Portugal sente a crise

Não precisa mais que alguns poucos dias em Portugal para ver e sentir que a coisa está feiatugal para ver e sentir que a coisa est. O país nos recebe bem e é um lugar extremamente agradável de visitar. Mas talvez não esteja mais tão bom assim de morar. A impressão passa pela sensação de insegurança ao andar nas ruas, de tristeza pela quantidade enorme de gente pedindo dinheiro (incluindo muitos idosos), a gurizada vendendo drogas em dia claro, o aviso constante para cuidar dos pertences por causa de assalto. Fica a impressão mais subjetiva de que falta alguma coisa, de que já não é como era, mesmo que eu nunca estivesse pisado em terras portuguesas antes desta última semana. Isso vem na voz dos portugueses. E nas páginas dos jornais.

Com a notícia de que a Grécia vai fazer um referendo para decidir se continua ou não na zona do euro e a incerteza que isso causa, Portugal tremeu. Sabe que está na fila e sua vez está chegando. É o próximo a encarar o furacão, dependendo de como as coisas andarem no companheiro ainda mais fraco que está se segurando para não ir à bancarrota. Na verdade, se segurando para não admiti-la, ela que já é evidente.

A Europa está tensa. O imprudente presidente francês – que o professor universitário português Viriato Soromenho-Marques chamou, no jornal Diário de Notícias, de “insulto continuado à grandeza da França” –, Nicolas Sarkozy, já disse que seria melhor a Grécia não ter adotado o euro, mas agora treme diante da possibilidade de ela fazer-lhe a vontade.

O referendo chamado pelo governo grego é uma oportunidade de o povo exercer a democracia, ainda que não tenha sido chamado por esse motivo. A verdade é que a Grécia está numa sinuca de bico, e aceitar as condições impostas desde Berlim não é tarefa fácil. As medidas de austeridade vão prejudicar ainda mais o já combalido povo grego, especialmente, como sempre, os mais pobres. Então o governo faz um pacote e joga a batata assando para as mãos dos eleitores. Ou ficam na zona do euro e aceitam as medidas ou demonstram sua soberania negando a imposição externa, mas assumem as consequências de abandonar a moeda comum. Não há meio termo.

A culpa, nesse momento, não é exatamente do primeiro-ministro grego, George Papandreou. A União Europeia lhe impôs a condição, e ele repassou-a ao povo. A situação agora é imprevisível, ainda que mais de 70% dos gregos não queiram abandonar o euro. Os mercados devem flutuar nesse tempo de incerteza até o começo de dezembro, quando o referendo deve ser realizado.

Portugal vai continuar observando e torcendo, enquanto os articulistas de seus jornais clamam por uma postura sensata de fazer o que for necessário para resguardar a estabilidade e proteger a moeda. É o que a chanceler alemã, Angela Merkel, quer, como já deixou claro ao afirmar que salvar o euro é mais importante do que salvar a Grécia. Ela sabe que a União Europeia está em crise e o euro pode dançar à medida que os países endividados (já estão na lista também Espanha e Itália, além da Irlanda) forem quebrando. A gente vê nas ruas de Portugal o resultado da sensatez de abdicar de sua soberania e submeter-se às vontades da EU. Como elo fraco, nunca dá as cartas, sempre baixa a cabeça. E como elo fraco, sempre arca com o prejuízo.

O país das grandes navegações agora vê seu navio balançar. Para a Europa, perder Portugal pode não ser tão simples quanto perder a Grécia (não que isso o seja). Mas quando a estabilidade do euro está em jogo…

Portugal sente a crise

O meu Brasil é com “S” – Primeiro ministro de Portugal homenageia o Brasil de Lula

JOSÉ SÓCRATES

Lula era o homem certo; sem complexos
ou desfalecimentos, o antigo
sindicalista esperou e preparou
longamente o encontro com o seu povo

Raros são os políticos que dão o seu nome a um tempo. Os “anos Lula” mudaram o Brasil. É outro país: mais desenvolvido economicamente, mais avançado tecnologicamente, mais justo socialmente, mais influente globalmente.

