machucam, as que causam danos materiais. Mas também desvirtua nossa sociedade, inverte nossos valores. Não há razão para achar que um carro faz alguém valer mais que o outro. Não há motivo para idolatrar uma máquina que não pensa, não sente, que pode trazer conforto, mas não pode trazer felicidade. Essa mesma máquina é transformada por nós, que lhe atribuimos um valor que não tem e acabamos nos permitindo pequenos pecados. O pecado de xingar o vizinho do carro ao lado porque, afinal, meu carro é maior, poxa. Ou por passar reto sem olhar o pedestre que equilibra sacolas de supermercado sob a chuva e só precisa atravessar a rua para chegar em casa. Os pequenos pecados que nos fazem egoístas, que nos isolam, que nos tornam injustos.

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Recebi por e-mail o texto a seguir, de Alves Rodrigues. Apesar de não concordar com tudo, acho que bate nessa mesma tecla, e vale para reflexão e para impulsionar o debate. Recomendo também “Um tal Sr Volante em POA, espero que um carro a menos”, em que Cíntia Barenho propõe a mesma discussão e acrescenta outros argumentos. Outro bom texto é o “Bicicletas em um Porto não muito alegre”, do Paulo Marques.

Eu não sei o que esses ciclistas têm na cabeça

Por Alves Rodrigues

Tem um maluco solto na cidade. Quer dizer, um só não, tem um monte deles. Mas me refiro a um psicopata em especial. Um que foi visto na noite da última sexta-feira (25), armado de um Golf preto e tentando assassinar o maior número possível de ciclistas participantes do Massa Crítica (movimento gaúcho pela valorização da bicicleta como meio de transporte).

Eu não sei o que esses ciclistas têm na cabeça. Não sei de onde eles tiraram a ideia de que têm o direito de usarem as rua de Porto Alegre sem o prévio consentimento da EPTC. Ora, onde já se viu? Desaforados. Esses caras estão pensando o quê? Que vão mudar o mundo? Não respeitam o sagrado direito de ir e vir (de carro, é claro). As ruas de Porto Alegre e da região metropolitana são para os carros, não são para pedestres, ciclistas, carroceiros, catadores de lixo reciclável e seus carrinhos que dificultam a “mobilidade urbana”. Lugar de ciclista é nos parques. (Na ciclovia transformada em estacionamento é que não pode ser.) Pelo menos é isso que parece pensar o sr. Vanderlei Capellari, diretor da EPTC, que alega que a empresa não foi informada sobre a intenção do grupo de pedalar pelas ruas da Capital. Isso não me parece fazer sentido, e por dois motivos: o primeiro é que o Massa Crítica se reúne toda última sexta-feira do mês já há bastante tempo, fico surpreso com o desconhecimento do senhor diretor; e o segundo é que se essas mesmas pessoas resolvessem se encontrar no mesmo lugar em que se encontraram na sexta-feira, no mesmo horário e percorrerem as mesmas ruas, de carro e não de bicicleta, não precisariam “pedir” nada para a EPTC. Bicicleta não é meio de transporte, não é veículo? Ciclista não é um personagem do trânsito como outro qualquer?

Atropelamento intencional, acreditem, não é tentativa de homicídio, é “lesão corporal”. Ao menos é o que acredita o delegado Gilberto Almeida Montenegro, diretor da Divisão de Crimes de Trânsito de Porto Alegre. Eu juro que pensava que se eu tivesse um carro e o usasse para passar deliberadamente sobre um grande grupo de pessoas, ia acabar me incomodando. Estava enganado. Isso não me causaria problema se essas pessoas estivessem desrespeitando o indiscutível direito de ir e vir dos egoístas mauricinhos de classe média em seus carros financiados a longo prazo. “Aqui não é a Líbia”, disse o delegado, “aqui todos têm liberdade de manifestação, desde que avisem as autoridades”. Quer dizer que é assim? Se as autoridades permitirem eu posso ser livre? Oba, viva a liberdade.

