“A paisagem urbana está ficando monótona”

Aí vai a entrevista com o geólogo Rualdo Menegat, que comentei esses dias. Foi feita em junho de 2010, quando o imbróglio em torno do terreno do Morro Santa Teresa mobilizava ambientalistas e especuladores imobiliários, estes com o apoio da então governadora Yeda Crusius. O governo estadual, na época nas mãos do PSDB, queria se desfazer da área sem exigir garantias de preservação ambiental e de respeito aos direitos dos moradores das diversas vilas que ocupam o morro há décadas.

A entrevista foi publicada originalmente no Sul21, mas, como agora não a encontrei por lá e tenho muito carinho por ela, publico aqui de novo. Na época comentei aqui que…

Algumas pessoas ficam tão focadas nos detalhes que esquecem de olhar o todo. O geólogo Rualdo Menegat é exatamente o contrário. Conversar com ele amplia a visão de mundo, nos faz ter clareza de que não estamos sozinhos, de que precisamos conviver, seja com outras pessoas ou com a natureza. Precisamos enxergar o que está ao redor para vivermos bem, para entendermos que, se continuarmos egoístas, se só nos preocuparmos em crescer, em construir, em ganhar, vamos perder. E muito. O destino final desse caminho é o caos.”

A questão do terreno que abriga ainda hoje a Fundação de Atendimento Sócio-Educativo (Fase) foi resolvida, mas a discussão sobre cidade está mais atual do que nunca.

—–

Porto Alegre não precisa de mais concreto

Se a lógica urbana continuar evoluindo como está, caminharemos para a barbárie. A reflexão do geólogo Rualdo Menegat, professor do Instituto de Geociências da UFRGS e doutor na área de Ecologia da Paisagem, veio de uma conversa que partiu do Morro Santa Teresa, alvo de um projeto de lei do governo estadual que pretende alienar ou permutar uma área de quase 73 hectares, e se ampliou para o futuro da civilização. Na avenida Padre Cacique, quase em frente ao Beira-Rio, fica a entrada do terreno, que abriga a Fundação de Atendimento Sócio-Educativo (Fase, ex-Febem) e que se estende até as antenas das emissoras de televisão, no topo, a vila Cruzeiro, por um lado, e o Museu Iberê Camargo mais adiante.

Parte importante da paisagem da enorme cidade de Porto Alegre, Menegat vê na área valor cultural e ambiental. Ela contém vegetação ainda original, com espécies ameaçadas de extinção, nascentes e cursos d’água. O risco de entregar o espaço para a iniciativa privada é que não há legislação específica para esse tipo de terreno, podendo haver a aprovação posterior de projetos de construção grandiosos, mas que em nada acrescentem à cidade. “Nós já somos 4,5 milhões de habitantes numa enorme plataforma de concreto que não precisa mais de edificações”, afirma. Tudo isso, para Rualdo Menegat, é fruto de uma cegueira que ameaça a vegetação, a cidade como um todo e o futuro da civilização.

A ideia é discutir a relação do Morro Santa Teresa com a cidade, com a orla, pra partir para uma discussão mais ampla e aprofundada.

Uma das grandes questões ambientais hoje é que cada um ao seu modo se atém a um problema pontual. Nós fazemos uma análise ambiental da mesma maneira que o mercado fragmenta a natureza e a coloca à venda, como se nós fôssemos consumidores de um produto. “Então eu quero a minha orla assim, eu quero os meus pássaros assado.” E não olhamos o conjunto das coisas. Olha agora no Haiti. Como é possível que 220 mil pessoas não tenham consciência do lugar que habitam, dos riscos que ele oferece?

Então, em escalas menores, mas igualmente ameaçadoras e perigosas, colocam-se as grandes cidades. E Porto Alegre. Ela já não é mais uma metrópole pequena, com seus 270 mil habitantes da década de 50. Hoje nós somos 1,5 milhão. Mas Canoas tem mais de 500 mil. São Leopoldo, Novo Hamburgo, Esteio, Sapucaia e assim por diante.

E é tudo conurbado…

Tudo conurbado. Nós hoje somos uma cidade só. E essa cidade única, essa mancha contínua urbana tem 4,5 milhões de habitantes. Não é mais uma metrópole, já estamos numa outra hierarquia urbana que nós chamamos de cidade gigante, a megacidade. Estamos francamente na Era Urbana, em que mais da metade da população mundial de 6,7 bilhões de habitantes mora em cidades (hoje já chegamos aos 7 bilhões, e a América Latina deve atingir 90% de urbanização até 2020).

