Ao que tudo indica, Manuela deve ser candidata à Prefeitura de Porto Alegre em 2012

Embora todos os partidos envolvidos neguem, fica difícil de acreditar que a disputa para a Prefeitura de Porto Alegre de 2012 não entre na mesa de negociação de cargos do governo Tarso Genro no Rio Grande do Sul. E o PDT é um fator importante nesse cenário, a ser observado.

Cito o PDT porque tem o comando da Prefeitura hoje e porque é um partido ainda um tanto forte, cujo apoio em 2012 é importante para o PT voltar ao Paço municipal. Já se falou em apoiar a reeleição de Fortunati em troca do apoio ao governo Tarso, já que o PDT é dono de importantes votos na Assembleia Legislativa, o que acredito que não deve acontecer.

Apesar de os jornais já terem cotado inúmeros nomes para praticamente todas as secretarias, é possível tirar algumas tendências das negociações em curso. Os partidos trabalhistas, que não ajudaram a eleger Tarso, estão mordendo boa parte do alto escalão do governo. O PTB chegou pedindo 19,3% dos cargos, e o PDT, quatro secretarias importantes. O fato de eles pedirem não significa que vão levar, mas o novo governador dá sinais de que não vai deixar o PDT na mão.

Enquanto isso, o PSB e o PC do B, parceiros do PT desde o início do processo, disputam cargos menores. O PSB já tem o vice e Tarso já indicou Beto Albuquerque para uma pasta importante, de grande orçamento. Mas o PC do B leva por enquanto a pequena Secretaria do Turismo e parece que não vai contar com fatia muito significativa do governo.

Ou seja, o PT não concederia ao PDT tantos cargos mais a cabeça de chapa para a disputa à Prefeitura daqui a dois anos. Ao mesmo tempo, projeta-se como um nome forte da coalizão que elegeu Tarso a recordista em votos, reeleita para a Câmara Federal e jovem Manuela D’Ávila. Assumir a ponta da disputa seria o caminho mais natural, tendo em vista a lealdade e a dedicação dos aliados a Tarso e a disposição do PT de abrir mão do nome do prefeito da Frente ou Unidade Popular.

Considerando que o PDT está abocanhando, ao que tudo indica, um número significativo de secretarias e, portanto, ficaria fora da indicação do prefeito, e que o PC do B vem amargando um leve escanteamento na composição do governo, a tendência é que seja o partido a indicar o candidato que o PT vai apoiar em 2012 mesmo.

Mas claro, a política é imprevisível e muitos fatores ainda hão de ser considerados até a escolha definitiva do nome. O que vemos são tendências…

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Ao que tudo indica, Manuela deve ser candidata à Prefeitura de Porto Alegre em 2012

Estaria Ana Amélia de olho no governo do estado?

Ficaram pendentes algumas observações sobre o resultado das eleições:

– O maior medo pós-eleição é um provável fortalecimento da ideia de Ana Amélia se candidatar ao governo do RS em 2014, ainda mais depois que a Zero Hora já deu destaque para o fato de ela “não pensar no Piratini”. Motivo extra para o PT fazer um baita governo no estado. E para comemorarmos o primeiro lugar de Paulo Paim na corrida ao Senado.

– A eleição de Manuela é surpreendente. Sei que ela tem um carisma muito grande e uma campanha muito forte, mas achei que já tivesse passado a onda mais alta e agora ela fosse simplesmente se eleger bem. Mas ela fez um número extraordinário de votos, mais de 480 mil. Apesar de ela ter conteúdo e ser uma boa política, com desempenho reconhecido, boa parte dessa votação é por impulso e sem conotação política. Ela tem tudo para vir com boas chances para a disputa para a Prefeitura daqui a dois anos.

– A eleição para o Senado é a tal da “eleição de 200%”. O número de votos é o dobro do dedicado aos outros cargos. Tem também mais candidatos concorrendo às mesmas vagas. Ainda assim, chama a atenção o fato da desconhecida Abgail Pereira, que entrou na disputa apenas para garantir a vaga de Paim, ter feito mais votos que a atual governadora, que concorria à reeleição. Foram 1.551.151 de votos para a candidata do PCdoB ao Senado, e 1.156.386 para Yeda. Quase 400 mil votos a menos. Resultado de um dos piores governos, quiçá o pior, da história do Rio Grande.

