Sem conteúdo, ZH finge que cobre a posse dos novos deputados gaúchos

Peço perdão aos leitores por estar sendo repetitiva. Mas não adianta, quando o jornal com maior vendagem do seu estado é a Zero Hora, há sempre algum comentário a ser feito. Quando não pela linha editorial dedicada a atender alguns interesses específicos – enquanto afirma ser detentor de uma impossível imparcialidade -, o jornal peca pela falta de qualidade. Ou as duas coisas junto.

A crítica de hoje é a uma matéria sobre a posse dos novos deputados estaduais gaúchos, ocorrida nesta segunda (31). Descrevo para os que não tiveram acesso ao conteúdo – fechado para assinantes no site. O título “Assembleia busca resgatar prestígio” aparece verticalmente centralizado, ocupando todo o espaço, de lado a lado, das páginas 4 e 5, espaço nobre dedicado à reportagem especial. A cartola é enorme e está pouco acima do título, na 4: “Posse dos deputados”.

Acima disso, um perfil com foto de seis parlamentares, um ao lado do outro. Abaixo do título, quase no centro, uma foto. Na página 5, três minirretrancas e uma propaganda. A matéria mesmo fica em uma coluna no lado esquerdo da página 4. São cinco parágrafos assinados por Elton Weber e Nilson Mariano.

A despolitização

Comecemos, pois, pelo título, que diz que o Parlamento anda desprestigiado. Concordo com o presidente da Assembleia, Adão Villaverde, quando disse em seu discurso de posse que há uma tentativa de “desmoralização da representação” e “despolitização da política”. Três chances para adivinhar quem é o principal incentivador dessa despolitização, através de suas ferozes e mal-feitas críticas a tudo que envolve qualquer representante e, por consequência, a representatividade como um todo.

A curtíssima matéria segue na mesma linha e, a rigor, não acrescenta muita informação. Fica nas obviedades de sempre e não presta o serviço ao leitor de explicar o funcionamento da casa. Não é algo simples e duvido que a maior parte dos leitores saiba. Que momento seria mais propício para esclarecer os pormenores da Assembleia, em todas as suas instâncias e suas atribuições? Fora que nem a cerimônia de ontem foi bem narrada. Não entra no mérito do discurso do novo presidente, que, afinal de contas, será o principal nome da Casa no próximo ano.

Apesar de sua importância neste mandato que se inicia – e de ter sido o personagem principal de ontem, com o discurso mais esperado -, Villaverde não aparece em destaque em lugar algum.

Lembra dos perfis na parte superior das páginas, que comentei antes? Villa sequer está ali!

São seis deputados de 55 no total. (Quase) Todos os seis têm um motivo para ali estar, algo que os diferencia dos demais. Mas o critério de escolha desses motivos que os levaram àquele posto é subjetivo. Portanto, questionável. Mas ok, faz parte.

O problema maior é quando chega no último dos seis. Paulo Borges (DEM) está ali como “A bancada de um homem só”. Epa, luz vermelha acende. Ele definitivamente não é o único nessas condições. O que o faz mais especial que Raul Carrion (PCdoB) e Carlos Gomes (PRB)?

A crítica ao Conselhão

Por fim, as minirretrancas. Salta aos olhos a do meio, intitulada “A rivalidade do Conselhão”, em referência ao órgão criado pelo governador Tarso Genro e comandado por Marcelo Danéris, com status de primeiro escalão. Zero Hora insiste na estratégia adotada há algum tema de gerar atrito entre os dois poderes. Um órgão de aconselhamento do governador – parece tão claro… – contribui para que suas decisões sejam tomadas com um critério, com base, com o respaldo de representantes da sociedade. É de se imaginar, pois, que o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) seja uma forma a mais de participação, que não anula a representatividade do Parlamento. Pelo contrário, qualquer aumento de participação popular fortalece a democracia. Aproxima o governo da sociedade e ajuda a agir de acordo com os interesses de todos, da mais ampla parte dos cidadãos. Talvez, nesse caminho, contrarie o histórico de se governar visando os interesses de alguns. Será que é isso que os jornalões temem?