Para a megacidade de Porto Alegre não faz falta nenhum edifício que a torne mais atrativa, mais bonita, mais interessante. Ela não precisa de novas construções arquitetônicas para conseguir atrair investimentos. Nós já somos 4,5 milhões de habitantes em uma enorme plataforma de concreto que não precisa mais de edificações. Cada centímetro quadrado de área verde, isso sim, ela precisa. Seus estoques ambientais estão no limiar, reduzidíssimos, porque os processos da megacidade são muito rápidos. Veja Porto Alegre: em cinco anos mudou todo o perfil de edificação. Fermentou, cresceu como um pão sovado.

O Morro Santa Teresa pode ser considerado um desses estoques ambientais?

Exatamente. E nós precisamos conservar os estoques que nós temos. São esses elementos que quebram essa absurda monotonia urbana, da máquina urbana que nos engole, que nos engolfa. Um pássaro numa árvore pode ser um momento em que uma mente olhe, se distraia, relaxe, faça sua higiene mental, harmonize-se um pouco com o meio em que está, passe a respeitar melhor esse pássaro, essa árvore, e também a pessoa que está do lado dela.

De que forma esse pedacinho de Porto Alegre, o Santa Teresa, se insere nesse contexto da megacidade? Qual a importância dele nesse contexto?

Assim como a megacidade tem seus ícones arquitetônicos e urbanísticos – por exemplo, as torres do World Trade Center eram os ícones urbanos de Nova York –, da mesma maneira nós precisamos dos nossos ícones ambientais. Não é que não pode existir cidade, não é mais essa a nossa visão. O que nós não podemos mais admitir é uma cidade como se ela fosse uma cápsula fechada, que exclui, que varre de si a natureza, mas como um ambiente capaz de interagir com a natureza. E esse ambiente é ao mesmo tempo ambiental e cultural.

Então aquela área tem um valor simbólico?

Exatamente. Se a cidade não consegue ver um valor cultural no ambiental, ela destruirá o ambiental. No caso do Morro Santa Teresa, nós porto-alegrenses temos que reconhecer que ele é um valor cultural enorme para nós. Lá foram colocadas as antenas da Televisão Piratini, do canal 5, muito tempo atrás. Todo o Rio Grande do Sul se acostumou a ouvir: “Aqui no Morro Santa Teresa…”. Então ele tem em primeiro lugar um valor cultural enorme.

O Museu Iberê Camargo, ali no final da Padre Cacique, está incrustado no morro granítico, onde há uma mata. Olha que beleza isso aí, que conjunto cultural, paisagístico que nós porto-alegrenses temos. O arquiteto nos ensina com essa obra que a cidade, a cultura têm que estar alojadas dentro da natureza de forma a ter uma convivência, não uma exclusão. Esse fragmento do Morro Santa Teresa tem toda essa importância cultural, ambiental, icônica mesmo, que sinaliza a essa gigantesca metrópole que nós precisamos manter sempre as nossas manchas, mesmo que pequenas, porque já não são muitas.

Qual é a importância ambiental de manter essas manchas?

Temos que entender como as manchas poderão ter conectividade; as espécies precisam sempre de troca. Entendendo esse sítio como parte de uma megacidade, ou seja, que sofre uma pressão imensa, então nós temos que ter uma estratégia ambiental e cultural, senão ela soçobra. Se for só ambiental, vai ficar meia dúzia de ecologistas se desesperando para defender o impossível. Temos que entender a margem do Guaíba como um corredor ecológico, ambiental e também cultural, porque o Guaíba pode ser um local de fruição, de prazer. E com isso nós culturalmente sinalizamos que a água do Guaíba é importante. Essa é a primeira conectividade.

A segunda é a dos morros. Essas manchas dos morros podem se comunicar entre si e com o corredor da margem. O Morro Santa Teresa tem importância ecológica e ambiental em termos de sustentação das outras manchas. A maneira como hoje a cidade vê é que a defesa dos nossos estoques ambientais parece que a ameaça. Ora, essa cidade aí nada ameaça, ela é realmente muito grandiosa. Nós é que estamos ameaçados por essa cidade, as pessoas sentem que ela está violenta, parada, desleixada, caótica, e as pessoas tendem a se perguntar por quê.

Se houvesse construções nessa área, descaracterizando-a, teria algum impacto também no Guaíba ou seria mais um impacto urbano?

