Turismo nas favelas cariocas

Esta matéria foi feita por uma grande amiga e baita jornalista, Paula Bianchi, que tem esse blog aqui – vale ler os “bastidores” da matéria – e emplacou uma capa na Folha de S.Paulo, joranal para o qual ela está trabalhando. Pra provar que gente boa também passa por esses lugares. Os exemplos são muitos, aí vai um.

Favelas pacificadas atraem turistas no Rio

PAULA BIANCHI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DO RIO

A concepção tradicional de favela vem sendo subvertida no Rio. De lugares simples e muitas vezes miseráveis, elas passaram a ponto de encontro de turistas e cariocas descolados que sobem o morro sem preconceito atrás da cidade maravilhosa além do cartão postal.

O morro Dona Marta, em Botafogo, zona sul, cenário do clipe de “They Don’t Care About Us”, de Michael Jackson, hoje está na agenda graças aos eventos realizados quase que semanalmente pela comunidade –sede da primeira UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) do Rio.

Um dos mais famosos é o “Pôr do Samba”, que acontece no primeiro sábado do mês.

No dia em que a Folha visitou o local havia alemães e franceses arriscando passos de samba ao lado de cariocas que entraram na favela pela primeira vez e entoavam clássicos de Cartola e Zé Kéti.

Vitor Lira Adão, 30, já levava turistas para passear pelo morro antes da pacificação. Ele é um dos monitores do Rio Top Tour, projeto criado há um ano pelo governo do Estado para incentivar moradores a atuar com turismo.

“Os estrangeiros sempre tiveram curiosidade, mesmo conscientes do perigo de antes”, lembra ele, que diz nunca ter tido problemas graves nos passeios –apesar de, na folga, já ter corrido para se esconder dos tiros.

“Muitos amigos meus morreram aqui, alguns porque trabalhavam para os traficantes e outros, atingidos por balas perdidas”, conta.

BUFÊ E FEIJOADA

Do outro lado da lagoa Rodrigo de Freitas, outras favelas usufruem da nova fase: no Cantagalo, Pavão e Pavãozinho é comum ver turistas que trocam as praias de Ipanema por um passeio.

“Já recebi um grupo de 35 japoneses”, conta Jailton do Santos, 35, dono do bar e restaurante Bela Vista. O local brinda os visitantes com uma vista de Copacabana e um bufê caprichado, com direito a feijoada no sábado e galinha caipira no domingo.

Já no Chapéu Mangueira, no Leme, é Vítor Hugo Medina, 32, que abre um sorriso ao falar dos novos visitantes. Barraqueiro na praia do bairro, ele se tornou ainda guia turístico e dono de albergue.

Medina promove tours pela favela, mostrando os projetos sociais do local e a área de preservação ambiental vizinha. E cresce sem deixar de lado a comunidade, que recebe uma parcela do lucro.

“Comunidade pacificada é febre. O turista que vem aqui e ainda não foi ao Pão de Açúcar e ao Cristo não vai mais. Aqui, ele vê tudo”.

Anúncios
Turismo nas favelas cariocas

O Rio de Janeiro é aqui

Por Paulo Guarnieri. Publicado no Jornal do Centro.

O estado do Rio de Janeiro nos dá importantes exemplos de como é importante considerar, no planejamento urbano e nas ações de estado, a sustentabilidade social e ambiental das nossas cidades. O primeiro exemplo, na ocupação dos morros pela “Polícia Pacificadora”, aponta com muita clareza os riscos trazidos à urbanidade pela segregação espacial dos assentamentos humanos. Ora, permitir a construção de uma cidade de pobres, à margem da cidade dos ricos, só poderia resultar no que deu.

A exclusão social promovida desta forma, localizada em espaços restritos, põe a nu as diferenças e estimula o conflito, criando a noção de território marginal. A segregação espacial da cidade estigmatiza e potencializa a exclusão, à medida que limita as possibilidades de convívio social e de oferta de oportunidades, isto tudo determinado pelo medo, produzido pelo próprio estigma. O resto fica na conta do sistema educacional precário, do preconceito, da família desestruturada, da mídia que estimula o consumo como paradigma de sucesso, da TV que divulga o ócio, a truculência e a disputa inescrupulosa.

O segundo exemplo que vem do Rio são os vários desastres ambientais ocorridos, devido a cheias e deslizamentos de encostas, neste início de ano. O interesse econômico se sobrepõe ao interesse social e à preservação ambiental, colocando em desequilíbrio a nossa condição de vida.

Aqui em nossa terrinha, embevecidos com a realização da Copa do Mundo, parlamentares da Câmara Municipal autorizam uma profunda flexibilização urbanística ao longo da orla do Guaíba.