Esse tipo de crítica não é de hoje, como bem observou a professora-pesquisadora da Faculdade de Serviço Social da UERJ Vanda Maria Ribeiro Costa, que aponta o mesmo tipo de comportamento da mídia desde 2002 com relação ao Conselho Nacional. Vale a leitura das páginas do estudo, que aponta de que forma é possível observar essa atitude.

Mas desviei do foco da matéria da ZH justamente porque ela foge do assunto. Acabei entrando no tema do CDES porque o jornal não cita o Conselhão apenas como um contraponto ao Parlamento, na comparação que seria a mais lógica em um momento em que o assunto do texto é a nova legislatura. Em apenas dois curtos parágrafos – aliás, texto é o que menos tem -, o jornal se dedica a avaliar a suposta falta de representatividade do CDES, o que, convenhamos, não tem de fato nada a ver com o assunto.

Falta de conteúdo

Resumindo, a impressão que dá é que Zero Hora esqueceu de mandar um repórter para cobrir a posse. Sem alternativa, não falou na cerimônia. Mas, se fosse esse o caso, uma alternativa honesta seria fazer uma reportagem mais aprofundada sobre o papel do Parlamento, sua importância, de que forma ele atua no fortalecimento da democracia e que consequências isso traz para a sociedade.

Na dúvida, o jornal não fez nem uma coisa nem outra. Não fez nada. Um dos momentos mais significativos na política gaúcha no ano não é valorizado.

E aí, quem despolitiza o quê mesmo?

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Sem conteúdo, ZH finge que cobre a posse dos novos deputados gaúchos

Ela pode

Me obriguei a reproduzir a foto tirada pela Maria Frô em Brasília, na festa da posse da Dilma. Lembrei de uma tuiteira comentando ontem que agora ensinava pra filha, de dois anos, que esse negócio de querer ser princesa é bobagem. Que mulher pode querer é ser presidenta. E não é de arrepiar?

Ela pode

Três capas de três velhos jornais: decadência sem nenhuma elegância

por Rodrigo Vianna, no Escrevinhador, em 01/01/2011:

Por dever de ofício cheguei cedo à redação da TV, em Brasília, nesse primeiro de janeiro.

Com o pensamento ainda enevoado pela noite mal-dormida, vi sobre a mesa do chefe de reportagem os três principais (?) jornais do país.

Demorei pra entender que aquela capa de “O Globo” era mesmo a capa do dia em que Lula passaria a faixa para Dilma: acima da dobra, nenhuma referência à posse. Apenas fotos da queim,a de fogos no Rio. Como se nada estivesse acontecendo no Brasil. A manchete de “O Globo” era para a “retomada” do orgulho carioca – com olimpíada, Copa e combate ao tráfico. Uma capa provinciana de um jornal provinciano. Sobre Dilma , o destaque (quase no pé da primeira página) de “O Globo” era: “No adeus, Lula deixa para Dilma crise diplomática com a Itália”. Ah, então tá bom. Lula deixa só isso? O presidente mais popular desde Vargas merece isso apenas no dia em que vai embora? “O Globo” fazia oposição a Vargas, como fez – de forma cerrada – a Lula. Mas no passado era menos chinfrim. Pra que Casseta e Planeta se existe a primeira página de “O Globo”?

A “Folha” também é a “Folha” de sempre. Mais importante que Dilma ou Lula é a opinião da “Folha” sobre Dilma e Lula! O editorial em primeira página é cheio de termos que lembram o “Estadão” de outros tempos: “o grande repto que se apresenta à nova mandatária”… Repto? E a “Folha” – no editorial que ocupa um terço da primeira página – segue a ensinar Dilma: saiba como governar, aprenda com a gente aqu na Barão de Limeira! Dilma deve es estar muuito agradecida pela lição em primeira página.

