Porto Alegre e as opções para outubro

O Rio Grande do Sul, estamos cansados de saber, é um universo à parte na política partidária (e em que tantas outras coisas, diga-se!). Aqui, PT e PMDB são adversários ferrenhos. PMDB é sabonete, como no resto do Brasil, mas muito mais identificado com a direita do que em nível nacional, em que tem mais facilidade de transitar pelas diferentes esferas.

Mas há anos o PDT de Brizola anda de mãos dadas com esse PMDB, que agora já confirmou apoio ao candidato trabalhista (sic), José Fortunati, que assumiu o paço quando o peemedebista Fogaça pulou fora pra se candidatar (e sequer ir ao segundo turno, caindo no ostracismo prematuramente) ao governo do estado. Fortunati não só apoiou o retrocesso promovido por Fogaça (formando a queridíssima dupla Fo-Fo) como o aprofundou quando assumiu o barco. Porto Alegre, hoje, não tem mais o protagonismo que tinha no cenário mundial em termos de cidadania e participação popular. E pior, a capital dos gaúchos malemal mantém serviços básicos, totalmente defasados.

Brizola revira-se, coitado!

Enquanto isso, a comunista Manuela D’Ávila corteja o Partido Progressista de Ana Amélia, a senadora da RBS. Se vai levar ou não, ainda não sabemos (embora o PP esteja dividido, a tendência é que indique, sim, o vice na chapa com o PCdoB). O que importa, na verdade, é que os comunistas querem muito dar as mãos à ex-Arena. Tudo isso enquanto vangloria-se da história de 90 anos do Partido Comunista.

Diante da incoerência, quem se revira, agora, é Luis Carlos Prestes e todos os outros tantos líderes do partido (muitos mais do que no PDT de Brizola), muitos dos quais morreram nas mãos da Arena.

E são essas duas coligações esdrúxulas que aparecem na ponta das pesquisas eleitorais. Amarguemos, pois.

Sobre a coligação comunistas-Arena, deixo-vos com Latuff, bastante mais claro e contundente que eu:

Porto Alegre e as opções para outubro

Zero Hora em campanha por Ana Amélia

Zero Hora esperou apenas a trégua dos 100 dias de início de governo para começar a campanha para as próximas eleições.

Depois de muito negar, a representante da RBS e integrante da bancada ruralista no Congresso nacional, Ana Amélia Lemos, admitiu a possibilidade de disputar a prefeitura de Porto Alegre ou o governo do estado.

O que era óbvio até para as pedrinhas da calçada, quanto mais para o grupo de comunicação que geriu a política Ana Amélia, foi finalmente admitido pela senadora e pelo jornal, na Página 10 de hoje (29). Favorecida pela imagem repetida à exaustão durante décadas na telinha, a política agora chega com fome para disputar com a esquerda e levar o PP e os interesses de seus principais representados, os latifundiários, para a cadeira do governador.

Zero Hora em campanha por Ana Amélia

O demagógico projeto de Jerônimo Goergen

O deputado Jerônimo Goergen (PP), agora alçado ao Congresso nacional, promete encaminhar projeto de lei para que os deputados sejam obrigados a votar o aumento de seus próprios salários antes das eleições e não depois. Demagógico, não resolve nada, apenas cria uma falsa imagem de bom moço preocupado com o destino do dinheiro público.

A mudança apenas criaria um problema a mais, com o impasse a que estariam submetidos. Por impopular, o reajuste provavelmente seria rejeitado antes da avaliação das urnas. Assim, os parlamentares nunca veriam seus salários corresponderem aos avanços da inflação, em permanente defasagem. Na prática até resolveria o problema dos reajustes desproporcionais, mas da forma errada. Os deputados continuariam responsáveis por votar sobre seus próprios rendimentos, o que constitui de fato a afronta aos cidadãos, que não têm o mesmo direito. Está aí a fonte da desigualdade, e não no valor em si.

É evidente que distorções como o aumento de 61,8% dos deputados federais e de 73% dos estaduais, aprovados recentemente, não devem acontecer, mas é burrice acreditar que tornar a coisa ainda mais polêmica vá resolver o problema. Fica a sugestão de uma medida mais sensata, que vincule os reajustes dos cargos eletivos e de primeiro escalão à inflação. Não haveria nunca aumento real, mas também não teria defasagem. Dessa forma, o reajuste seria bem mais justo e eficiente, diminuindo a desigualdade.

O demagógico projeto de Jerônimo Goergen

Previsões para o fim da apuração

Preciso registrar o que já disse há uns quantos dias no Twitter. Não é nada genial, nenhuma previsão nunca pensada. Na verdade, é quase tudo meio óbvio, mas ainda assim deixo o registro da minha sensação: teremos Dilma e Tarso eleitos no primeiro turno.

