A democracia (?) britânica

Meu professor de inglês em Londres contava hoje que o governo britânico tem o maior banco de dados de DNAs do mundo.

Como? Ele conta uma historinha: um dia, quando era mais guri, protestava contra a globalização no centro de Londres. A polícia cercou o grupo por sete horas. Só saía quem desse uma amostra de DNA. Nesse meio tempo, ficaram sem comida, sem água, sem banheiro.

Desde antes dos atentados terroristas de uma década atrás, a polícia do Reino Unido pode prender e colher amostras de DNA qualquer um que suspeite de terrorismo, o que permite praticamente tudo.

Eu, incrédula: “Mas isso não pode acontecer numa democracia”.

“Pois é”, ele respondeu, rindo da minha ingenuidade…

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A democracia (?) britânica

A ocupação no Rio: pontos a considerar

Tenho visto muita gente argumentando que a Polícia invade morro mas não quebra sigilo de gente rica. E a afirmação serve de justificativa para questionar a ação policial e se posicionar contra. Existem alguns mitos importantes a se discutir, alguns pontos a se considerar.

1. Polícia não tem poder para quebrar sigilo. Importante diferenciar Poder Executivo de Poder Judiciário.

2. É evidente que é preciso combater o crime de colarinho branco, das “coberturas da Vieira Souto”, como tenho visto em alguns Twitters por aí. Mas uma coisa não anula a outra. É importante cobrar para que todas as formas justas de combate sejam feitas e que não se esqueça de perseguir os bandidos brancos dos bairros nobres, mas não é por isso que o governo deve deixar de tomar providências para combater o crime na favela, para enfrentar momentos de maior tensão, sempre mantendo o respeito à população, evidentemente.

3. Se não agisse, o governo estadual manteria as comunidades sob risco, nas mãos dos traficantes. Minha conclusão a respeito do começo do confronto é de uma revolta frente à perda de poder que eles temiam perder com a implantação das UPPs e a chegada do Estado às favelas. Ou seja, se não ocupasse agora, era deixar que a população dos morros continuasse sob domínio dos traficantes.

4. É ingenuidade criticar a ação policial com base na necessidade de se fornecer serviços públicos às comunidades. Ela é evidente e tem que ser defendida. Mas em um momento de crise uma escola não dá conta. O acesso a saúde, educação, segurança, lazer é importante para que não ocorram crises, para que haja dignidade nos morros. Mas em um momento agudo é preciso tomar providências urgentes. Que não sejam matar todo o mundo, evidentemente, mas que seja firme.

5. Ouvi falar em carnificina, mas não vi as fontes da informação. Houve alguns abusos, injustificáveis e que devem ser punidos, mas são alguns casos. É preciso avaliar a ação como um todo, a orientação que foi dada pelo governo. E essa orientação foi no sentido certo, de combater sem massacrar, como é de praxe. De evitar o confronto direto para não tirar a vida de inocentes.

6. A grande maioria dos comentários contrários à ocupação do Complexo do Alemão parte de pessoas que estão distantes e não conhecem a realidade da favela. Como eu, têm limitação na capacidade de avaliação. Para romper essa barreira e entender melhor o que se passa com os moradores das favelas, nada pode ser melhor do que ouvir quem está lá dentro vivendo essa realidade. Recomendo seguir alguns perfis no Twitter: @vozdacomunidade, @JJAfroReggae, @celsoathayde, @Cufa_Brasil. É com base neles e, claro, em especialistas, que tento formar minha opinião.

Os donos da razão

Pelo que se lê e ouve, todo o mundo conhece melhor a favela do que os moradores de lá. Chama a atenção como os ouvidos se fecham ao que não se quer ouvir. Em entrevista à Rádio Gaúcha hoje de manhã, José Junior, coordenador do AfroReggae, quase perdeu a paciência. Ao fim da conversa, fiquei curiosa para saber onde a Rosane de Oliveira e o André Machado, ambos jornalistas políticos gaúchos, fizeram suas especializações em segurança pública, para falar com tanta propriedade sobre o tema.