Sempre é perda. É como se nós retirássemos todos os musgos da calçada e houvesse só concreto. Há perdas decorrentes da precipitação d’água e a fraca infiltração no solo, porque daí só vai ter construções. A falta de conectividade faz com que os animais de uma mancha não consigam migrar mais pra outra, tenham menos oferta de alimentos e morram. Então tudo perece. Tudo vai sendo removido, tudo vai falecendo, deteriorando-se. Essa é a opção que a megacidade ainda pode fazer. Quer dizer que uma megacidade de quatro milhões de habitantes não pode escolher meia dúzia de metros quadrados de árvores para preservar?

É uma área muito valorizada do ponto de vista imobiliário, muito cara. E parece que só se tem interesse nesse ponto da questão.

Cria-se uma ideologia de que tem que garantir esse valor para que a cidade ganhe, quando é exatamente o contrário. Para garantir o valor imobiliário a esse terreno, a cidade inteira vai perder. Perdemos qualidade de vida, nosso estoque ambiental, a visão ecológica. É essa voracidade urbana de excluir a natureza. Por quê? Porque ela não faz parte da cultura.

Ali no Morro Santa Teresa está a base da disseminação da informação das emissoras de TV, de rádio, portanto da cultura, mas que é incapaz de transmitir uma cultura de preservação da sua base, do seu núcleo, da sua história. Em nome do quê? Qual é a vantagem em ceder essa mata? É uma perda para todos. E se houvesse, digamos, uma grande vantagem arquitetônica para a cidade, para o seu embelezamento, até poderíamos discutir. Mas nem isso, porque os edifícios que hoje se constroem são cada vez mais pobres em informação, em cultura. A nossa paisagem urbana está ficando monótona, e isso embota o cérebro. Ele desiste de fazer uma leitura da paisagem porque ela é sempre a mesma.

O Jornal do Comércio fez um levantamento que em quatro meses foram aprovados 1.289 projetos imobiliários em Porto Alegre, com 1,5 milhão de metros quadrados de área construída. Que consequências isso traz?

Desastrosas. A cultura humana está empobrecendo, como se nós estivéssemos lobotomizando aquilo que define a essência do ser humano, que não é andar sobre duas pernas, não é só ter um cérebro grande. O que é essencial é a capacidade desse indivíduo bípede e com seu cérebro de interpretar a paisagem e transformar essa interpretação em cultura, em instrumentos que lhe possibilitam sobreviver. Se eu estou transformando a paisagem num imenso monólogo, numa mesma linguagem que nada informa, bom, eu estou conduzindo esse cérebro ao seu embotamento.

E de quem é a responsabilidade por a gente ter chegado a esse ponto? Dos governos, da mídia?

Essa responsabilidade é muito grande, então nós vamos dizer que ela é uma responsabilidade civilizatória. O problema não é dessa cidade nem daquela, não é desse país nem daquele. O elemento operador dessa cegueira, como diria o Saramago, é a ideologia urbana. Se você perguntar para o cidadão o que ele quer da cidade, ele quer que seja veloz, limpa, não quer pensar de onde vêm os materiais que ele consome e para onde vão depois de serem consumidos. Ele quer que a cidade tenha todas as ofertas disponíveis no planeta.

A cidade tem em essência duas importantes ideologias: a da voracidade e a da velocidade. Ela quer mais do que a sua capacidade de assimilar e de metabolizar. E essa voracidade é tão estúpida que, dada a enormidade de rejeitos que poderiam ainda ser usados que a cidade produz, nós poderíamos ter qualidade de vida para imensos contingentes populacionais. A cidade tem que pelo menos deixar de ser egoísta com seus rejeitos. Ela precisa ser transformada na sua ideologia profunda, para que queira menos e assimile mais.

E a outra ideologia urbana, que é terrível, é a velocidade, responsável por nós não olharmos mais o jardim do nosso edifício, a rua. Antigamente era muito comum as pessoas de um edifício, de uma casa, sentarem-se na frente, na calçada, pra tomar um chimarrão. E hoje, você vê ainda? Essas coisas tão importantes da vida comunitária a cidade perdeu. Esse é o grande perigo.

Essa é uma tendência que não é local, é mundial.

Sim, é da civilização.

Mas falando de Porto Alegre, parece que agora finalmente vai ser aprovada a revisão do Plano Diretor. Ela vai nessa direção? Pra que direção essa revisão está levando Porto Alegre?

