O aumento dos deputados e a despolitização

É evidente que deputados, como qualquer categoria (ainda que cargos eletivos não sejam exatamente uma categoria profissional) devem ter seus salários reajustados vez que outra. A grande armadilha, por qualquer ângulo que se olhe, está no fato de serem eles mesmos a concederem o reajuste para os próprios salários.

Aí acontecem distorções como a vista ontem, com a concessão de aumento de 61,8% para cargos já muito melhor remunerados do que a grande maioria da população e cercados de benefícios extras. Os salários dos deputados passaram de R$ 16,5 para 26,7 mil. Também verão sua conta receber mais verba a cada mês os senadores, presidente, o vice e os ministros. O deputado, morando em Brasília, pode quase que transferir seus vencimentos direto para a poupança, já que recebe também auxílio-moradia (que, morando razoavelmente, deve sobrar bastante a cada mês), verba para telefone, aluguel de escritórios, correio etc. Sem contar que recebem 15 salários por ano.

Esse tipo de situação gera a sensação em cada cidadão de ser passado para trás, que leva a uma insatisfação com toda a classe política, incentivada pela imprensa. Acaba que o eleitor vota em qualquer um, com a ideia de que “é tudo a mesma porcaria” e não contribui para melhorar a representatividade do Legislativo por conta de sua descrença. Ou seja, a concessão de aumento aos próprios salários contribui, ao lado de tantos outros fatores, inclusive a campanha sistemática de despolitização da nossa imprensa, para o desgaste das instituições políticas, o que é extremamente prejudicial para a nossa democracia.

O aumento não seria tão esdrúxulo caso o Brasil não tivesse discrepâncias gigantes entre as remunerações de diferentes categorias, como a de professores, médicos da rede pública, policiais. E não se trata de negar a responsabilidade de que são investidos os ocupantes de cargos eletivos. Eles merecem remuneração à altura, mas é preciso ter clareza de qual é essa altura, até para que não caiam e não quebrem as pernas.

Para evitar o desgaste de cada votação de aumento e não incorrer em excrescências, o ideal seria vincular o reajuste dos cargos do Legislativo e também os do Executivo, como presidente, ministros, governadores e secretários de estado, ao percentual de reajuste concedido a alguma categoria profissional. Ou, para simplificar, ao valor da inflação. Nesse caso, não seria propriamente um aumento, mas um reajuste apenas para cobrir as perdas.

A ideia não é ignorada pelos deputados, que, muito espertamente, tratam de tentar vincular o seu aumento ao dos ministros do Supremo Tribunal Federal, a cujos salários seus vencimentos agora se igualaram. Vale ainda destacar que já há um projeto tramitando com vistas a elevar os rendimentos dos ministros do STF para R$ 30,7 mil.

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O aumento dos deputados e a despolitização

Pela abertura de TODOS os arquivos da ditadura

Nada contra a abertura dos arquivos da ditadura, muito pelo contrário. Defendo, sempre defendi, que sejam disponibilizados para a sociedade. Afinal, é nossa história. Temos o direito de conhecê-los, para atualizar nossa literatura histórica e melhor pensar o presente e o futuro. Temos o direito de conhecê-los para exigir justiça e punir torturadores.

Mas abrir arquivos de uma única pessoa não me parece sensato. Quando analisadas as condições em que se dão a abertura autorizada essa semana, fica ainda pior. A pessoa em questão é a presidente eleita, Dilma Rousseff. Quem pediu foi o jornal Folha de S.Paulo, que manteve oposição a Dilma ao longo de toda a campanha em 2010. Que já usou arquivos para acusar Dilma de supostos crimes cometidos ou planejados durante os anos de chumbo. Tudo isso sem dar a devida contextualização de como funcionava a resistência a um regime que censurava, torturava, matava. O jornal da ditabranda.

Nos arquivos da ditadura há a versão dos ditadores. Versão sempre pejorativa em relação aos presos, torturados, perseguidos, exilados. Ainda assim, devem ser abertos para estudo, insisto. Ali encontraremos listas de pessoas malquistas pelo regime, saberemos o que aconteceu com elas, quem fez o quê, quem torturou quem. É muita informação para compreendermos melhor como funcionava a cabeça de quem usa de métodos torpes para fazer “política”, para conseguir poder.

Mas para isso eles têm que ser lidos com o olhar de quem entende que aquela é uma visão parcial, que foi escrito por quem torturava, não por quem era torturado. Que ali se descreviam o que chamavam de crimes cometidos ou planejados por quem não tinha acesso aos documentos oficiais para registrar sua versão e que não era ouvido como réu ou como testemunha. Que os crimes ali descritos podem nem ter acontecido ou, mesmo que tenham, a imensa maioria se deu dentro de um contexto de luta pela democracia, de resistência a um regime sangrento.

A utilização das informações ali contidas como sendo a verdade total e absoluta é perigosa. Pode gerar distorções graves e grandes consequências. Pode consolidar uma imagem negativa que a oposição tentou impor que vincula a presidente eleita a uma resistência armada mesmo sem ela ter pego em armas – ainda que essa tenha sido uma forma legítima de resistência. Que atribui a Dilma a pecha de terrorista em um momento em que o mundo cultiva uma imagem negativa de quem leva esse título, geralmente muçulmanos que atentam contra o capitalismo ocidental.