Paim, que até pouco tempo atrás corria o risco de ficar fora do Senado pelo Rio Grande do Sul, eleger-se-á em primeiro lugar, desbancando a defensora do agronegócio e amante do latifúndio Ana Amélia Lemos (que concorre de fato pelo partido RBS e oficialmente pelo PP), que infelizmente também entrará, mas em segundo. Rigotto (PMDB), o ex-governador, que ficou em terceiro quando tentou a eleição, não será nada daqui para a frente. Quer dizer, permanecerá sendo um nada, mas agora poderá pensar em cair fora da política – é o que eu faria em seu lugar. De preferência sem tentar asfixiar pequenos jornais que travam a batalha cotidiana pelo jornalismo cidadão.

Fogaça, que largou a prefeitura de Porto Alegre e concorre a governador pelo PMDB, poderá voltar a dar aulas ou compor músicas. Mas desconfio que, além da carreira política, a carreira artística do rapaz também não vá lá muito bem. Afinal, tudo o que sua criatividade permitiu foi usar o mesmo jingle para se eleger duas vezes prefeito e concorrer a governador. O Fogaça-a-a-a-a já tem pelo menos uma década de vida e não surge nada no lugar.

Yeda pode voltar ao ostracismo a que estava acostumada antes de o destino a eleger governadora – ainda não entendo como e acuso de dedo em riste cada gaúcho que teve uma pontinha de responsabilidade no desastre que vive o nosso estado ao depositar seu voto na candidata do PSDB. A tucana concorria a tudo pelo partido e nunca alcançava dois dígitos no percentual de voto. Agora, pode levar sua arrogância de volta para São Paulo e tentar cuidar um pouco melhor dos netos que expôs para se fazer de vítima perante a mobilização justa do CPERS por melhores salários aos professores gaúchos. Que vá para qualquer lugar, mas que deixe meu estado em paz.

O PT aumentará sua bancada estadual, de 10 para 14 deputados – pelo menos 13 entrarão, mas arrisco 14, quiçá 15 – e elegerá oito federais, com chance pra nove, dada a quantidade de nomes fortes que concorrem e do bom momento do partido no país e no RS.

Previsões para o fim da apuração

Por que o PSOL serve mais à direita do que à esquerda

Não é de propósito. É preciso deixar bem claro logo de início que eu tenho plena convicção que as intenções são boas. Mas a visão é torta e as estratégias são erradas. O PSOL, com sua agressividade dirigida principalmente ao PT, se tivesse muita influência, ela seria a favor de Serra.

Não é preciso ir longe. Em sabatina ao portal R7, ontem (27) à tarde, o candidato à Presidência Plínio de Arruda Sampaio disse várias coisas, algumas bastante interessantes, como sua visão sobre a imprensa e a necessidade de um controle para termos uma comunicação mais democrática. Mas, lá nos detalhes, daqueles que às vezes passam despercebidos, comentou que, entre Serra e Dilma, escolheria o tucano para dividir a mesa de um café. A frase não vai mudar o voto de ninguém, mas é sintomática. Diz Plínio: “Eu não conheço essa moça [Dilma], a moça não era do meu partido”, referindo-se ao PT, de onde saiu alguns anos depois do ingresso de Dilma.

Insisto no significado dessa frase porque ele vai além das consequências atuais do comentário de Plínio. A frase remonta ao ponto fraco da esquerda, não só a brasileira: a incapacidade de se unir em torno de um projeto. A criação do PSOL, o afastamento do PT, tudo isso é compreensível, dadas as circunstâncias. Mas isso, e principalmente a agressividade desferida contra o ex-partido, não ajudam em nada no fortalecimento da esquerda. Muito pelo contrário.

Um caso emblemático é o DCE gaúcho, que contou com três chapas de esquerda, sendo duas do PSOL e acabou entregando o ouro para a direita, que chegou unida e venceu por pouco. O PP agora é dono da cadeira e responde por corrupção dentro do Diretório Central dos Estudantes. A falta de junção de forças da esquerda nos deixa sujeitos a essas situações.

Quando Plínio critica Dilma, ele não está abocanhando seus votos. Ele está direcionando-os, em quase todos os casos, ao principal adversário da petista, José Serra com seu PSDB. Quando a discussão se dá em torno de ideias e não de interesses, é muito mais fácil discordar. Resta à esquerda aprender a passar por cima das diferenças entre os pensamentos de seus quadros e adotar como discurso e como política as suas semelhanças. Isso se quiser chegar em algum lugar.

Por que o PSOL serve mais à direita do que à esquerda

DCE da UFRGS será investigado por corrupção

Rodolfo Mohr, do Todas as Vozes:

Na segunda-feira, 31 de maio, acontecerá a primeira reunião da Comissão Estudantil de Investigação (CEI). Composta por 21 Centros e Diretórios Acadêmicos (CAs e DAs), a CEI terá como missão passar um pente fino na gestão do Diretório Central dos Estudantes (DCE), inundada por graves denúncias de corrupção. Marcel Van Hattem, diretor de Relações Institucionais da entidade e um dos principais denunciados, licenciou-se do cargo nesta sexta-feira, 28, para concorrer a Deputado Estadual pelo Partido Progressista.