É, finalmente, depois de sete anos. Aí nós vemos o quanto nossos mecanismos de gestão urbana estão insuficientes diante da megacidade. O Plano Diretor define índices de construção, onde pode ser construído e onde não pode, quanto se pode construir, que padrões construtivos, mas ele não é capaz de fazer a gestão do metabolismo urbano, a gestão das áreas fragmentadas, da vegetação remanescente, de estabelecer corredores ecológicos. A cidade tem instrumentos de gestão parciais.

O Plano Diretor atende à normatização imobiliária e à cobrança de impostos que deriva disso, o quanto que o caixa do município vai encher. Não se discute a gestão integrada da cidade. Ela cresce, se complexifica, se torna veloz, se torna voraz etc., e a nossa cultura não é capaz de fazer acompanhar esses desafios com instrumentos adequados. E por quê? De novo a questão cultural. Esses instrumentos atendem a um certo perfil de interesses, de empreiteiros, de donos de imóveis, de fornecedores, que os tornam a única maneira possível de gerir o meio urbano.

Mas não seria papel das administrações, dos governos, tentar frear essa cultura empresarial?

Sim, seria. Seria papel se eles tivessem uma outra visão, uma visão humanista muito profunda.

E as administrações não têm?

Não. Esse sistema civilizatório que está aí vai segregar a humanidade num grau que não teremos mais uma humanidade, mas muitas humanidades. E desumanidades, portanto. Se nós não mudarmos esses instrumentos pra um humanismo profundo, radical mesmo na sua essência, nós vamos entrar num sistema de uma excludência – aliás, já estamos – absurda.

A minha geração, que hoje tem 40 e poucos anos, se construiu temendo a guerra. O Vietnã nos colocou no mundo de uma forma abrupta, o mundo em guerras atrozes, uma coisa absurda. E o que está colocado para a geração de hoje? É assistir o perecimento de 220 mil pessoas por causa de um tsunami, ou de um terremoto, ou de desastres resultantes dessa incapacidade da civilização ler a paisagem, ler o mundo em que vive, acomodar essa cultura à dinâmica do mundo. Olha agora ali na Europa, esse vulcão na Islândia é noticiado como se ele não pudesse existir. Eles dizem: “Ah, um vulcão, que não deixa o aeroporto de Londres funcionar, vejam quantos males esse vulcão patrocina, o quanto que os caixas deixaram de receber”. Mas o que é isso?

A gente vive numa dependência de tecnologias que parece que se parar um pouco…

É a ideia de velocidade, que não pode ser detida nem pela natureza. Essa é a civilização que está aí e está promovendo uma absurda segregação humana. A geração atual aí vai viver daqui a 40 anos, logo ali, um mundo com 9 bilhões de pessoas, das quais 7 bilhões urbanas, contra um mundo atual de 3,6 bilhões de urbanas. Em 40 anos o mundo urbano vai dobrar.

E estamos preparados?

Não, porque nós não queremos nem deixar uma pequena mata sobreviver. Se hoje a coisa está assim, imagine dobrar, duplicar. Dobra a população mundial, mas os índices maiores de crescimento vão se dar na Ásia e na África, no Terceiro Mundo. Nós no Brasil vamos manter uma taxa bem inferior, mas mesmo assim vamos crescer bastante no meio urbano. Então a megacidade de Porto Alegre, hoje com 4,5 milhões, vai chegar aos seus 6 ou 7 milhões de pessoas. Que mundo temos aí à frente? Um mundo ameaçado pelos desastres resultantes da própria falta de visão, a própria cegueira da civilização. E esses desastres são monumentais.

Esses desastres substituíram as guerras?

Sim, e produzem enorme sofrimento à humanidade. A cultura, de novo ela, é importante para o ser humano porque possibilita a nossa sobrevivência. Se esses seres humanos perecem, é porque não há cultura. Se uma civilização não é capaz de levar a cultura, ela está satisfeita com o fato de que aqueles que perecem são uma certa camada da população mundial. Esses desastres não atingem a todos da mesma maneira, e essa civilização não está mais preocupada.

Uma cultura de desastres que favorece a desigualdade?

Isso, e a dizimação dessa parcela da população. Sua dizimação pura e simples, como se fosse uma guerra. Aí está a questão civilizatória dos próximos 40 anos. Por isso que a defesa das nossas manchas daqui não é uma visão de alguém que é egoísta, mas de alguém que enxerga essa projeção para o futuro imediato, para os nossos filhos. As pessoas não conseguem nem pensar no futuro dos seus filhos. Acham que vão se salvar, não sei. Não percebem que a água contaminada será para todos, o ar contaminado será para todos, ninguém se escapa.