No Cais do Porto, será possível construir torres de 100 m de altura (próximo à rodoviária) e um prédio ao lado da Usina do Gasômetro, com quase 40 m de altura e taxa de ocupação de 90% na base, que aniquila com a paisagem local, e tudo isto como contrapartida do “Público” ao setor privado, pela recuperação de uma dúzia de antigos armazéns do cais. Três torres da Maiojama, quase em frente à SMOV. Ampliação do Shopping Praia de Belas e construção de Edifício Garagem, com ocupação do espaço aéreo sobre a via pública, sem ônus. Ampliação da Rua Praia de Belas, com implantação de sistema binário com a Borges de Medeiros. Serão quatro pistas de alta velocidade em cada uma das vias, com fluxo em sentido contrário, separando a população do Parque Marinha. No Parque, uma pista o cortará pelo meio. O novo Plano Diretor já permite construções de 52m de altura ao longo de Borges de Medeiros e Praia de Belas. No entorno do Gigante da Beira Rio, está autorizada por lei a construção de 5 Beira-Rios em volume de concreto.

Ora, no Cais do Porto são previstos 5.000 estacionamentos, de veículos que deverão acessá-lo pela Mauá via Usina. No Beira Rio, em noite de jogos importantes circulam cerce de 25.000 automóveis, circulando entre o gargalo viário do Viaduto da José de Alencar, onde desembocará o binário Borges/Praia de Belas e o entroncamento do binário Padre Cacique/Pinheiro Borda. As obras necessárias para resolver os problemas provenientes do aumento do fluxo viário produzido pelos novos empreendimentos, “serão demandadas pela população e realizadas pelo Poder Público, como sempre”, conforme depoimento de técnico da SPM em reunião do Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano. Pasmem! As licenças ocorrem até mesmo sem as contrapartidas e medidas mitigadoras exigidas pela Lei Federal. É desnecessário dizer que tudo é planejado e feito com expulsão da população de baixa renda, com reassentamento em localidades distantes e sem infraestrutura, ou até mesmo colocando à disposição dinheiro para morarem onde quiserem, é claro que não o suficiente para permanecerem no bairro em que residem. A lógica utilizada é a de privatização da orla, o que contraria radicalmente a sua vocação de uso comum.

Os processos legislativos que instituíram as alterações urbanísticas do Pontal do Estaleiro e do Campo dos Eucaliptos (CMPA), e o projeto de lei para autorização de venda das terras da FASE no Morro Santa Teresa (ALERGS), demonstraram com nitidez que a simples alteração da lei pode valorizar a terra em até 10 vezes, o que pode ser um ótimo negócio para um pequeno grupo de investidores, mas não aponta para um padrão de desenvolvimento econômico com sustentabilidade social e ambiental.

Resumindo, estamos seguindo os passos que levaram o Rio de Janeiro à condição que hoje se encontra. Não podemos esquecer que todas estas possibilidades são construídas no meio político. É na Câmara de Vereadores que as leis são votadas e é no Gabinete de Planejamento que os empreendimentos são autorizados, na negociação com os empreendedores privados.

Cada vez mais, é necessário o controle cidadão sobre os políticos eleitos. É preciso dedicar uma atenção especial àqueles que se utilizam das paixões humanas para conquistarem vitórias eleitorais. São muitos os nichos sociais refratários à discussão política, que elegem grande número de parlamentares, como: os futebolistas, os carnavalescos, os tradicionalistas, os religiosos. Grupos humanos motivados por grandes paixões, que cerram os olhos à política e com seu voto elegem representantes que atuam sem controle, sem a fiscalização cidadã do eleitor, e assim praticam os maiores vandalismos com a cidade. Via de regra, sucumbem ante o poder incontrolável da especulação imobiliária, contribuindo com a lógica de segregação espacial da cidade e autorizando a carga sobre áreas ambientalmente vulneráveis. A pretexto do desenvolvimento econômico, sacrificam a sociedade e o ambiente natural.

O Rio de Janeiro é aqui

Acorda, Brasil!

Recebi esse texto do leitor Diego Uzzun*, por conta de um post que publiquei a necessidade de planejamento urbano logo após as enchentes do Rio.

Estamos iniciando uma nova década e usualmente traçamos novas metas e aspirarmos por renovação. Afastando desde já qualquer sintoma de mero ceticismo, o que se vê na mídia é “mais do mesmo”. Chuvas acima dos volumes esperados e famílias inteiras varridas do mapa. E a história se repete ano após ano.

Por trás dos popularmente chamados “desastres naturais” (uma expressão infeliz, registre-se), há causas que precisam ser compreendidas, enfrentadas e solucionadas. Faltam políticas públicas coerentes e concretas, respeito e convivência harmoniosa do Homem com o meio ambiente, planejamento e regras sérias para a ocupação do solo, investimentos maciços em infraestrutura e oferta de mais oportunidades e condições dignas de vida aos pagadores de tributos. Todos os heróis brasileiros que a televisão nos apresenta geralmente nessa época do ano, em sua maioria anônimos e que incansavelmente lutam para salvar as vítimas das enchentes, pouco podem fazer se toda a população não tirar do papel a teoria do “começa com cada um de nós”.