Por enquanto, quem tem acesso aos arquivos é a Folha de S.Paulo, que não publicou ainda nada com base neles. Enquanto não forem bem ou mal utilizados, são apenas suposições. Quero crer que estou errada na minha avaliação precipitada.

Pelo direito à verdade e à informação completa é que faço campanha pela abertura de todos os arquivos da ditadura. Para que nenhum arquivo seja aberto sem que todos os outros lhe acompanhem. Para que tenhamos acesso a toda a verdade e a compreendamos em toda a sua complexidade.

Pela abertura de TODOS os arquivos da ditadura

Que seja, então, no segundo turno

O segundo turno dá a oportunidade de termos um mês a mais de debate político democrático e discussão de ideias. Seria democrático, considerando que temos oficialmente um tempo reduzido de campanha eleitoral oficial e uma legislação cheia de restrições que muitas vezes impedem esse diálogo.

Seria, então, útil para o eleitor aprofundar as propostas dos dois candidatos mais votados, para que sejam melhor conhecidas, dissecadas uma a uma. Seria bom travarmos um debate sério e qualificado. Seria. Tudo isso teria lugar em uma democracia ideal. Infelizmente, não é o nosso caso, por um fator bem específico.

Temos visto nos últimos três meses que tem lugar privilegiado na cobertura da imprensa a curiosidade e o denuncismo, com muito pouco lugar para a discussão de ideias. Agora, com a polarização advinda da escolha entre dois nomes – dois projetos políticos – em um segundo turno, a coisa tende a piorar. Pela pouca repercussão que vi ontem à noite e pelo que observei nos últimos tempos, espero agora pelo pior em termos jornalísticos.

Se eu queria que a Dilma ganhasse no primeiro turno, era sobretudo para não ter que enfrentar a baixaria que vem nos próximos dias. Outubro vai ser um mês pesado, bastante desgastante, ao que tudo indica. Se o eleitor comum já se cansa, quem trabalha de forma mais direta com política fica ainda mais vulnerável.

Por um lado, é até bom que Dilma não tenha sido eleita. Evita o salto alto que às vezes prejudica um time que tem tudo para sair vencedor e fazer o melhor. Mas por outro traz um prejuízo considerável. A vitória no primeiro turno daria à nova presidente e ao PT uma força política muito grande, ainda mais com o aumento da base aliada na Câmara dos Deputados e no Senado. Uma força que seria útil para conquistar reformas importantes para melhorar a vida dos brasileiros e para aprimorar o nosso sistema político. Seria também uma boa barganha na hora de negociar cargos no novo governo, e talvez Dilma tivesse que ceder menos.

De qualquer forma, estamos a quatro semanas de confirmar Dilma presidente. De um jeito ou de outro, é um projeto político vitorioso porque atinge diretamente o dia a dia do povo brasileiro, melhora a vida de cada cidadão. Faz o Brasil se desenvolver, crescer economicamente, mas com reflexo direto na sua população. Então, rumo à vitória no segundo turno. Que seja.

Que seja, então, no segundo turno

FHC e suas duas éticas

Cláudio Abramo é muito respeitado entre os jornalistas. É dele o livro “A regra do jogo”, onde diz, em suma, que a ética do jornalista não é diferente da ética do cidadão. Uma ética só. Quem não a tem por princípio, não vai adquiri-la depois de algumas aulas ou experiência prática. Da mesma forma, quem a tem, não a perde. Mantém, leva para a profissão a mesma relação com a ética que tem na vida.

Assim é na vida. Em todas as áreas. Ou se tem ética ou não se tem. Pode-se até adquiri-la ou perdê-la com o tempo (há ainda quem discorde disso), mas não se pode ter ética em determinados momentos e não ter em outros. Saio de casa como um sujeito ético e chego na esquina como um mau-caráter. Isso não existe.

Para Fernando Henrique Cardoso, existe. Mino Carta conta, no editorial de Carta Capital dessa semana, de uma entrevista que fez com o cidadão em questão, nos primórdios de sua trajetória de oito anos como o homem mais importante do Brasil. Em 1994, FHC diferenciou a ética do cientista da ética do político. Por isso fez a merda que fez (desculpem os puritanos, mas se o Lula pode dizer essas coisas, por que não eu?).

Só avisando: quem tem duas éticas não tem nenhuma.

Não existe uma ética específica do jornalista: sua ética é a mesma do cidadão. Suponho que não se vai esperar que, pelo fato ser jornalista  o sujeito possa bater carteira e não ir para a cadeia. Onde entra a ética. O que o jornalista não deve fazer que o jornalista não deva fazer? O cidadão não pode trair a palavra dada, não pode mentir. No jornalismo, o limite entre o profissional como cidadão e como trabalhador é o mesmo que existe em qualquer outra profissão. É preciso ter opinião para poder fazer opções e olhar o mundo da maneira que escolhemos. Se nos eximimos disso, perdemos o senso crítico para julgar qualquer outra coisa. O jornalista não tem ética própria. Isso é um mito. A ética do jornalista é a ética do cidadão. O que é ruim para o cidadão é ruim para o jornalista.

Cláudio Abramo, A regra do jogo

FHC e suas duas éticas