Como reverter…?

Não há solução tecnológica, primeira questão. A ciência não sabe o que fazer, não é uma caixa de magia, que toca com uma varinha mágica e tudo se resolve. Seria como pedir pra ciência parar um vulcão. Não podemos fazer isso, é da dinâmica da Terra. É melhor saber prever como se preservar a vida diante de uma extrusão vulcânica. É preferível uma cultura que aceite o vulcão.

Mas o que nós podemos fazer, então? Nós podemos é mudar a cultura. E nós não temos outra maneira de mudar a cultura urbana se não fazendo com que as pessoas participem, se dêem conta.

Participar de que forma?

De várias formas. Não só as formas antigas, que é reunir comunidades, reunir o condomínio. E fazer coisas. Por exemplo, por que não colocar uma compostagem no teu edifício? É um desafio. O nosso condomínio hoje deve ser um lugar de desenvolvimento de uma comunidade para construir uma cultura da solidariedade e da sustentabilidade.

A sociedade não consegue mais transferir os seus valores. É a comunidade que transfere valores aos filhos, não a cidade. E se nós não formos mais capazes de construir comunidades, então nós somos incapazes de transferir valores.

É uma crise de valores…

Isso, é uma crise de valores, uma crise ética, e a sociedade tem que se recompor pra isso. Só que, se a sociedade quiser correr ao invés de se recompor, bom, essa sociedade entrará em caos. Quer dizer, um caminho é o caos, que é a barbárie humana. Quando nós vivemos num grande contingente populacional sem nos reconhecermos como participantes de uma mesma comunidade, nós nos enfrentaremos.

E esse enfrentamento é a barbárie, cada um por si, não existe mais Estado, não existe mais civilização, é cada um por si.

De repente a partir daí surge uma coisa nova…

Quem sabe, né? Talvez. Da nossa linda mancha urbana… Eu vejo com muita importância essas discussões das nossas manchas urbanas. Se a civilização não consegue olhar uma pequena mancha de árvores e achar que isso é importante num espaço que já está todo concretado, realmente, o que nos resta é a barbárie. Não é a natureza que eu estou expulsando apenas, é a natureza e as culturas que não me pertencem. Porque a maneira com que tu te relacionas com a natureza é a maneira com que tu te relacionas com o outro. Então essa é a importância cultural de uma mancha da natureza dentro da cidade: ela representa o outro, a aceitação da diversidade cultural.

O que a gente tem que fazer hoje é ir devagarinho abrindo espaços consistentes, é não esmorecer, é saber que a estrada é muito longa. São 9 bilhões de pessoas, não tem atalhos. O que transforma realmente é a cultura.

“A paisagem urbana está ficando monótona”

Porto Alegre precisa de mais espaços públicos de convivência

Soube essa semana da intenção da Prefeitura de transformar parte da praça em frente ao Gasômetro em estacionamento. Descobri que faz parte da obra de revitalização prevista para o local. Foi assim que fiquei sabendo que fazer estacionamento significa revitalizar, para a administração municipal (a foto aí do lado é de divulgação da tal revitalização, sem mostrar a parte onde vão ficar os carros).

Eu fico realmente triste com esse tipo de notícia, porque ela nos faz constatar na prática a inversão de valores que já se dá em tantas questões do nosso cotidiano coletivo. Coletivo, mas não comunitário. E é justamente essa a questão.

Uma vez conversei com o geólogo Rualdo Menegat (infelizmente não encontrei a entrevista, que foi publicada no Sul21 em junho de 2010, mas vou achar o arquivo e republicar aqui nos próximos dias) e ele me falou muito da importância de retomar a vida em comunidade, de a gente reaprender a conviver, de sentar na calçada, conversar com o vizinho, fazer composteira no condomínio. Um monte de coisas bacanas, que não são nada utópicas e contribuiriam enormemente pra gente enxergar um pouco mais o outro e ter uma vida mais leve, menos egoísta. Fazer da experiência de viver um negócio bom, prazeroso.

E isso significa andar mais a pé, deixar o carro um pouco de lado, usar as praças, apropriar-se coletivamente dos espaços públicos. Usá-los, usufrui-los.