Uma democracia mais consolidada, uma sociedade mais coesa e mais tolerante. Sabemo-lo hoje: no Brasil, o século 21 começou em 1º de janeiro de 2003, o dia inaugural da Presidência de Lula.

Quero ser claro: Lula mostrou que a esquerda brasileira sabe governar. Causas, sim, mas competência também; princípios políticos, mas também eficácia técnica; realismo inspirado por ideais que nunca se perderam.

Este presidente, oriundo do PT, deu à esquerda brasileira credibilidade, modernidade, força e maturidade. A grande oportunidade da sua eleição não foi uma promessa incumprida ou um sonho desfeito.

Ao contrário, com Lula, a esquerda ganhou crédito e consistência; o Brasil, reputação e prestígio.

Sou testemunha das reservas, se não do ceticismo, com que a “intelligentzia” recebeu a eleição de Lula da Silva. Hoje, na hora do balanço, a descrença transmutou-se em aplauso; a expectativa, em admiração. É essa a “alquimia” Lula.

Os números falam por si: crescimento econômico, equilíbrio financeiro, reputação nos mercados, milhões de pessoas arrancadas à extrema pobreza, salto inédito na educação e na formação profissional, melhoria do rendimento que alargou e consolidou a classe média brasileira.

Lula era o homem certo. A sua história pessoal e política permitiu dar à esquerda uma nova atitude e ao Brasil um novo horizonte. Sem complexos e sem desfalecimentos, o antigo sindicalista esperou e preparou longamente o encontro com o seu povo. Se falhasse, não falharia apenas ele: falharia um ideal, um sonho, um projeto, esperança do tamanho de um continente.

Foi também nesses anos vitais que o Brasil se afirmou como o grande país que é. “Potência emergente”, como é habitual dizer, assume-se -e vai se assumir cada vez mais- como um dos grandes países que marcam o mundo contemporâneo. Pela sua grandeza e pela sua energia, tem tudo o que é necessário para isso.

Portugal tem orgulho deste grande país, com quem partilha uma língua, uma fraternidade, um passado, um presente e um futuro. Tudo isso queremos valorizar e projetar: aos sentimentos que nos unem, juntamos os interesses que nos são comuns; à memória conjunta associamos visão partilhada do futuro.

Para Portugal e para todos os membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, a importância do Brasil no mundo do século 21 é um motivo de alegria e uma riqueza imensa, com potencialidades em todos os planos: econômico, cultural, linguístico, político, geoestratégico.

A vida política de Lula é uma longa corrida feita com ritmo, esforço, persistência. As palavras que ocorrem são tenacidade e temperança, clássicas virtudes da política. Tenacidade para fazer de derrotas passadas vitórias futuras. Temperança que lhe ensinou a moderação, o equilíbrio e a responsabilidade que o tornaram o presidente que foi.

Na hora da despedida, quero prestar-lhe, em meu nome pessoal e em nome do governo português, uma homenagem feita de amizade, reconhecimento e admiração. Lembro os laços que firmamos, os projetos que comungamos, os encontros que tivemos, nos quais se revelou, invariavelmente, um grande amigo de Portugal.

Lembro, em especial, o trabalho que desenvolvemos para que durante a presidência portuguesa da União Europeia fosse possível a realização da primeira cúpula UE-Brasil, um ponto de viragem nas relações entre a Europa e o Brasil.

Na passagem do testemunho à presidente eleita, Dilma Rousseff, que felicito vivamente e a quem desejo as maiores felicidades, renovo a determinação de prosseguirmos juntos e reafirmo, na língua que nos é comum, o nosso afeto e a nossa gratidão. Mais do que nunca, “o meu Brasil é com “S’”. “S” de Silva.

Lula da Silva. Saravá!

JOSÉ SÓCRATES é o primeiro-ministro de Portugal.

—————-

Publicado na Folha de S.Paulo.