Chegou a ser patético quando a Rosane perguntou sobre os 16 mil envolvidos com o tráfico no Complexo do Alemão e, ao ser questionada se a informação abrangia a Penha, não respondeu, limitou-se a dizer que “é, são os números que a mídia nacional está divulgando”. Ficou sem argumentos quando José Junior rebateu que “a mídia nacional não entra no Alemão; os institutos de pesquisa não entram no alemão, então esses números são um chute, que não condiz com a realidade”.

Depois de desligar o telefone, leu um comentário de um ouvinte questionando a entrevista, com base no argumento de que o coordenador do AfroReggae teria citado serviços privados quando questionado sobre os serviços públicos levados ao complexo pelo governo Cabral. O comentário não considerou que ele começou, sim, falando nas empresas, mas sua resposta foi mais ampla, apesar da tentativa dos jornalistas de interrompê-la, e terminou fornecendo dados de investimentos já feitos e a serem realizados no Alemão.

Mas a Rosane de Oliveira “viu pela TV” que faltam serviços públicos na Penha. Ah bom! Então deve ser verdade. Se deu na Globo…

(Observação: é óbvio que faltam serviços públicos na Penha. Faltam em praticamente todas as favelas do Brasil. São décadas sem serviços públicos, suponho que demore um pouquinho para conseguir levá-los a todas as comunidades de forma a atender todas as pessoas, o que não anula o mérito de se ter começado. Inclusive, no Rio de Janeiro, ainda é um número reduzido de comunidades que têm UPPs. Elas estão sendo instaladas aos poucos. E mesmo as que já têm estão recém começando um processo de transformação, que ainda leva muito tempo.)

A lição que tiro, pra mim e pra todos, é que é sempre bom ouvir e ler bastante quem entende do assunto antes de formar uma opinião. Não precisa ficar especialista no tema, mas é importante prestar atenção em quem é diretamente envolvido.

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Legenda e crédito das imagens:

Policiais e comunidade convivem pacificamente no Complexo do Alemão. Uma nova realidade para os moradores, que estavam acostumados com o poder do tráfico. Reinaldo Marques / Terra

Um ônibus é queimado durante os ataques que vêm ocorrendo desde o final de semana no Rio de Janeiro. Jadson Marques / Futura Press

As duas acima foram tiradas do portal Terra. Recomendo uma olhada nas outras imagens. São muitas, de muita qualidade.

Tweet do José Junior, coordenador do AfroReggae.

Da reportagem do New York Times sobre as UPPs, tirada do Viomundo.

A ocupação no Rio: pontos a considerar

O Rio, os jornalistas e as opiniões

De cá de longe, dos pampas gaúchos, aprovo a operação da Polícia no Rio. Aprovo porque vejo o apoio da população, acho que pela primeira vez. E porque vi que ela não chegou atirando em qualquer um. Porque acho que não dá pra ignorar que esse é um momento de crise, embora o ideal seja levar o Estado para o morro no dia a dia, em serviços básicos de que a população precisa. Se fazer presente, para que o tráfico não ocupe esse papel.

Mas quem sou eu para saber alguma coisa? Não entendo de segurança pública, leio, mas não tenho conhecimento para falar de políticas públicas para a população. Dou aqui meus pitacos, sobre tudo um pouco. Mas sei que não tenho a razão, tenho apenas uma opinião, e quem disse que certa?

Por isso tento ouvir, tento ler, sempre. Para que os outros, os que sabem mais sobre cada assunto, me forneçam subsídios para que eu entenda um pouquinho melhor e formule minha opinião. Nesse caso do Rio mesmo, só formei a minha depois de alguns dias. E ainda assim duvido dela.

Sou jornalista, convivo com jornalistas e leio jornais. Por isso sei que é muito comum jornalista se achar dono da verdade, opinando sobre tudo sem considerar que pode estar errado. Mas ei, não é, viu. (e essa afirmação pode igualmente não ser verdadeira…)

Eu, particularmente, me policio diariamente pra não cair em tentação.

Claro que todos podem ter sua opinião, normal. Só é importante entender que nem sempre está certo. Até porque ainda não descobri um método infalível de determinar a posse da razão. Vale também sempre tentar construir a opinião com base em muita informação diversificada. Então, deixo alguns poucos links de alguns textos que li sobre os eventos desta semana no Rio de Janeiro – outros já não achei mais. E com a deferência aos que mantêm a cabeça aberta para construir suas opiniões a cada dia, pois me surpreendi com alguns, em blogs ou Twitter, que eu imaginava opinariam diferente, com base em discursos previamente construídos.