Não deveríamos estar tão surpresos com as declarações destes representantes do Estado. Lembram do jardineiro de Brasília? Se não lembram vou contar. Vou contar aquela história de um ministro (por ironia, Ministro dos Transportes) que voltava, na companhia de seu filho, de um churrasco regado a bebida alcoólica lá na Capital Federal. Dizem que quem dirigia era o filho do ministro, dizem que não tinha bebido. Não sei. Sei apenas que um jardineiro, um trabalhador, foi atropelado e abandonado caído no asfalto. Ficou lá, não teve assistência dos atropeladores. Julgados, pai e filho foram inocentados da acusação de omissão de socorro. A Justiça (cega) concluiu que por estar a vítima já morta, não havia mal nenhum na atitude dos atropeladores de irem para casa e de lá ligarem para a polícia. Ninguém foi preso, mas, magnânima, a Justiça “condenou” o réu, o filho do ministro, ao pagamento de algumas cestas básicas. Eu sei que a Justiça tem de ser cega, mas não acho que devesse levar a coisa tão ao pé da letra.

O caso do atropelamento em massa aqui de Porto Alegre parece que seguirá pelo mesmo caminho. Mesmo antes da identificação do atropelador, Polícia Civil e EPTC já encontraram alguém para culpar: as vítimas.

Parecia bobagem a figura que eu fiz no post anterior, aquele sobre o metrô de Porto Alegre, mas podem acreditar que é assim mesmo que pensam as autoridades quando falam de mobilidade urbana. Em suas mentes, a imagem de ruas repletas de carros circulando sem serem atrapalhados por pedestres ou outras formas de transporte é a imagem da cidade ideal, moderna, desenvolvida. Quem sabe, quando construírem o tal metrô, não construam também, paralelo aos trilhos, uma ciclovia? Ficaria perfeito. Lugar de ciclista, nas modernas metrópoles capitalistas do Brasil do terceiro milênio, é junto com os trabalhadores: debaixo da terra. O cara do Golf preto só quis ganhar tempo e mandar os ciclistas pra lá de uma vez, não teve paciência de esperar o metrô ficar pronto.

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A idolatria da máquina e o atropelamento de ciclistas

Imprensa inventa polêmica onde não há

“73% dos jornalistas argentinos apóiam polêmica lei de comunicação, diz pesquisa”. Esse é o título de uma notícia publicada no Knight Center Journalismo in the Americas. Em primeiro lugar, se 73% da população apoia, “polêmica” não é exatamente o melhor termo para definir a lei, certo? Ampla maioria da população, com um índice bastante delgado, acha bacana, e os meios de comunicação dizem que o assunto é polêmico. Segundo o dicionário Houaiss, polêmico significa que é controverso. Controvérsia é uma questão “sobre a qual muitos divergem”. Não acredito que isso possa ser aplicado a 27% dos argentinos.

A matéria diz que a lei de meios está gerando tensões e conflitos judiciais. Certo, mas uma minoria poderosa pode fazer barulho, mas não pode ser chamada de maioria. Se as pessoas que se opõem à lei não tivessem poder algum, não chamariam a atenção e o tema passaria batido. Poder não faz uma pessoa ou instituição valer mais que outra. Não se multiplica.

Mas, no Brasil, os meios de comunicação que exercem o monopólio ou oligopólio da informação não querem que a ideia chegue a essas bandas. Aí a versão da polêmica é inflada, exagerada. A situação é distorcida nos nossos jornais para que pareça algo extremamente contraditório. Informação distorcida é informação ruim. O fato de jornais fazerem isso é o principal motivo para regular a atuação. Não interferindo em conteúdo, mas abrindo espaço para que haja outros veículos, incentivando a pluralidade. Assim, a notícia chega ao cidadão de formas diferentes e cada um a interpreta como achar mais conveniente.