O meu Brasil é com “S” – Primeiro ministro de Portugal homenageia o Brasil de Lula

Brasil pratica a solidariedade internacional

Uma vez, num passado já distante (oito anos hoje em dia são uma eternidade), o Brasil era um país grande, com uma população enorme, mas submisso a interesses estrangeiros. Qualquer livro de escola ensina que, grosso modo, fomos colônia de Portugal, daí nos libertamos politicamente e mantivemos a dependência econômica que já tínhamos da Inglaterra. Quando ela se tornou menos importante que a cria, passamos para outras mãos, dos Estados Unidos, mas sempre baixando a cabeça também para a ainda poderosa nação europeia. Isso em uma redução bem grosseira, repito.

Durante esse tempo todo, éramos mais fracos. Não soubemos enfrentar com dignidade a força política e econômica dos que nos subjugaram. Durante esse tempo, interessava a Inglaterra, Portugal, EUA, que assim fosse. Tínhamos obrigações, mas muito poucos direitos.

Agora a coisa mudou um tanto. A articulação entre uma política bem desenvolvida de relações internacionais e uma crise que golpeou os países “ricos” fez com que crescêssemos e passássemos a ser vistos com olhos mais condescendentes. Agora, a “Grã-Bretanha quer relançar relações com América Latina”. Agora convém a eles. Afinal, ” expectativa é de que o comércio com esses lugares contribua com a recuperação econômica da Grã-Bretanha, que atravessou uma forte recessão e está cortando gastos públicos para reduzir o déficit público, o que deve se refletir numa queda da demanda interna”.

Lendo essas palavras comparo com a política levada a cabo pelo governo Lula. A altivez do Brasil em relação aos que antes nos dominavam aparece de outra forma na relação com as nações política e economicamente mais frágeis que a nossa. Com Bolívia, Paraguai, Moçambique, Angola, o Brasil manteve, ao longo desses últimos oito anos, uma relação cordial, de troca e respeito. Embora a nossa elite conservadora, que inclui o oligopólio midiático, quisesse que fizéssemos com os outros países o mesmo que fizeram com a gente, o presidente Lula, o chanceler Celso Amorim e o assessor para Assuntos Especiais Marco Aurélio Garcia optaram pela solidariedade.

O desejo da elite baseia-se em dois aspectos principais, que estão interligados: uma vingança estocada contra os que nos subjugaram, não importa que direcionada a nações que não tiveram culpa nenhuma, e a uma vontade de parecer superior a alguém, seja quem for. Não basta ser igual, tem que ser melhor.

É esse tipo de sentimento que perpetua a intolerância, o desrespeito e a desigualdade. Que incentiva a competição sem fim e leva a conflitos, guerras.

Se me pedissem para defender uma só política do governo Lula, sem medo de cometer injustiça, seria a política externa. A fraternidade mostra compreensão da igualdade entre todos os seres humanos, independente de fronteiras, e conduz à paz.

Brasil pratica a solidariedade internacional

Nada menos que a vitória

O comentário que mais ouço dos comentaristas esportivos é que o Brasil de Dunga deveria ter ganhado da Coréia do Norte com uma diferença de mais gols para garantir o primeiro lugar no grupo. A única chance de ficar em segundo é não ganhando de Portugal ou Costa do Marfim.

Por mais que Costa do Marfim seja o melhor time africano e Portugal não seja dos mais fracos, convenhamos, se a Seleção Canarinho conseguir apenas qualquer outro resultado que não seja a vitória em cima de algum dos dois, não merece ser campeã mundial, não tem cacife, não tem qualidade para tal.

———-

E só para registrar meu palpite: esse ano é da Argentina. Aliás, não só palpite, mas torcida. Tendo a torcer para seleções de países cujo governo seja de esquerda. A Cristina Kirchner enfrenta diversas dificuldades, não faz o governo dos meus sonhos, mas simpatizo demais com a posição dela frente às questões importantes do mundo. E a Argentina tem Maradona…

Nada menos que a vitória