O “Estadão”, como sempre, é o mais correto. Vai no factual. Manchete principal: “Começa o governo Dilma”. Sem arroubos, sem invencionice, sem provincianismo, sem “lição de governo” em primeira página . A história de Battisti está na capa, mas de maneira sóbria. O “Estadão”, todo mundo sabe, faz oposição ao lulismo. É um jornal conservador. Mas ainda tenta ser um jornal.

As capas indicam o que se pode esperar do velho jornalismo no governo Dilma. Decadência, sem nenhuma elegância.

Mas não posso escrever mais: preciso correr pra praça dos Três Poderes, de onde vou acompanhar a posse – participando da transmissão na Record.

Bom 2011 a todos!

Três capas de três velhos jornais: decadência sem nenhuma elegância

O dia em que a Record deu um banho na Globo

Meio da tarde de sábado, 1º de janeiro de 2011. Dilma Rousseff havia sido empossada a primeira presidenta do Brasil há alguns minutos, Lula ainda não deixara o Planalto. Como se tudo já tivesse acabado, ou se se tratasse de momento de pouca importância, a Globo encerra a transmissão e passa a bola para o direitista Luciano Huck tocar seu programa de futilidades em rede nacional.

Praticamente ao mesmo tempo, o SBT interrompe a posse para passar um filme.

Quando Lula se despede do seu povo, quando representantes de outros países cumprimentam Dilma, quando o carro do ex-presidente discretamente deixa o Palácio, quem mostra em rede aberta de TV é a Record, que escalou um time de jornalistas mulheres para comentar a cerimônia. Salvo algumas poucas exceções, estavam muito bem informadas, capazes de repassar as informações aos espectadores de forma competente e sem o preconceito – de classe, de gênero, político – presente nos comentários da GloboNews, por exemplo.

Para coroar a diferença entre as emissoras, depois que Globo e SBT já haviam esquecido do momento que o Brasil vivia, a Record dá um banho de jornalismo. Dá aos cidadãos brasileiros a oportunidade de conhecer a opinião do vice de Lula, José Alencar, sobre a cerimônia. Do hospital, Alencar conversou ao vivo por telefone com a equipe da Record. Muito lúcido, contribuiu para uma rica cobertura.

Globo mostra que vem perdendo espaço no cenário da televisão brasileira. E isso acontece porque desrespeita o cidadão brasileiro ao vetar-lhe informações importantes e tentar influenciar na formação de sua opinião, sem contraponto.

Que o momento propicie o surgimento de novos meios e incentive uma discussão pública sobre a comunicação.

O dia em que a Record deu um banho na Globo

PT volta ao governo do RS

Na terceira vez que vi Lula se candidatar à Presidência, em 1998, ele não se elegeu de novo, mas comemoraramos a vitória do PT no Rio Grande do Sul.

Em Porto Alegre, a Frente Popular já era quase um consenso nesta época. Em 98 já eram dez anos de Prefeitura. Quatro eleições seguidas alçaram o PT ao Paço Municipal, e o sucesso do Orçamento Participativo era quase imbatível.

Mas nem tudo eram flores e, com 16 anos de governo municipal, a mídia já tinha feito seu trabalho. Não deixou de bater nos governos de esquerda um dia sequer.

Quando Olívio se tornou governador, naquela vitória de 1998, o cerco foi implacável. A disputa no reino simbólico foi duríssima. Quatro anos depois, perdemos.

Em 2003, o PMDB voltou ao Piratini. Quatro anos depois, o fraco PSDB do RS correu por fora e levou ao governo do estado uma dos piores representantes que já tivemos em nossa história gaúcha de democracia.

Na Prefeitura, a Frente Popular, praticamente isolada, não conseguiu se eleger para o quinto mandato. O antipetismo crescera como capim, gestado pela nossa imprensa monopolista e neoliberal.

