O mundo encantado da revista Época

Epa, li direito? Ali está escrito “Para Lula, a economia mundial foi uma poderosa aliada”? Claro, o Brasil surfou na marolinha da maior crise econômica mundial desde 1929 porque… Hein, crise? Que crise? A economia estava ó-te-ma!

Esse é o mundo de Época. O mundo que convém às Organizações Globo, grupo ao qual pertence. O grande erro é achar que o resto das pessoas também vive nesse mundo.

—————-

E falam em isenção e compromisso com os fatos.

Anúncios
O mundo encantado da revista Época

Veja tenta confundir leitor com manipulação dos fatos, mais uma vez

Defender a descriminalização do aborto não é a mesma coisa que defender o aborto. Confundir uma coisa com a outra é um erro grosseiro, que pode levar a uma generalização.

Quando a Veja coloca na capa, em posições opostas, dois rostos iguais da candidata petista à Presidência, Dilma Rousseff, acompanhadas de frases diferentes, uma a favor da descriminalização e uma contra o aborto, ela quer induzir o leitor a acreditar que está diante de uma pessoa de duas caras, que mente. A revista manipula a informação. É ela quem está mentindo para o leitor.

Não há contradição em se dizer a favor da descriminalização e contra o aborto, como fez a Dilma em situações diferentes. A montagem da Veja é sacana ao induzir essa contradição. É uma sacanagem a mais, considerando que a Veja está incentivando que a discussão eleitoral se concentre em temas polêmicos que não fogem do verdadeiro debate de projeto político para o Brasil.

Veja muda de opinião de acordo com a conveniência

Vivemos em um país de cerca de 200 milhões de habitantes. Utilizando o dado fornecido pela própria Veja em 28 de janeiro de 2009, especialistas acreditam que 1 milhão de mulheres fazem aborto todos os anos. É a quarta causa de morte materna, por conta de poucas condições de higiene ou segurança

Engraçado que nessa edição a revista se posicionou favoravelmente à descriminalização. Ataca o falso moralismo brasileiro quando não há interesses políticos. Quando há interesses, se aproveita dele. Tenta induzir o leitor a ver o aborto como um crime, um atentado à vida, para culpar Dilma.

Marina e o aborto

Mas voltando ao tema. As mulheres que fazem aborto não são a maioria da população, mas são uma parcela considerável, que merece atenção e cuidado. Muitas mulheres que fazem esse procedimento correm risco de vida ou sofrem traumas físicos ou psicológicos. A postura da candidata Marina Silva, por exemplo, ao ser questionada sobre o tema, de defender a realização de um plebiscito para decidir, é uma postura fácil. Fácil e demagógica. Declarar-se a favor da decisão por plebiscito quando colocada frente a temas polêmicos é sempre uma postura fácil.

Ela dá uma falsa aparência de democracia, mas esquece que um presidente tem que zelar por toda a sua população. Diante de um moralismo falso que toma conta do nosso país – é mais fácil apontar o dedo na cara do outro, como se só ele errasse -, um plebiscito provavelmente decidiria contra a descriminalização do aborto. Prejudicadas seriam as mulheres que sofrem com essa proibição.

Comparando mal e porcamente, é como se a pessoa que tem comida farta achasse que o outro não tem direito a comer porque ele não ganha o suficiente. O papel do Estado é zelar por esse que não tem comida, mesmo se ele for minoria.

Deixar a situação para ser decidida em um plebiscito é se eximir da responsabilidade. Aborto é uma questão de saúde pública, é uma questão que precisa ser tratada como uma política de Estado. Jogar a decisão para um plebiscito é deixar um milhão de mulheres por ano à mercê da decisão de uma maioria falso moralista.

Voltando à Veja

Então o que faz a revista Veja é manipular a informação, distorcer os fatos e induzir o leitor a acreditar em um juízo de valor feito pela revista que de fato não reflete a realidade. O de que Dilma tem duas caras, que mente, que não é confiável. Isso é uma mentira, uma falácia. E mais, de que Dilma é contra a vida por defender a descriminalização do aborto. É uma manipulação grotesca.

E sempre é bom insistir que a opinião da Veja varia de acordo com os interesses.

Veja tenta confundir leitor com manipulação dos fatos, mais uma vez

Jorge Furtado é o melhor do especial de Carta Capital

A Carta Capital circula essa semana em uma edição especial. No 600º número da revista, ela vem com a proposta de responder à pergunta “Do que o Brasil precisa?”. Claro, sem a pretensão de apresentar soluções definitivas ou absolutas. A ideia é simplesmente que pessoas com certo grau de respeitabilidade em diversas áreas deem a sua opinião.