Rio de Janeiro, tragédia anunciada? – Blog do Tsavkko

A crise no Rio e o pastiche midiático – Luiz Eduardo Soares

Para além das UPPs, cidadania plena aos pobres do Rio de Janeiro – Maria Frô

A reportagem do New York Times sobre as UPPs – Viomundo

O Rio, os jornalistas e as opiniões

Imprensa e as soluções fáceis da “guerra” no Rio

Esses articulistas… Cito como exemplo o da Zero Hora, mas serve para tantos outros. Na página 8 da edição de hoje, Humberto Trezzi diz que “os PMs não alvejaram os criminosos do Complexo do Alemão em fuga” porque “ninguém, nem mesmo o mais fanático militarista, duvida das péssimas consequências políticas de uma chacina transmitida aos lares dos telespectadores”. Quer dizer, não matem pra não aparecer chacina na TV que fica feio, pega mal. O fato de se tirar vidas, ainda que seja de bandidos, é detalhe, não considerado. É a defesa da pena de morte – sem julgamento -, do “bandido bom é bandido morto”.

Evidente que não quero que o tráfico domine os morros cariocas. É claro que quero que a violência diminua o máximo possível, justamente para morrer cada vez menos gente, não mais. Mas está pra lá de provado que só repressão não resolve, que é preciso uma ação integrada de vários setores, com educação, inclusão social, oferta de serviços públicos de qualidade, já que muito da realidade dos chefes do tráfico e de todos os envolvidos com a atividade criminosa é fruto do meio em que se criaram; a gurizada às vezes não vê outra saída para as suas vidas. Em suma, é preciso oferecer dignidade a todos os setores da sociedade, abrir outras portas e escancará-las.

Mas isso é muito complicado, e as respostas prontas são muito mais fáceis. Assim, nossos jornalistas e articulistas noticiam a “guerra” do Rio como um filme, excitados com o clímax, o momento em que o Schwarzenegger vai aparecer e, com um dedo e sozinho, vai disparar contra todos os figurantes, matar todos. Felicidade total! O “bem” venceu o “mal”.

E no dia seguinte, chega outro guri, recém saído das fraldas, e toma conta de novo do morro. E o tráfico volta e cresce, sustentando parte da favela. E a repressão volta, as pessoas morrem e começa tudo de novo.

Engraçado que a edição desta terça-feira d’A Liga levou para as telas da Band o morro da Rocinha e a realidade das pessoas que vivem lá. Pessoas que trabalham, que vivem mal, sentem fome, mal têm teto para cobrir sua casa das chuvas. Mas que não gostam de drogas e morrem de medo que os filhos se envolvam com o tráfico, porque o amiguinho já fuma, já vende, já faz parte da rede, que tem tantas teias. Coincidentemente o programa foi ao ar esta semana, mas já estava na programação antes de ser deflagrada a “guerra” no Rio. Uma perspectiva mais humana da favela e menos cinematográfica, que não aparece por aí. Não interessa mostrar como vive gente pobre, só como morre.

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Ando meio rancorosa, porque fico triste. Vejo a imagem de pessoas com armas na mão – de qualquer um dos lados, independente do motivo que os levou a segurá-las – e tento entender por quê. Qual a razão de segurar um objeto que, se acionado, é capaz de matar? Em que tirar uma vida de alguém melhora a vida de quem mata? Tirando do contexto do enfrentamento, parece tudo tão absurdo. Não faz mais sentido que vivamos em harmonia compreendendo que o outro é tão alguém quanto eu? Mas para isso é preciso que tenhamos harmonia sempre, e harmonia pressupõe igualdade. De direitos, de oportunidades.

Imprensa e as soluções fáceis da “guerra” no Rio

Sindicato denuncia truculência da Brigada contra jornalista

Do RS Urgente:

Mais um episódio de truculência envolvendo a Brigada Militar no Rio Grande do Sul, uma prática que se tornou uma marca da instituição durante o governo autoritário de Yeda Crusius (PSDB). O fotógrafo Eduardo Seidl foi impedido de realizar seu trabalho nesta sexta-feira (1°) Eduardo estava fazendo a cobertura da greve dos bancários para o SindBancários, quando foi abordado pela polícia, ameaçado e obrigado a deletar fotos de um dos cartões de memória de sua máquina.

