iG e Rede Brasil Atual veem dois debates (ou “palestra”?) diferentes

Até acho que a notícia que o iG focou em sua matéria sobre o debate com Paulo Bernardo de hoje (15), no Sindicato dos Bancários, era importante. Mas a diferença de abordagem é gritante, especialmente porque o iG fica apenas em um aspecto dos tantos abordados pelo ministro das Comunicações.

Comparemos os títulos:

iG: Verba das Comunicações cairá pela metade, diz Bernardo

Rede Brasil Atual: Bernardo reafirma que regulação vai ocorrer, mas sem correria

Nenhuma das duas é chapa-branca. Um bom tira-teima foi a minha reação frente à segunda manchete: não gostei nada de saber que a regulação vai demorar, me soou enrolação. Ou seja, não causou uma boa impressão do ministro. Isso não pode ser considerado chapa-branca, estamos de acordo?

Resumindo, a Rede Brasil Atual sintetiza o histórico da iniciativa pró-regulação da comunicação, contextualizando a notícia sobre a fala de Bernardo. Complementa informando quais serão os próximos passos do Ministério no tema. Em meio a isso, cita Paulo Bernardo, mostrando o que o ministro quis dizer. Falou sobre o Plano Nacional de Banda Larga e a proposta de criação de uma agência para tratar do conteúdo da radiodifusão.

Outro tema importante abordado pelo ministro – e pela matéria – foi a regulação da concessão de rádio e TV para deputados e senadores, que não só é ilegal, mas é principalmente imoral. Falou também da relação com as teles e sua interferência na política de expansão da banda larga. Além de tudo isso, ainda contextualizou o evento. Nesse caso, essa é uma informação importante, já que o fato de ser um debate transmitido ao vivo pela twitcam também explicita a orientação política do Ministério. A simples escolha do termo já diz muito da linha adotada pelo veículo. O “debate”, como bem chamou a Rede Brasil Atual – já que foi feito de perguntas e respostas – foi transformado em uma “palestra” no iG.

O tamanho das matérias também é sintomático da importância dada ao tema por cada portal. Com dez parágrafos, um subtítulo e uma foto, a Rede Brasil Atual sai disparado na frente do iG, com seus quatro secos parágrafos, nesse quesito.

A Rede Brasil Atual não tocou no assunto da redução dos recursos destinados ao Ministério, o que é feio, omitiu informação. Mas, se colocarmos na balança, fica claro quem escondeu mais. O iG SÓ falou no corte da verba. No último parágrafo, na última frase, citou a prioridade aos telecentros, atribuída ao ministro. Parecia que tratavam de entrevistas completamente diferentes.

Assim, das duas matérias sobre o mesmo tema que me chegaram via Twitter quase na mesma hora, chegamos a duas conclusões: a Rede Brasil Atual deixou a desejar; já o iG praticamente não informou.

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iG e Rede Brasil Atual veem dois debates (ou “palestra”?) diferentes

Lula: O Brasil vai ter que discutir comunicação, pelo bem da democracia

Sempre critiquei a política de comunicação do governo Lula, de seus oito anos. Agora mantenho a crítica, mas observo sua astúcia política nas críticas que tem feito recentemente. Não encarou a bronca quando presidente, porque a disputa ia ser feia, podendo prejudicar outros projetos devido à resistência ainda maior que ia sofrer, na tentativa da mídia de manipular a opinião pública. Mas Lula agora aproveita sua popularidade nas alturas, quando já vai deixando a Presidência, para forçar a discussão. Ele pode fazer isso, vai ser ouvido pelas pessoas – que o respeitam e o admiram – e sem comprometer seu governo. E mais, ainda chama para si a raiva da imprensa, deixando Dilma mais livre nessa reta final de campanha. Chama para si, que é praticamente inatingível, que é um fenômeno de comunicação.

Aliás, é preciso dizer que a astúcia política de Lula nunca para de surpreender – na comunicação e em outros setores. Ele tem uma visão do cenário, da sociedade brasileira, que nunca vi em nenhum outro político. Cada um de seus atos é muito bem pensado, com clareza e lucidez. E, acima de tudo, com inteligência. Isso fica claro na entrevista que concedeu ao portal Terra e que foi publicada na quinta-feira passada (links no final).