Adoro essas coisas de edições especiais, e me empolguei quando vi essa. Confesso, está meio decepcionante. Talvez por a pergunta ser ampla demais, talvez pela escolha dos nomes a respondê-la. Vários começaram de um jeito meio parecido, caíram em obviedades. Mas alguns textos valem o investimento. De tão bons, superam os outros.

“Ler Guimarães Rosa”, resposta de Jorge Furtado, é disparado a melhor. Não diz nenhuma novidade surpreendente, mas sintetiza em três páginas o que de fato o Brasil precisa, mas não quer ver. E deixa no final a sensação de burrice coletiva por não fazermos coisas tão simples e óbvias. Além de tudo, desmistifica aquilo que querem fazer o brasileiro crer. Por exemplo, que nenhum político presta e que política não vale a pena.

Além dele, destaco o artigo de Marcos Coimbra que publiquei aqui no blog sobre a capacidade do eleitor de fazer suas escolhas. O texto de Dagmar Garroux, presidente da ONG Casa do Zezinho também vale bastante. Especialmente as respostas dos “Zezinhos”, crianças e adolescentes muito mais espertos que muitos gestores por aí.

A entrevista de Juca de Oliveira a Rosane Pavam também está muito boa. Não concordo com boa parte do que o ator diz, mas ele é inteligente e a condução da conversa é bem feita.

Sócrates, pra variar, discute futebol além das quatro linhas do campo. E muito bem. Sua visão crítica privilegia o leitor de Carta Capital toda semana. Agora, critica a fuga da realidade que a atual forma de gerenciar o esporte beneficia.

Por fim, a entrevista com MV Bill está de primeira. Quem conduz é Pedro Alexandre Sanches, que passou seis horas com o cantor. O que mais marca na conversa é a sinceridade que MV Bill transmite. Eu conhecia – e conheço – pouco o seu trabalho, mas o respeito, especialmente pelo que li, pela visão de integração, de cuidado com as favelas, de não afastá-las da sociedade, não incentivar uma rixa, mas uma convivência harmoniosa.

Decepcionante foi a resposta de José Vicente, reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares. Na tentativa de defender o movimento negro e mostrar sua importância, citou a visita da secretária de Estado americana, Hillary Clinton, e passou boa parte do texto enaltecendo a dama de ferro que tem se mostrado pouco afeita a ceder espaço para ideias divergentes, seja no campo que for.

Jorge Furtado é o melhor do especial de Carta Capital

A campanha de Veja: esperada, mas esdrúxula

Mais esdrúxula do que a campanha descarada da Veja dessa semana pelo Serra é a tarja com os outros assuntos da revista que aparece no alto da capa. Juro, seria menos vergonhoso, menos ridículo se não tivesse aquela menção a Dilma.

Todo o mundo já sabe que a revista defende a candidatura Serra. Quem não sabia, desculpa, mas era muito tapado. E se continua achando a revista neutra depois dessa capa, é no mínimo prejudicado intelectualmente. Ou possui tanta má fé quanto a própria Veja. É impossível não ver a defesa descarada do candidato. Na verdade não diz “Serra para presidente” porque não se faz necessário. O resto da capa já diz isso, e de uma forma mais simpática ao leitor elitizado, perfil da publicação.

Mas bem que podia vir com o timbre do PSDB e se chamar “Programa de governo”, “Estratégias de campanha”, qualquer coisa assim. Isso sem contar que o tal panfleto a tal revista que diz que faz jornalismo já considera Serra eleito. “Serra e o Brasil pós-Lula.” Ou é uma prece, um pedido aos deuses para que o ex-governador paulista se eleja ou é uma constatação. Se for a primeira, é só ridículo. Se for a segunda, assusta, lembra tentativas de golpe que já vimos por aí. Ou então, há a hipótese de que, mesmo a Veja tendo assumido que Serra já está eleito, seja só uma quase inacreditável ingenuidade de quem só vê o quer. Uma ingenuidade nada ingênua, antes macabra.

Independente da alternativa escolhida, uma coisa é certa: a Veja conclama seus leitores a votarem no tucano. Descaradamente.

Nada além do esperado. Mas que nem por isso deixa de ser estapafúrdio.

—————

Parece que a Veja anda lendo o Blog do Luis Nassif. Se ela já não praticasse esse tipo de jornalismo há tanto tempo, diria que tinha tirado as ideias desse post, um manual do neojornalismo.

A campanha de Veja: esperada, mas esdrúxula