O primeiro episódio ocorreu na agência Navegantes do banco Santander. Um advogado da instituição apareceu no local com um interdito proibitório em mãos, coagindo os trabalhadores paralisados e ameaçando o direito de greve – assegurado pela Constituição. O advogado acionou a Brigada Militar, que agiu de forma truculenta. O diretor do SindBancários, Everton Gimenis, foi detido por mais de uma hora e algemado, mesmo sem apresentar resistência a ação da polícia.

O segundo caso presenciado por Seidl foi na agência do Itaú Unibanco, localizado na rua dos Andradas. Após imobilizar um dirigente, um PM tentou impedir com a mão o registro dos fatos.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul condena a atitude e lamenta que tais fatos ainda ocorram em plena vigência do Estado Democrático de Direito. A direção quer também um esclarecimento público da Secretaria de Segurança Pública no que diz respeito ao direito do trabalho jornalístico, que em momento algum pode ser impedido ou cerceado, ainda mais quando é realizado em um local público. As informações são do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS.

Foto: Eduardo Seidl

Sindicato denuncia truculência da Brigada contra jornalista

O 190 simplesmente não atende em Porto Alegre

A família que mora na casa do lado da minha é sempre grossa com todos do meu prédio.  Tratam mal sem motivo mesmo. Sabe riquinho metido a besta que se acha o dono do mundo? Eles se acham mesmo, tanto que cometem infrações. Por exemplo, o filho mais velho, que deve ter uns 10 anos, vive andando de moto na calçada aqui da rua. Não é uma super moto, mas é grande, tem motor, faz um barulho desgraçado e assusta as pessoas. Quase atropela às vezes.

Uma vez liguei pra polícia pra ver quão ilegal era a coisa. Bem, ele é menor de idade, dirigindo um veículo motorizado. Não tem carteira, evidentemente. E anda com esse veículo a motor na calçada. Nenhuma das três coisas é permitida. A polícia me disse que para registrar a queixa tinha que vir na minha casa antes. Desisti, pensando em quanto tempo eles perdiam com esse procedimento, tempo que podia ser usado para atender ocorrências.

Aí ontem o guri me acordou no meio tarde (fiz um concurso às 8 da manhã, tá) com aquele barulho dos infernos. Não dei bola. Hoje estou chegando em casa e quase sou atropelada. Subi, peguei o telefone e disquei 190. Chamou, chamou e nada. De novo.

Na semana marcada pelo descaso da Prefeitura de Porto Alegre, agora descubro mais uma negligência, mas do governo estadual.

E o guri continua ali embaixo…

O 190 simplesmente não atende em Porto Alegre

Denúncia de omissão nos órgãos públicos

Um botijão de gás começou a vazar com muita força no meu apartamento hoje pela manhã. O gás saía como se tivesse sido aberto um buraco no botijão. Tomou conta de todo o ambiente, com um cheiro forte e nauseante. Deu dor de cabeça e tonturas, a boca ficava seca. Ligamos para o Corpo de Bombeiros, que, incrivelmente, avisou que eles não fariam nada, devíamos ligar para a empresa que vendeu o botijão.

Tentamos denunciar o caso na Brigada Militar, no 190, para que a empresa fosse responsabilizada e recebêssemos alguma orientação de como proceder, o que fazer para resolver o problema. Mas a pessoa que atendeu o telefone disse que não tinha “faculdades mentais” pra orientar nesse caso. Nessas palavras, ele falou sobre si mesmo.

A empresa mandou um técnico, que levou o botijão e resolveu o problema. Foi ele quem informou que colocar um pano úmido sobre o vazamento faria com que ele parasse. Os órgãos públicos foram omissos.

As tentativas de entrar em contato novamente com o Corpo de Bombeiros foram várias, enquanto o atendente da empresa não chegava e o gás continuava vazando, mas o telefone simplesmente não atendia mais. Se tivesse pego fogo no prédio, teríamos que apagar com os pequenos extintores que os edificios são obrigados a ter.

Repito insistentemente: os órgãos públicos de defesa do cidadão foram completamente omissos. Irresponsáveis, eu diria.

Denúncia de omissão nos órgãos públicos