– Sobre a composição do governo do estado, está certo Tarso ao não dar a opção de o PMDB, o PSDB, o DEM e “partidos que tiveram uma posição nítida oposicionista” de comporem o governo. Como disse o governador eleito, “isso não quer dizer desrespeito nem ausência de diálogo, mas não acho que sejam partidos passíveis de uma composição conosco”. Dessa forma, Tarso deixa longe de seu governo o oportunismo do PMDB, mostrando com elegância que o partido adversário saiu derrotado.

– Ainda no domingo à noite, Serra deu entrevista em que passou bastante tempo agradecendo Marina. De fato, ele tem muito a agradecer, foi graças à candidatura verde que se concretizou o segundo turno que o tucano queria. No frigir dos ovos, o PSDB foi o único que colheu frutos com a entrada da Marina na disputa. O que só confirma a tese de que sua candidatura serviu muito mais à direita do que à esquerda.

Estaria Ana Amélia de olho no governo do estado?

Globo perde excelente oportunidade de exercer a democracia

Bonner teve que dar uma enrolada para justificar por que a Globo não dá espaço equitativo aos candidatos à Presidência da República. Plínio de Arruda Sampaio reclamou por ter três minutos gravados com antecedência enquanto Serra, Dilma e Marina tiveram 12 minutos ao vivo no Jornal Nacional.

A justificativa de Bonner é de que o JN optou por levar para a bancada candidatos com representação no Congresso e mínimo de 3% nas pesquisas eleitorais sem contar a margem de erro. E que abotoem a camisa de cima para baixo quando trocam de roupa à noite, só faltou dizer. Porque o critério da Globo foi escrito especialmente para restringir aos três principais candidatos. Não há outra explicação.

Se o critério burocrático já afasta da discussão política os partidos menores, a linha editorial posiciona a emissora na defesa de um candidato apenas. A postura de William Bonner envergonhou quem assistia ao telejornal. Na conversa com não-petistas, pessoas pouco interessadas diretamente por política, ficou clara a percepção generalizada de que a o apresentador voltou sua verve agressiva a Dilma Rousseff e acarinhou José Serra. Já Marina foi utilizada como armadilha para constranger o PT.

Em todas as entrevistas, foi esse o partido criticado. Inclusive Serra foi questionado pelo mensalão petista, por conta de sua aliança com o PTB. Chocou a não-menção ao DEM, principal coligação de Serra, que indicou seu vice e que esteve envolvido em grande escândalo em Brasília recentemente. O carinho de Bonner ao interromper Serra, mostrando-se constrangido por fazer calar um amigo, uma pessoa a quem mostrou admirar.

Mas constrangido mesmo ficou o telespectador com a agressividade gratuita do jornalista a Dilma. A ponto de sua colega/esposa ter de lhe dar um sutil chega-pra-lá. Nem ela aguentava ver a candidata ser interrompida a cada frase que tentava concluir. Isso sem contar as contradições, de uma hora exigir alianças e questionar a capacidade de Dilma de fazê-las e em seguida criticar as já feitas. Ou então a falta de perguntas efetivas, que tratassem de compromissos, de propostas. Cada frase parecia uma pegadinha, uma armação. E era. E Bonner ainda manipulou dados, tentando comparar o Brasil com países de realidades muito diferentes, fazendo afirmações questionáveis, como a de que a Rússia ou outros países da América Latina “têm crescido mais do que o Brasil”, o que não se confirma em todos os dados recentes.

Com uma grande professora, aprendi ainda no início da faculdade que todo entrevistado deve ser respeitado pelo jornalista. Por dever ético e moral, mas também pelo sucesso da entrevista. Afinal, o objetivo do repórter é obter a informação, não desestabilizar, não fazer campanha. É perguntar, não responder.

O Jornal Nacional perdeu a oportunidade de se redimir de papelões históricos fazendo mais um. Dessa vez não vai ser grave porque não há de influir nos rumos das eleições. Afinal, Dilma se saiu muito bem e não houve, entre os presidenciáveis, um destaque significativo. Quase que por mérito deles, porque a Globo se esforçou para reverter essa situação.

