Berfran Rosado como símbolo da promiscuidade eleitoreira

Os jornais gaúchos anunciam hoje o nome de Berfran Rosado como vice de Yeda na candidatura à reeleição ao governo do Estado. Proponho um exercício de memória. Nem precisa muito esforço, basta voltar dois anos no tempo.

Nas eleições municipais de 2008, Porto Alegre tinha três candidatas mulheres. Todas da esquerda, dividida, pra variar. Uma delas corria pelo PC do B. Um nome jovem, que ocultava mais do que mostrava sua sigla comunista.O nome do vice de Manuela D’Ávila era Berfran Rosado. O partido de Berfran continua o mesmo, o PPS que se diz socialista, mas é hoje um guarda-chuva de nomes alinhados muito mais à direita do que a esquerda. Um partido sem definição ideológica clara, que circula tranquilamente do PC do B ao PSDB, como vemos hoje.

O PSDB é a sigla de Yeda, de Serra, de FHC. Da defesa do mercado frente ao Estado. Do neoliberalismo. Berfran é vice da candidata mais anti-trabalhadores que poderia haver, depois de ter posado ao lado da Manuela, que em 2010 apoia, com seu partido, o candidato do Partido dos Trabalhadores. Contra-senso? Alguém diria que é política.

Para mim, falta de ideologia. Promiscuidade. De um, de todos. Berfran é só um símbolo.

Apoio a pré-candidatura de Tarso Genro ao governo do Estado. Ainda acho que preserva um tanto de integridade, diante dessa mistura de siglas, de conceitos mal apropriados. Misturas que repudio, sejam as de direita ou as de esquerda. Se é que esses conceitos ainda classificam essas siglas.

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– Nas fotos, Berfran ao lado de Yeda (PSDB), Manuela (PC do B) e Mano Changes (PP).

– A ficha de Berfran no Transparência Brasil denuncia baixíssima assiduidade, ainda menor atividade parlamentar, processos judiciais e afins.

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Berfran Rosado como símbolo da promiscuidade eleitoreira

O passado e o futuro da política gaúcha

Uma coisa pesou na campanha de Tarso da última vez que ele se candidatou ao governo do Rio Grande do Sul. As artimanhas, de parte a parte, foram todas baixas, e a discussão política ficou no nível de quem é o menos ou o mais sacana. Ou seja, inexistente. Projetos para a cidade foram simplesmente ignorados. Ainda que eu ressalve que projeto não ganha eleição – embora devesse -, baixaria também não. Lembro claramente de panfletos pretos, pesados, acusatórios. E não foi só da direita.

Tarso Genro havia sido eleito prefeito de Porto Alegre, prometendo cumprir o mandato inteiro. Seria o segundo do petista, intercalado por um de Raul Pont. Pois depois de dois anos Tarso se desincompatibiliza para se candidatar ao governo do estado. A oposição bateu nessa tecla do primeiro ao último dia da campanha, pintando um candidato desonesto, imoral, traidor.

Isso foi em 2002, e Tarso concorria com Antônio Britto, ex-governador do RS pelo PMDB, em uma gestão fraudulenta, marcada pelo descaso com o funcionalismo, planos de demissões, corrupção. À época no PPS, Britto decidiu partir para a comparação em um nível abaixo do c* do cachorro. Palavreado chulo, visando o calcanhar de aquiles e não uma discussão equilibrada. Afinal, ele não tinha como sustentar.

Tendo caído na armadilha do adversário, Tarso adotou a mesma estratégia. Sua campanha foi, além de baixa, burra, mal-feita. Acabou se elegendo Germano Rigotto, do PMDB, que correu por fora usando como slogan um coração. Bonitinho, queridinho, sem proposta. Apolítico. Mas sua estratégia foi inteligente, fugiu da briga.

No Rio Grande do Sul, não se reelege projeto político. É muito difícil um governador fazer um sucessor. Os gaúchos são bastante implicantes e sempre têm mais reclamações do que elogios. Os que passaram no governo por último são os que sofrem mais, frutos da memória mais fresca. Assim foi novamente em 2006. A disputa ficou polarizada entre Germano Rigotto, o então governador, e Olívio Dutra, que passara pelo cargo entre 1998 e 2002, pelo PT. Rigotto penou com a memória recente dos gaúchos e seu governo vazio, de nada fazer. Olívio apanhou muito da mídia – leia-se RBS, única mídia aqui pelos pampas -, que formulara um anti-petismo raivoso e muito poderoso no Estado.

Correu por fora uma paulista arrogante, mas que representava um partido forte nacionalmente mas absurdamente fraco regionalmente. O PSDB não tinha, e continua não tendo, quadros significativos. A vitória de Yeda Crusius foi mero acaso, fruto muito mais de uma negativo aos outros dois candidatos fortes do que a uma atitude afirmativa de seu projeto. Aliás, muitos peemedebistas se deram mal ao votar em Yeda para impedir que Olívio fosse para o segundo turno. O petista ganhou o posto e Rigotto ficou para trás. Mas Yeda levou a melhor.

Continua…

O passado e o futuro da política gaúcha