O que a Prefeitura faz é exatamente o contrário. Ela fecha espaços de convivência e aumenta a área destinada aos carros. Quanto mais automóveis nas ruas, menos gente a pé, menos prazer de andar a pé. Menos vida nos espaços públicos. Foi assim que o largo Glênio Peres virou um estacionamento depois das 18h e que várias ruas do Centro antes destinadas a pedestres viraram trafegáveis (aumentando o caos para quem circula por ali).

O que falta em Porto Alegre são justamente espaços de convivência decentes, pra retomar uma vida mais comunitária, mais saudável, em que as pessoas conversem, se conheçam. Do jeito que vai, cada dia mais a gente vai ficar dentro dos nossos micro-espaços, isolados. Saio do meu apartamento, entro no meu carro, vou até o shopping (onde eu não converso, porque não vou lá pra passear, vou pra comprar), volto pro meu carro e me fecho de novo no meu apartamento. É óbvio que essa é uma caricatura exagerada, mas parem pra pensar em quanto a gente tinha de convivência antes e quanto a gente tem agora. Minha vó conhecia os vizinhos da rua inteira!

(Não odeio carros, viu. Acho que eles são super úteis, mas que não servem pra ir comprar pão na esquina e que não são legais quando a regra é ter uma pessoa dentro de cada carro pra ir de um lugar a outro no dia-a-dia. Há exceções, óbvio, mas falo em linhas gerais.)

Mas voltando pra questão da cidade, a gente precisa priorizar alternativas de convivência. E isso passa por investir em praças e parques, iluminação pública (voltada para as calçadas), bicicletários e ciclovias, cultura popular etc.

Em vez de preservar, promover espaços de convivência, cuidar do que é público, o que vem acontecendo é que a Prefeitura deixa degradar os nossos espaços para vir com o argumento de que como está não dá pra ficar, daí empurra qualquer solução pra cima do povo. Foi o que tentaram fazer no Pontal do Estaleiro, por exemplo.

É uma política invertida, toda errada, que privilegia no curto prazo uma parcela pequena da população. Mas que no final, na verdade, acaba prejudicando todo o mundo, na medida que essa visão de sociedade excludente não faz bem pra ninguém.

Porto Alegre precisa de mais espaços públicos de convivência

Não-jornalismo a favor de Manuela, adivinha onde

20120801-225650.jpg

Qual é a intenção dessa nota “Dois corações”, da Carolina Bahia, na Zero Hora desta quarta-feira? Que sentido tem uma nota que não informa, que o leitor termina de ler se perguntando o que, quem, quando, onde, como? Ou seja, uma nota que não responde nenhuma das perguntas básicas que são a razão de existência do jornalista. Onde já se viu o leitor terminar de ler uma coisa que deveria ser jornalística curioso pela informação que a jornalista sugere mas que não está ali? Já vi fonte em off, mas a informação toda ser um grande off não é informação.

Vale pensar no que está por trás de passar pro leitor algumas frases sem conteúdo, apenas com insinuações. O que há de concreto ali é que, segundo Carolina Bahia, algum figurão do PT não apoia Adão Villaverde, o candidato do PT à Prefeitura de Porto Alegre, mas Manuela, do PCdoB. Por que se deduziu que ele apoia Manuela também não está dito, já que teoricamente a fonte da informação é a negação do tal ministro de gravar um vídeo de apoio a Villa, ou seja, poderia preferir qualquer outro candidato de qualquer outro partido ou simplesmente ser de outra tendência interna, ser personalista, não gostar do Villa. Enfim, trocentas possibilidades. Mas a não-informação foi construída convenientemente a favor de Manuela. Nada está claro ali, nada ali informa. Resta saber onde ficou o jornalismo.

Não-jornalismo a favor de Manuela, adivinha onde

Inaugurada a primeira das 22 partes da ciclovia da Ipiranga

Da série “só acredito vendo”.

Não bastasse fazer uma ciclovia no lugar errado, fazendo o ciclista trocar de lado cinco vezes pra ir do Praia de Belas à PUC (quando ficar pronta), tudo pra não atrapalhar a lógica “trânsito é pra carros”, o prefeito de Porto Alegre e, principalmente, candidato à reeleição, José Fortunati, inaugurou a obra, com pompas e circunstâncias, quando pronta apenas uma quadra.

Gente, juro, uma quadra!