Globo perde excelente oportunidade de exercer a democracia

PTB: oportunismo no Brasil inteiro

Comentei outro dia o fisiologismo do PTB gaúcho. Peço perdão, mas devo reiterar: ele se espalha pelo partido muito além dos pagos do Rio Grande. Se o PTB nacional está tão dividido, como aponta a Carta Maior, tendo grande parte de seus quadros declarado apoio a Dilma enquanto a posição oficial é de defesa da candidatura tucana, é porque Dilma tem muito mais chances de se eleger. Os grandões do partido (leia-se Roberto Jefferson) empurraram Serra goela abaixo, mas é evidente que o resto da boiada não vai deixar que uma decisão da Executiva faça com que todo o partido perca seus carguinhos. E lá se vai o PTB seguindo as lições deixadas pelo parceiro de jogo sujo, o PMDB (que, bem mais esperto, garantiu a posição impondo desde o vice de Dilma).

PTB: oportunismo no Brasil inteiro

O primo pobre do PMDB

Concorrem com certa força ao governo estadual um representante do governo Lula, um do governo Yeda e um do governo Fogaça. União, Estado e Município. Nos dois últimos casos, são os próprios chefes do Executivo que encabeçam a chapa.

O PTB, que estava fingindo ter força até ontem, anunciou que não vai mais insistir na candidatura de Luis Augusto Lara para governador do Rio Grande do Sul. A retirada era questão de tempo, qualquer um sabia. Lara insistiu em manter seu nome na disputa com a intenção de valorizar seu passe e o do PTB, costurar alianças com mais força. Não deu certo. Agora, o partido declara-se neutro, não vai apoiar a priori nenhuma chapa majoritária.

Os motivos são dois: o cenário descrito no primeiro parágrafo e as pesquisas. O PTB ocupa cargos nos três governos, e não quer perder a boquinha. Anunciando apoio a algum candidato, teria que desfazer a promiscuidade pelos próximos meses, e não interessa ficar longe do poder um minuto que seja.

As pesquisas, por outro lado, vão servir para orientar o PTB, já no fim do processo eleitoral, a escolher o melhor apoio. Não deve contar programa partidário ou identificação ideológica, mas os números. Os maiores nas sondagens devem receber o partido. O PTB não vai ser vice de nada, perdeu o bonde. Em compensação, vai estar próximo de qualquer um que se eleger e deve continuar no poder. Vai ser desde criancinha simpatizante do partido eleito.

Aprendeu a lição do maior oportunista político brasileiro, o PMDB. Só que não tão direitinho. Se for ver de perto, o PMDB também está, ou esteve, presente nos governos Lula, Yeda e Fogaça. É tão prostituído quanto. Mas não aparenta o mesmo mau-caratismo que o PTB (e mesmo se aparenta, todos fingem não ver, ninguém prescinde do apoio do PMDB, pelo contrário, brigam por ele). É mais velado, embora seja tão ruim ou pior. Só que mais inteligente. Talvez por isso ainda pior, já que acaba sempre com mais força, mais poder.

O PTB mama. O PMDB dá as cartas.

O primo pobre do PMDB

Eleições gaúchas não devem ter surpresas dessa vez

Esse ano, pela primeira vez em muito tempo, o eleitor gaúcho não vai ter muito como escapar das duas opções principais que se apresentam na disputa ao governo do Rio Grande do Sul. Tarso Genro pelo PT e José Fogaça pelo PMDB correm com vantagem na maratona eleitoral.

Vejamos as outras opções:

Yeda Crusius (PSDB), a se confirmar minha teoria de que gaúcho não reelege o mesmo partido no governo do Estado (um eterno insatisfeito), ela está fora da disputa. Colabora para isso a incompetência política que a levou a um índice de rejeição absurdo. Aliás, merece os parabéns por ter conseguido a façanha.

Luis Augusto Lara (PTB) é o que preocuparia um pouco, mas não é certo ainda que participe da briga. O PTB ainda é disputado por PT e PMDB. De qualquer forma, Lara é fraquinho e não tem cacife para chegar ao Piratini. Pode-se argumentar que Yeda também era em 2006 e se elegeu, mas, bem ou mal, ela tem um partido nacionalmente forte que a sustenta, embora no RS o PSDB não seja tão expressivo. Espero não morder a língua.