Ou seja, a própria notícia sobre a lei de meios escancara a necessidade de uma lei de meios também no Brasil.

Como eu já afirmei tantas vezes por aqui, diminuir o poder de alguns é aumentar o poder de muitos outros. Restringir o poder de alguns meios de comunicação é permitir que muitas outras pessoas e instituições tenham voz. É, pois, fundamental para a consolidação da democracia.

Imprensa inventa polêmica onde não há

O poder do homem

O Lula disse “votem no Paim”. Já tinha dito a mesma frase para Dilma, Tarso e tantos outros candidatos do PT. Já deve ter se tornado uma coisa natural, parte do cotidiano, mas às vezes, deitadinho, com a cabeça no travesseiro, ele deve parar pra pensar no poder que tem. É só ele dizer “vota nesse cara” que não importa quem seja o cara, a pessoa vota. Porque o Lula pediu.

Esse é o resultado de mais de 90% de aprovação. De um governo com a cara do povo, de um governante com quem as pessoas se identificam. E, principalmente, em quem confiam. É a confiança que lhe dá essa influência sobre a opinião da população. Poder.

Ele deve de vez em quando parar para pensar “tchê, eu sou foda”. Ok, sem o “tchê”, mas ele é o cara. Pra maioria do povo brasileiro, ele é.

O poder do homem

É sua obrigação, candidato

Chegou na minha caixa de correspondência mais uma de tantas colinhas de candidatos a deputado. Dessa vez, uma dobrada do DEM, Onyx e Tanski. As únicas propostas são as de Sérgio Tanski. São engraçadas. Por exemplo, garante que, se eleito, vai “fiscalizar o Executivo e toda a máquina pública, combatendo a corrupção e o mau uso dos recursos públicos”. Engraçado porque ele se promete fazer o que é atribuição da função, como diz a Constituição do Rio Grande do Sul:

Art. 53 – Compete exclusivamente à Assembléia Legislativa, além de outras atribuições previstas nesta Constituição: (Regulamentado pela LEC n.º 11.299/98)

I – receber o compromisso do Governador e do Vice-Governador do Estado, dar-lhes posse, conceder-lhes licença e receber sua renúncia;

II – apreciar os relatórios do Governador, sobre a execução dos planos de governo;

III – julgar, anualmente, as contas do Governador e, se este não as prestar até trinta dias após a data fixada nesta Constituição, eleger comissão para tomá-las, determinando providências para punição dos que forem encontrados em culpa;

IV – autorizar o Governador e o Vice-Governador a afastar-se do Estado por mais de quinze dias, ou do País por qualquer tempo; (Vide ADI n.º 775, DJU, 01/12/06)

V – autorizar, por dois terços de seus membros, a instauração de processo contra o Governador, o Vice-Governador e os Secretários de Estado;

VI – processar e julgar o Governador e o Vice-Governador do Estado nos crimes de responsabilidade, e os Secretários de Estado nos crimes da mesma natureza conexos com aqueles;

É sua obrigação, candidato

O Afeganistão e a defesa do Império

“A única razão de a ocupação continuar é a de que assumir o fracasso total exporia a vulnerabilidade do Império.” A frase é do professor de Filosofia da Universidade de Maryland Andrew Levine a respeito do Afeganistão, roubada da Carta Capital da semana passada.

Poucas palavras, mas de um significado grande. São aquelas coisas da política que, por tão discutidas, passam como decisões de gabinete, apenas. De fato, coisas da política. Mas peraí, tudo bem que não interessa expor o Império, pelo menos para o próprio. Mas, colocada ao pé da letra, a decisão é de uma desumanidade assombrosa. A defesa da imagem de uma nação – porque é só isso: imagem – importa mais que pessoas, vidas. Porque tem gente morrendo, gente sofrendo por causa dessa imagem. Não quero um pensamento simplista, mas não é isso, no fim das contas?