Se Lula parecia não valorizar a Confecom e as demandas por uma comunicação mais democrática, ele agora retoma a necessidade de se discutir comunicação, porque a legislação data da década de 60, está caduca. E de a sociedade participar do processo, para que efetivemos as mudanças necessárias da forma mais democrática possível, com ampla participação.

Quem pode ter medo da democracia?

Quem tem o poder, claro. É quem tem o que perder. Para se ter justiça e igualdade, em qualquer setor, uns têm que ceder o que têm sobrando para os que não têm. No caso, o espaço, a voz. Eles estão nas mãos das nove ou dez famílias apontadas por Lula, que concentram os principais meios de comunicação. Quando se veem acuados, atacam. Atacam tentando inverter a lógica da pluralidade democrática, confundindo o leitor-espectador-internauta-ouvinte e acusando o governo de censura ou intimidação.

Comunicação no governo Dilma

O mais sensacional na entrevista de Lula é que parece claro que um próximo governo petista assume disposto a discutir o tema. Parece que a comunicação será, sim, um setor estratégico do governo Dilma, como pedi aqui. Fica explícito quando diz: “o Brasil, independentemente de quem esteja na Presidência da República, vai ter que estabelecer o novo marco regulatório de telecomunicações desse País. Redefinir o papel da telecomunicação. E as pessoas, ao invés de ficarem contra, deveriam participar, ajudar a construir, porque será inexorável”.

A crítica da crítica

Quando jornalistas como Merval Pereira, William Waack, Miriam Leitão dizem que Lula quer cercear a liberdade de expressão por conta de algumas declarações dele reclamando do papel da mídia – sem nenhuma interferência concreta do governo na sua atuação, diga-se –, eles estão cometendo o mesmo “crime” de que acusam o presidente. O crime de se manifestar livremente, de exercer sua liberdade de expressão na crítica a uma instituição.

Tudo isso – a atitude golpista da imprensa, a crítica de Lula a ela, a contracrítica da mesma imprensa e até a manifestação dessa que vos fala – é possível porque vivemos em uma democracia, ainda que algumas partes desse processo abusem da democracia de que usufruem – mentindo, deturpando, difamando. Bem disse Leandro Fortes no Twitter: “Nosso maior dilema republicano: quando Lula critica a mídia, é ataque; quando a mídia ataca Lula, é crítica”.

E como eu mesma disse no post anterior: a imprensa vem batendo na questão da comunicação, como se Lula tivesse fechado os principais órgãos de imprensa e feito a revolução. Infelizmente não fez, apenas exerceu seu direito democrático de criticar quem o critica.

Ou como disse o próprio Lula na entrevista ao Terra: “O que acontece muitas vezes é que uma crítica que você recebe é tida como democrática e uma crítica que você faz é tida como antidemocrática”. Onde está a democracia que vale para um lado e não vale para o outro? Democracia de uma perna só, capenga. Hipócrita. Felizmente, não é o caso brasileiro, em que todos se manifestam até demais.

O que acontece, na verdade, é que a imprensa mente, difama, desonra, acusa sem provas. Isso, em um Estado democrático, não é admissível. Lembra a máxima de que a liberdade de um termina quando acaba a do outro. A liberdade de expressão não pode se sobrepor à presunção de inocência, por exemplo.  Ou a outras liberdades do tipo. Ou seja, para a democracia existir de fato, é preciso fazer valer o controle social da mídia, sim. Afinal, dizer qualquer bobagem, causando danos à sociedade, não é saudável à nossa tão batida democracia.

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Os links da entrevista de Lula ao portal Terra. Vale especialmente a primeira parte, que trata mais da comunicação.

Lula: “nove ou dez famílias” dominam a comunicação no Brasil

Lula: Erenice jogou fora a chance de ser uma grande funcionária

Lula diz que tiveram “medo” de tentar derrubá-lo em 2005

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Fotos de Roberto Stuckert durante a entrevista.

Lula: O Brasil vai ter que discutir comunicação, pelo bem da democracia