Aumento dos professores e a inversão da lógica de esvaziamento do Estado

O reajuste oferecido pelo governo Tarso ao magistério e aprovado ontem por ampla maioria em assembleia do Cpers mostra a que veio o governador. Com um estado quebrado, as condições de oferecer aumento ou abrir concurso são mínimas, mas as mais diversas categorias de servidores públicos enfrentam defasagem salarial, e a falta de profissionais na estrutura do Estado é crônica. Ou seja, é preciso fazer alguma coisa.

Os 10,91% já aprovados, que antecipam as ações judiciais da Lei Britto e incorporam metade da parcela autônoma ao vencimento básico, estão bem longe do ideal. Não chega ao piso salarial nacional do Magistério, prometido por Tarso para até o final do governo. O piso, aliás, ainda está muito longe do ideal, infelizmente.

Vivemos em uma sociedade que sofreu um processo muito grande de desvalorização de seus profissionais mais essenciais, que desrespeita não só esses profissionais, mas toda a sociedade, que sofre com a negligência e a piora no atendimento público. Atingiu o Brasil e sobrou para o Rio Grande do Sul, que enfrenta por mais tempo essa situação. O resultado é um cenário de baixa qualidade dos serviços públicos, que começa a ser revertido. E, pelo que se viu no Gigantinho ontem e pelo que registra a pesquisa Ibope sobre o governo Tarso, a inversão dessa lógica conta com amplo apoio dos gaúchos.

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Foto: Divulgação Cpers

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Aumento dos professores e a inversão da lógica de esvaziamento do Estado

O aumento dos deputados e a despolitização

É evidente que deputados, como qualquer categoria (ainda que cargos eletivos não sejam exatamente uma categoria profissional) devem ter seus salários reajustados vez que outra. A grande armadilha, por qualquer ângulo que se olhe, está no fato de serem eles mesmos a concederem o reajuste para os próprios salários.

Aí acontecem distorções como a vista ontem, com a concessão de aumento de 61,8% para cargos já muito melhor remunerados do que a grande maioria da população e cercados de benefícios extras. Os salários dos deputados passaram de R$ 16,5 para 26,7 mil. Também verão sua conta receber mais verba a cada mês os senadores, presidente, o vice e os ministros. O deputado, morando em Brasília, pode quase que transferir seus vencimentos direto para a poupança, já que recebe também auxílio-moradia (que, morando razoavelmente, deve sobrar bastante a cada mês), verba para telefone, aluguel de escritórios, correio etc. Sem contar que recebem 15 salários por ano.

Esse tipo de situação gera a sensação em cada cidadão de ser passado para trás, que leva a uma insatisfação com toda a classe política, incentivada pela imprensa. Acaba que o eleitor vota em qualquer um, com a ideia de que “é tudo a mesma porcaria” e não contribui para melhorar a representatividade do Legislativo por conta de sua descrença. Ou seja, a concessão de aumento aos próprios salários contribui, ao lado de tantos outros fatores, inclusive a campanha sistemática de despolitização da nossa imprensa, para o desgaste das instituições políticas, o que é extremamente prejudicial para a nossa democracia.

O aumento não seria tão esdrúxulo caso o Brasil não tivesse discrepâncias gigantes entre as remunerações de diferentes categorias, como a de professores, médicos da rede pública, policiais. E não se trata de negar a responsabilidade de que são investidos os ocupantes de cargos eletivos. Eles merecem remuneração à altura, mas é preciso ter clareza de qual é essa altura, até para que não caiam e não quebrem as pernas.

Para evitar o desgaste de cada votação de aumento e não incorrer em excrescências, o ideal seria vincular o reajuste dos cargos do Legislativo e também os do Executivo, como presidente, ministros, governadores e secretários de estado, ao percentual de reajuste concedido a alguma categoria profissional. Ou, para simplificar, ao valor da inflação. Nesse caso, não seria propriamente um aumento, mas um reajuste apenas para cobrir as perdas.

A ideia não é ignorada pelos deputados, que, muito espertamente, tratam de tentar vincular o seu aumento ao dos ministros do Supremo Tribunal Federal, a cujos salários seus vencimentos agora se igualaram. Vale ainda destacar que já há um projeto tramitando com vistas a elevar os rendimentos dos ministros do STF para R$ 30,7 mil.