Andou de bicicleta, de capacete e tudo (embora na contramão – bem na hora da foto e em cima do desenho da bicicletinha no chão, pra ficar mais escancarado), foto pra imprensa, festa e tal. Todo um escarcéu porque está construindo algumas quadras de algo que deveria ter em 495 km da cidade, segundo o Plano Diretor Cicloviário, de 2009. Mas ok, a política da prefeitura atual não é valorizar o ciclista, isso a gente já sabe. O que ficou mesmo muito feio foi inaugurar 416 metros de uma obra de 9,4 km. A ciclovia inteira vai estar pronta quando tiverem feito 22,6 pedaços como esse. Vai inaugura mais 22 vezes? É como fazer chá de casa nova quando a primeira parede estiver pronta.

Ô Fortunati, era mais digno ter feito a obra um pouquinho antes e ligeiramente mais rápido, pra dar tempo de inaugurar ela toda antes do período eleitoral, né. Assim fica meio na cara, #ficaadica.

Inaugurada a primeira das 22 partes da ciclovia da Ipiranga

Porto Alegre e as opções para outubro

O Rio Grande do Sul, estamos cansados de saber, é um universo à parte na política partidária (e em que tantas outras coisas, diga-se!). Aqui, PT e PMDB são adversários ferrenhos. PMDB é sabonete, como no resto do Brasil, mas muito mais identificado com a direita do que em nível nacional, em que tem mais facilidade de transitar pelas diferentes esferas.

Mas há anos o PDT de Brizola anda de mãos dadas com esse PMDB, que agora já confirmou apoio ao candidato trabalhista (sic), José Fortunati, que assumiu o paço quando o peemedebista Fogaça pulou fora pra se candidatar (e sequer ir ao segundo turno, caindo no ostracismo prematuramente) ao governo do estado. Fortunati não só apoiou o retrocesso promovido por Fogaça (formando a queridíssima dupla Fo-Fo) como o aprofundou quando assumiu o barco. Porto Alegre, hoje, não tem mais o protagonismo que tinha no cenário mundial em termos de cidadania e participação popular. E pior, a capital dos gaúchos malemal mantém serviços básicos, totalmente defasados.

Brizola revira-se, coitado!

Enquanto isso, a comunista Manuela D’Ávila corteja o Partido Progressista de Ana Amélia, a senadora da RBS. Se vai levar ou não, ainda não sabemos (embora o PP esteja dividido, a tendência é que indique, sim, o vice na chapa com o PCdoB). O que importa, na verdade, é que os comunistas querem muito dar as mãos à ex-Arena. Tudo isso enquanto vangloria-se da história de 90 anos do Partido Comunista.

Diante da incoerência, quem se revira, agora, é Luis Carlos Prestes e todos os outros tantos líderes do partido (muitos mais do que no PDT de Brizola), muitos dos quais morreram nas mãos da Arena.

E são essas duas coligações esdrúxulas que aparecem na ponta das pesquisas eleitorais. Amarguemos, pois.

Sobre a coligação comunistas-Arena, deixo-vos com Latuff, bastante mais claro e contundente que eu:

Porto Alegre e as opções para outubro

Para voltar a ser alegre

Não nasci, mas cresci, estudei, trabalhei, sempre morei em Porto Alegre. Acompanhei diversos momentos por que passou a nossa cidade, e fica impossível não comparar a capital do passado com a capital que temos hoje.

Porto Alegre foi o palco da criação do Fórum Social Mundial porque já era referência de uma política participativa, que considerava todos e todas como cidadãos ativos no processo de construção democrática.

A capital também já foi exemplo de qualidade de vida. Teatro, cinema, exposições e outras atrações culturais davam inveja às outras grandes cidades. Nosso transporte público aparecia sempre na lista dos melhores do país.

Ainda hoje o pessoal de outros estados não acredita muito que Porto Alegre é tão violenta como qualquer outra cidade do tamanho dela. “Mas em Porto Alegre quase não tem assalto, né?” Essa Porto Alegre já não existe mais. Os índices de violência sobem, mas Porto Alegre delega a responsabilidade sobre segurança pública exclusivamente ao estado ou à União.

Quem fez de Porto Alegre aquela baita cidade, que escolheu e construiu junto uma alternativa de desenvolvimento solidário, foi o porto-alegrense. Agora Porto Alegre não é mais a mesma. A sociedade não é mais a mesma. Os desafios são outros, e as soluções têm que ser novas. Mas qualquer uma delas passa, inexoravelmente, pela participação e pela integração. Está nas mãos do porto-alegrense escolher o que quer. Nas eleições daqui a alguns meses, mas também no dia a dia. Porque ele é aquele motorista estressado que quase passa por cima da bicicleta. Ele também é aquele que prefere ir no shopping do que no teatro. Ele não tem ideia do poder que ele tem.