A noite da quinta-feira, 27, já está gravada na história da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Representando mais de 20 mil estudantes, 29 CAs e DAs estiveram reunidos, na Faculdade de Economia, para ouvir as denúncias de corrupção contra a gestão do DCE realizada pelo ex-advogado da própria gestão Régis Antonio Coimbra.

Eram quase 19h quando começou o depoimento do advogado relatando a apropriação indébita de recursos financeiros pelo presidente Renan Arthur Pretto, estudante de Administração. Explicou em pormenores o desenrolar de uma série de conflitos internos que se sucederam após, segundo ele, Pretto, a mando de Marcel Van Hattem, retirar 5 mil reais do caixa do DCE. Trouxe à tona as ameaças sofridas pela vice-presidente Claudia Thompson e pelo tesoureiro Tiago Bonetti. Os atos de coação teriam sido, de acordo com suas palavras, realizadas por Van Hattem. Por fim, alegou que estes fatos devem levar à destituição da diretoria executiva.

A defesa do jovem Pretto não convenceu os demais representantes estudantis. O presidente do DCE alegou “inexperiência administrativa” quando “sacou o dinheiro do cofre da entidade”, por conta própria, “para pagar um fornecedor”. Porém, esse saque não foi registrado e a nota fiscal que comprova o pagamento, segundo Pretto, foi trazida à prestação de contas dias depois. Assim, assumiu ter ficado com dinheiro da gestão sob seu domínio, sem registro no livro-caixa. A atual gestão se elegeu sobre três princípios: apartidarismo, transparência de gestão e defesa da excelência acadêmica. A CEI apresentará ao final da sua primeira reunião ordinária seu calendário de trabalho e a data da entrega do relatório final.

DCE da UFRGS será investigado por corrupção

Por vias tortas, coerência está voltando à política gaúcha

Sempre achei esquisita a decisão do PSB de sair sozinho na corrida ao Piratini de 2010, e a posição do PCdoB de apoiá-lo. Não acho errado querer buscar seu espaço, tornar-se mais conhecido, angariar votos. Defendo o direito de partidos pequenos de existirem, de se consolidarem por si mesmos. Assim, afinal, nasceu o PT.

O problema foi a política de alianças que se tentou estabelecer. Se o partido vai correr sozinho em nome de um projeto – e principalmente por não concordar com outro projeto, no caso o do PT -, então que seja coerente do início ao fim. Se acha que o PT caiu pra direita, segue na luta sem o PT, mas não tenta alianças com o PP. Isso maltrata minha inteligência.

É parecido com o que fez o PC do B nas eleições municipais, lançando Manuela D’Ávila como candidata e o asqueroso Berfran Rosado, de um PPS cada vez mais à direita, como vice.

A atitude se mostra claramente uma briga de interesses. O PSB quer mais espaço, simplesmente, e tentou jogar dessa forma para conseguir força, do jeito que fosse. Se não ia se eleger – e no RS tudo é possível, até um fenômeno Yeda, infelizmente -, pelo menos ganhava moedas para trocar na brincadeira das alianças e dos cargos que vêm depois das eleições. Partidos que eu considerava sérios se mostraram interesseiros.

Não coloco todos os partidos no mesmo nível, porque acho que há, sim, graus diferentes de lidar com esses interesses. Alguns não têm escrúpulo nenhum, fazem do jeito que trouxer mais vantagem. Acho que não é o caso do PSB nem do PC do B, mas em grau menor são orientados por uma política suja de interesses, sim.

Outro dia eu disse que aqui que o Beto Albuquerque tinha perdido meu respeito por tentar coligar com o PP. Eu estava chateada de ver um político que eu admirava se rebaixando, fazendo o jogo da vala comum, e meio que desabafei. Não vou tão longe, acho que ele está jogando o jogo com as cartas que estão colocadas. Podia fazer diferente, de um jeito mais digno, mas fez assim, paciência. Ainda acho o Beto um cara de valor, mas com uma certa decepção.

Agora que o PSB desistiu da candidatura de Beto, a tendência é que apoie Tarso (se for para o lado de Fogaça ou do Lara, aí sim, perde meu respeito). O PPS deve sair com Fogaça, o PP com Yeda. As coisas voltam para seus eixos, e alinhavam-se alianças um pouco mais coerentes. De direita ou de esquerda, consolidam-se coligações em que há maior identificação entre as partes. Ainda que seja por falta de entendimento, pelo menos eles ainda não conseguem falar a mesma língua. Resta um pouco de esperança de que os partidos sejam realmente orientados por ideias, pelo menos alguns.

Por vias tortas, coerência está voltando à política gaúcha