Pedro Ruas (PSOL) é aquela coisa, acaba sendo tachado como nanico. Mesmo que a mídia deixasse e não o retratasse sempre como um louco sem chances que está ali só pra atrapalhar, não teria chance com a classe média alienada/conservadora que tem calafrios ao ouvir a palavra “esquerda”.

Os outros nomes são pequenos demais para causar qualquer mudança no cenário. Não que não devam existir, mas não influenciam na análise em questão.

Uma boa análise sobre o tema, de Paulo Cezar da Rosa, está aqui.

Eleições gaúchas não devem ter surpresas dessa vez

Entre governo e oposição, sempre governo

E não é que a Zero Hora acertou no tom? E em política, pasmem. O autor da proeza é Paulo Germano, o repórter que assina a matéria “Ninguém é de ninguém”, sob a cartola “Salada eleitoral”, nas nobres páginas 4 e 5 dessa edição dominical.

Em primeiro lugar, as palavras todas encaixam. Elas estão no lugar certo, é gostoso de ler. Na forma, o texto é muito bom. Utiliza metáforas inteligentes, mas compreensíveis por todos. Não são ideias jogadas, são palavras trabalhadas.

É também uma matéria boa em conteúdo. Discute a falta de coerência dos partidos. Dos políticos também, mas principalmente das siglas. Tem problemas, é verdade, mas ainda tem mais méritos, admito. Chama a atenção a utilização de citações. Quando fala do PMDB, principal alvo da matéria, Germano usa uma fala de algum peemedebista. Ao mostrar a incoerência do PTB, é vez de citar um petebista, e assim sucessivamente. O que deixa mais evidente o oportunismo relatado.

Um único parágrafo me fornece duas sensações antagônicas. Primeiro, o sentimento de que eu gostaria de tê-lo escrito. A segunda, a de que esconde uma baita sacanagem.

“Às vésperas da eleição, cada vez mais “ideologia” parece esnobismo fora de moda. Entre todos os principais partidos, uma prioridade evidente é atingir o poder, seja com quem for, seja como for. Escancara-se um pragmatismo político no qual direita se abraça na esquerda, tempo de TV engole utopias e, para piorar, os que se dizem éticos emudecem frente aos desonestos. A intenção é a mesma: evitar ficar na oposição.”

Gostaria de tê-lo escrito porque seu texto é irretocável e traduz em poucas linhas como funciona boa parte da política nacional. Mas traz escondida a tentativa de retratar o todo por essa parte, valoriza a velha ideia de que é tudo a mesma coisa, nada boa para a nossa frágil democracia. Uma tentativa de mostrar todos os partidos e todos os políticos como pertencentes a uma só laia, a uma só estirpe. E essa laia não é nada boa. É o oportunismo, chamado pelo jornal de pragmatismo. Segundo o Houaiss, a palavra usada por Paulo Germano significa uma “corrente de idéias que prega que a validade de uma doutrina é determinada pelo seu bom êxito prático”. Ou seja, os fins justificam os meios. Acho que está mais para um vale-tudo mesmo.

Mas há ainda algo mais grave. Depois do texto principal, quatro retrancas dão conta de mostrar as incongruências de PDT, PTB, PP e PT. O PMDB já foi bastante batido, apontado como o exemplo-mor de oportunismo; quer dizer, de pragmatismo.

E o PSDB? A ZH simplesmente deixou passar batido. Daí fica difícil acreditar nas boas intenções.

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A matéria: Ninguém é de ninguém

As retrancas: Paulinho do PDT foi vice de Ciro, adotou Alckmin, abraçou Lula e está com Dilma
O PTB de Lara apoiou Yeda, lançou candidato e mantém cargos no governo
O PP não gostava do PT, aceitou convite de Lula e agora namora Serra
Os petistas abandonaram a pureza, assediaram inimigos e estimularam a barganha

Entrevista: “O Brasil é uma falsa federação”

Entre governo e oposição, sempre governo