O aumento dos deputados e a despolitização

A sacanagem da Zero Hora com os professores

Não é tão difícil manter a RBS aliada. Basta ser contra movimentos sociais, a esquerda de um modo geral e negar qualquer reivindicação de categoria profissional, seja qual for. Desde, é claro, que o governo seja de direita. Afinal, ser contra a esquerda vem antes de ser contra os sindicatos.

Depois de colocar claramente essas posições, é só chamar a imprensa pra participar de alguma coisa. Eles se derretem. O governo Yeda chamou para a reunião com o Cpers. Pronto, recebeu elogios explícitos de Paulo Germano, o repórter da Zero Hora que colocou seu texto na página 8 do jornal de hoje. Começa assim: “Para sublinhar em público sua disposição ao diálogo, o Piratini convocou uma reunião com o Cpers aberta à imprensa”. Governo bonzinho, professores maus, feios e bobos.

Afinal, 6% de aumento são mais do que suficientes. Esses professores gananciosos ficam querendo muito, e ainda falam que com todo esse aumento não vão conseguir sair da miséria. Afinal, seu piso é tão bom. R$ 640 por mês é uma fortuna, vai dizer. Ou seria R$ 862? Dá uma olhada no quadro que quer explicar ao leitor de forma simplificada o que está acontecendo:

Diz que a proposta do governo é passar de R$ 862 para R$ 1,5 mil o salário inicial de professores com 40 horas semanais. Na segunda coluna, diz assim: “Atualmente, o salário básico de um professor com contrato de 40 horas semanais é de R$ 640. Com o reajuste, vai para R$ 679”.

Diante disso, fica difícil escolher um foco para demonstrar a indignação. Reclamo pela manipulação dos dados que confunde o leitor e faz com que a proposta do governo pareça mais bacana (e prova disso é que os números nem são citados no texto principal) ou fico pê da vida com a cara de pau de defenderem uma coisa que eles chamam de aumento, mas que eu nem sei definir, de tão ultrajante. Quem no Brasil consegue passar um mês com R$ 679? E isso vai ser depois do aumento. Que, absurdo dos absurdos, vai ser completo apenas em março de 2011, quando já vai estar ainda mais defasado.

Lembra aquela velha história de o magistério ser a profissão mais nobre que existe? Como?

E depois a Zero Hora faz matéria mostrando que os alunos gaúchos perderam vagas nas universidades porque foram pior no Enem (teve essa, essa, essa, comentário de Rosane de Oliveira e no Blog do Editor). É óbvio. Que qualidade pode ter o ensino de um professor que tem que trabalhar 80 horas pra sobreviver?

A sacanagem da Zero Hora com os professores

Zero Hora condena greve dos professores

A manchete da Zero Hora de hoje diz: “Anúncio de greve tumultua fim de ano de pais e alunos”. Refere-se à greve dos professores anunciada ontem pelo Cpers-Sindicato. A matéria, às páginas 6 e 7, leva um título parecido como o principal, e tem duas retrancas grandes. Na maior, destaca a intransigência do governo, ainda que não use essa palavra e faça com que a atitude pareça normal. A menor diz que aliados criticam o Cpers e a oposição pede mais diálogo. Ou seja, nenhuma informação sobre os motivos da greve.

A única notícia importante relativa ao caso, para o jornal, é que os pais e alunos vão ter problemas. Ou seja, esse sindicato só causa confusão. Essa é a imagem que passa. O governo sai ileso. Parece que é vítima também. Os únicos culpados, no entender de Zero Hora, são os professores. Eles, sim, são maus. Alguém aí se lembra que eles são os responsáveis pela educação dos gaúchos e ganham uma miséria pra isso? O jornal não lembra.

A greve vem em resposta a um projeto que o governo mandou para votação na Assembleia em regime de urgência – e que, se não for votado for falta de quórum, estratégia que os deputados poderiam usar, trancariam toda a pauta de votação de projetos. Mas a matéria só fala no conteúdo do projeto em quadro. Nos textos, nada. Parece que esse é só um detalhe, uma curiosidade, e não a motivação principal, o cerne da questão. E ainda assim não explica direito.

Mais uma vez, a RBS condena qualquer tipo de ação que venha de baixo. Sempre que um sindicato, um movimento social ou qualquer setor que não seja da elite se mobiliza, é condenado pelos jornais, a Zero Hora fazendo a frente no RS. Não importa se essas ações estão corretas ou não. Isso nem deveria ser julgado pelos jornais em suas matérias. Mas elas são sempre condenadas. Sem exceções.

Zero Hora condena greve dos professores