O Afeganistão e a defesa do Império

Para que serve a política eleitoral?

Em teoria, o sistema eleitoral é uma solução democrática, inteligente. Candidatam-se nomes e a maioria decide quem as representa. Voto direto, simples. Não tem como dar errado.

Mas aí entram o dinheiro e o poder, que muitas teorias esqueceram de incluir na análise. Primeiro que muitos dos candidatos a qualquer cargo – eu diria a maioria – não está interessada simplesmente em fazer o melhor dentro de sua visão política, de sua ideologia. E aí nem entro no mérito de esquerda e direita, do que é melhor de fato para a população. Naquela visão política primitiva, o povo seria capaz de julgar a partir dessas questões, e cada eleitor escolheria um candidato cujas posições convergissem com as suas.

Em uma eleição, o dinheiro se torna muito mais definidor do que propostas ou ideias. Um cara que tem grana para fazer uma boa música, espalhar muitas placas e cartazes, pagar por uma equipe experiente e um bom material de campanha, normalmente se elege. Ganha quem aparece mais. Aparece mais quem tem dinheiro.

Acompanhei uma reunião de campanha de um candidato a deputado estadual sem grana. Havia uma pessoa além dele completamente dedicada a fazê-lo se eleger, que disponibilizaria todas as horas dos seus dias nos próximos meses para isso. Ele seria o coordenador da campanha, o tesoureiro, o mobilizador. O resto do pessoal faria o possível depois do trabalho, nas noites em que não tivesse aula, quando não ficasse preso em alguma reunião, quando não tivesse que cuidar dos filhos. Dedicação mesmo, na garra, no amor. Bonito até. Mas avalio que ele não se elege. Diria que é praticamente impossível.

Esse cara tem sua carreira voltada para os direitos humanos. É uma pessoa boa, séria, verdadeiramente comprometida, com vontade de fazer coisas bacanas no Rio Grande do Sul.

Quantos outros vão se eleger sem esse perfil?

Fico imaginando não só candidatos assim, mas quantas pessoas capazes, sérias, com perfil político ou técnico de qualidade, discutindo por sei lá eu quanto tempo como proceder com o jingle da campanha. Perdendo tempo nisso que ajuda a eleger o candidato, mas que não vai mudar em absolutamente nada a sua atuação. Que importância tem a música, a cor do fundo da foto, o número de placas a serem espalhadas?

Política. Ideias se transformam em negócio.

E aí políticos do mesmo partido, com ideias semelhantes em muitos pontos – e que divergem em outros, como todo o mundo – acabam se afastando, porque a rotina da disputa diária acaba com as relações.

Fico imaginando aquelas equipes que investiram não só muita grana, mas também tempo, dedicação, amor a uma campanha e não veem o nome de seu candidato entre a relação de eleitos. A frustração. A sensação de tempo perdido, de quanto tudo aquilo era inútil. E por quê? Para quê?

Fico com a sensação de que alguma coisa está errada. Ou será que sou eu?

Para que serve a política eleitoral?

Poder: “o perigo de uma história única”

São quase 19 minutos capazes de uma verdadeira mudança de paradigma. O discurso é meio longo para esses tempos de velocidade, mas não estamos falando justamente em mudar parâmetros? Roubei do blog do Sátiro, que roubou do Brizola Neto, o relato da escritora nigeriana, Chimamanda Adichie, que faz repensar nossas concepções. Se o espectador acha que a África é um país cheio de macacos cercados por crianças esqueléticas ou se tem uma visão mais verdadeira e humana do continente, pouco importa. Vai interessar a ambos. Talvez de jeitos diferentes, talvez toque em pontos diversos do sentimento e da compreensão. Mas vai tocar.

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“Poder é a habilidade de não só contar a história de uma outra pessoa, mas de fazê-la a história definitiva daquela pessoa.”

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Para legendas, é só clicar em subtitles e escolher o idioma.

Poder: “o perigo de uma história única”