Lembro claramente de ficar indignada, em algum momento daqueles anos de governo Olívio no RS, entre meus 12 e meus 16 anos, ao ver a criminalização dos índios, dos trabalhadores sem-terra, dos profissionais sindicalizados. Cada manifestação era reprimida nos programas de TV, execrada nas páginas de jornal. Junto com ela, era criticada a “cumplicidade” do governo do estado. Olívio era criticado por não usar a força, por conivência, ou seja, por respeitar as manifestações de quem tem como único recurso a liberdade de se manifestar. Seu secretário de Segurança Pública, José Paulo Bisol, foi um dos mais atacados no período. Ainda hoje, oito anos depois do fim do governo, quando algo dá errado já vem logo a piada de que é “culpa do Bisol”, em alusão à perseguição sofrida por ele.

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Hoje o cenário é outro. No RS, pela primeira vez um governador é eleito no primeiro turno. Nunca antes na história desse estado…

Tarso Genro é petista e prova que a mídia não manipula para sempre, mostra que as pessoas pensam por si. Que a campanha implacável de décadas fracassou.

Tarso tomou posse hoje pela manhã. À tarde, assistiu a cerimônia que fez de Dilma Rousseff a primeira presidenta da nossa história. O compromisso com a mudança, com a inclusão social, com a redução das desigualdades e com a democracia plena – aquela que inclui o povo em todas as esferas de decisão e participação – chega ao governo do meu estado e do meu país ai mesmo tempo.

Assisti a posse de Tarso pessoalmente. Sei que a expectativa sobre seu governo está enorme, o que aumenta a responsabilidade. Não vai ser nada fácil, mas as condições são melhores que aquelas enfrentadas por Olívio.

As propostas apresentadas por Tarso foram construidas a partir de uma ampla discussão com a sociedade, têm um forte respaldo popular. Delas, as que mais chamam a atenção de uma jornalista como eu são as relativas à comunicação e sua democratização, com o aproveitamento das novas tecnologias, das redes sociais na internet, para favorecer a participação e aumentar a democracia.

Aqui e lá, as promessas são boas. Lula garantiu aquilo de que Dilma não falou muito: disse que a prioridade do Ministério das Comunicações será estabelecer um marco regulatório, coisa que não fez nos oito anos de seu governo.

Se tudo se encaminhar como parece que vai, 2011 há de ser um baita ano. Um ano de começo de mudanças no setor. De continuação da transformação social no Brasil, de retomada do desenvolvimento com distribuição de renda no RS.

Que venha.

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Foto: Genaro Joner/Zero Hora

PT volta ao governo do RS

Espaço fechado aos movimentos sociais é aberto à RBS

Ali onde os movimentos sociais foram impedidos de entrar pelas grades colocadas pelo governo do estado, na manhã de hoje (30) já se instalava o caminhão da RBS, de onde a emissora fará a cobertura da posse do novo governador. Eram cerca de 9h40min desta última quinta-feira de 2010 quando funcionários removiam as grades para que o estúdio móvel entrasse. Em seguida e muito rapidamente, eram recolocadas em seu devido lugar.

Importante lembrar que as grades foram instaladas para impedir a aglomeração de pessoas. Para impedir que o povo se manifestasse. Agora, serve para dar acesso privilegiado ao veículo de imprensa – monopolista e elitista.

Nada contra destinar espaço à imprensa nessas ocasiões, pelo contrário. É legítimo e importante para a sociedade, de preferência com uma profusão de veículos e profissionais diferentes, de forma a garantir a pluralidade da informação. O que salta aos olhos é a contradição de se abrir o espaço para a imprensa, que existe – ou assim deveria ser – tão somente para servir à sociedade, e impedi-la – a sociedade – de estar ali.

Espaço fechado aos movimentos sociais é aberto à RBS