No dia em que Porto Alegre comemora seus 240 anos, torço para rever o quanto antes o espírito que alçou nossa capital para o mundo.

Para voltar a ser alegre

Porto Alegre não tem alternativa decente de transporte

A situação dos porto-alegrenses anda complicada. Sem alternativa mesmo. Este post é para ele(a)s.

Se o cara tem carro, além de ficar preso no trânsito em alguns pontos e horários críticos, ele também tem que conviver com o local em que o grau de competitividade das pessoas está mais exacerbado. É quase um risco de vida, ou por tiro de algum maluco que não conseguiu te ultrapassar ou por infarto.

Mas estou fugindo do assunto. O problema é que, se a pessoa não quer passar por isso e/ou não tem grana para ter carro, ela também está com problemas, e ainda piores. Ciclistas estão tendo que forçar um espaço que a cidade não dá para eles. A Prefeitura não tem planejamento cicloviário de longo prazo, e os motoristas, de um modo geral, ainda não aprenderam que quem está em cima da bicicleta é tão cidadão quanto o que está dentro do carro, só que mais indefeso. Não te esqueças daquilo que eu disse: a competitividade multiplica no trânsito.

Sobra, então, o transporte público, que foi justamente o que me levou a escrever agora. Piada, infelizmente. Juro, além de irritada, fico triste cada vez que vou pegar ônibus. Triste por lembrar de como era no passado, de que não tanto tempo atrás Porto Alegre era referência nesse quesito, de que eu tinha orgulho de dizer que o transporte aqui era bom, que a gente não precisava ter carro, porque o ônibus dava conta e sobrava até. Agora, não.

O T5 é o ônibus que eu pego com mais frequência, e também o que eu pegava para ir pra faculdade, de 2005 a 2009, o que me dá certo parâmetro de comparação. Inegavelmente, ele foi piorando com o passar dos tempos e, nas últimas semanas – depois dos seis meses que eu passei fora da cidade, mais os outros em que eu não fazia esse trajeto –, o impacto foi gigante. No dia do temporal, esperei meia hora na parada e fiquei mais meia hora dentro do ônibus para fazer um trajeto que antes era cumprido em dez, no máximo 15 minutos. Mas ok, naquele dia a cidade parou, não vale.

Então, peguemos um dia normal. Não foi um ou dois em que esperei mais de dez minutos em horário de pico. Não fiz o registro de todos, porque, afinal, eu era só uma passageira irritada, que não pensa em documentar ou reclamar, porque sabe que não adianta. Mas quarta-feira passada, dia 21, eu cheguei na parada às 8h30min, bem na hora em que o André Machado dava a hora na Gaúcha, que eu ouvia pelo fone e que me permitiu gravar os detalhes. O T5 chegou às 8h49min. Ou seja, o intervalo entre um ônibus e outro foi de, no mínimo, 19 minutos. Perguntei pra cobradora qual o intervalo médio para o horário. Uns 9 minutos, achava. Fui conferir: é de 7. Oito minutos é o tempo máximo de espera para o horário, segundo o site da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC).

Dois dias depois, me chegou a notícia de que a Prefeitura estava comprando 27 novos ônibus para a frota de Porto Alegre. Passada a alegria inicial, murchei. Oito deles vão ser articulados – qualquer um que já pegou um minhocão sabe o quanto eles são desconfortáveis – e só 17 têm ar condicionado. Faz anos, desde quando ainda era governada pelo PT, que a Prefeitura diz que logo logo a frota inteira vai contar com o que, em Porto Alegre, não é comodidade, mas necessidade no verão. E foi num daqueles dias insuportavelmente quentes que peguei um (dos vários que pegaria depois) T2 sem ar condicionado, quase passei mal e, no meio do caminho, passei por um grupo de passageiros que esperavam no sol pela reposição do T4 que quebrara na Terceira Perimetral.

Corrigir esse problemão agora não é fácil. Seria bem mais tranquilo ter investido para manter o alto padrão que tínhamos, mas agora já era.

Quer dizer, o transporte público não só não melhorou como piorou. Mas, mesmo assim, soube encarecer. O que me lembra, aliás, que não falei sobre as lotações. E nem vou falar, simplesmente porque nunca mais peguei uma e não sei se estão cumprindo seus horários, se o conforto está ok e tudo o mais. Não importa tanto, afinal, estão impagáveis nos seus quatro reais.

Porto Alegre não tem alternativa decente de transporte