No meu mundo, vejo lixo espalhado pelas ruas, assisto com irritação a pessoas atirando todo tipo de objeto no chão (o baixo número de lixeiras instaladas pelo Poder Público é algo inaceitável), pasmo com o egoísmo no trânsito, conheço lugares que ao invés de protegidos são invadidos por barracos ou mesmo mansões suspensas, e chego à conclusão de que, sem um pensamento coletivo, o individualismo acabará retirando de nossos filhos o que resta das condições de vida das quais hoje usufruímos.

Como um país como o Brasil traça planos tão grandes para sediar uma Copa do Mundo e uma edição dos Jogos Olímpicos se pensa tão pequeno e trata com descaso os episódios que ganham força conforme o avançar dos anos? A ocupação irregular do nosso solo, a sua impermeabilização excessiva e o desvio dos cursos dos rios são fatos incontestáveis, infelizes e geralmente não lembrados pela maior parte da população quando se está fazendo a contabilização das mortes e dos prejuízos causados pelas tragédias. Na mesma linha, a ausência de organização na coleta e destinação do lixo parece ser tolerada pela maior parcela da população e de certa forma passa despercebida diante de tantos outros problemas crônicos das cidades brasileiras.

Dando continuidade a esse raciocínio, a cegueira e a falta de um pensamento altruísta por parte dos nossos governantes para todas essas situações são fatos que não merecem e nem podem ser acobertados. Caso assim se permita, estará se coroando e tornando ainda mais nítida a ignorância do ser humano, que se vangloria por ser o “mais desenvolvido dos seres vivos”, mas é incapaz de proteger a preservação de sua própria raça. Qual a vida que queremos deixar para as próximas gerações?

Neste exato momento, acabo de ser surpreendido por uma estranha erupção de água vinda dos ralos da pia da cozinha. Olho pela janela e vejo o céu preto de São Paulo anunciando que vem chegando mais chuva e, com ela, provavelmente, mais lágrimas. Acorda, Brasil!

* Diego Uzzun, advogado, cursando Pós-Graduacao em Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentavel, 28 anos, Leme/SP

Acorda, Brasil!

A palavra-chave é planejamento

Deixei passar o auge do caos porque a discussão tem que ser permanente.

Falta profundidade no debate sobre as chuvas que se repetem a cada ano. Acontece que, assim como os investimentos, a reflexão deveria vir o tempo todo, não apenas nos momentos de caos.

Proponho, aliás, que se faça um esforço na blogosfera para recuperar de quando em quando o debate e pautar a discussão sobre o enfrentamento às situações que levam a tragédias.

As hipóteses

Com base em diversas referências – cito a Carta Capital dessa semana – observo que, ao mesmo tempo em que no verão é comum chover no Sudeste e que os governos precisam se mexer para fazer alguma coisa, também se nota um aumento no volume de chuvas. Se é causa do aquecimento global, se pode ser considerada uma tendência ou se é episódico, ainda é cedo para avaliar.

O fato é que, ao mesmo tempo em que chove muito, também se constroi muito. E se constroi sem planejamento. É preciso discutir planejamento urbano e meio ambiente de forma integrada.

As agressões ao meio ambiente

Não se pode tirar os olhos das mudanças globais. Mas é fundamental que se olhe para a agressão local, lembrando que as duas estão interligadas. E que alguma coisa está muito errada se, em chuvas semelhantes – ainda que com terrenos bastante diferentes -, no Brasil periga chegarmos a mil mortos e na Austrália a contagem está em 20. Não é uma dezena a mais – e, ainda que fosse só uma vida de diferença, já seria motivo para avaliar -, são números completamente discrepantes.

Não dá pra continuar permitindo construções nas encostas, desmatando o morro, tirando a sustentação. E isso vale para as construções de ricos e pobres.

As consequências são enormes. O desmatamento ajuda a escoar a água e causar enxurradas ao mesmo tempo em que contribui para aumentar o volume de chuvas. E aí vale lembrar que a flexibilização do Código Florestal proposta pelo deputado Aldo Rebelo (PCdoB!) agravaria o problema. Flexibiliza-se o tratamento ao meio ambiente para obter mais lucro, sem pensar nas vidas arriscadas. E o mais irônico, até o lucro se perde nessas tragédias.

Planejamento urbano

O governo tem o papel de fiscalizar, de impedir a construção desenfreada e desordenada, de elaborar plano diretor, planejar. Não pode autorizar as construções grandes, passando por cima do plano diretor, nem deixar de fiscalizar e fornecer alternativas a quem não as tem e acaba construindo sua casa no lugar mais barato, mesmo que mais arriscado. Repito, é preciso tratar o tema de forma articulada. Dentro do planejamento está o respeito ao meio ambiente. O plano diretor deve prever o respeito às encostas, os limites construtivos.

Fala-se em planejamento urbano, mas qual? As últimas semanas nos mostram chuvas derrubando prédios de gente com grana, hoteis. Não são mais as ocupações irregulares que estamos acostumados a ver sofrer com as intempéries. Não são casebres que não tiveram autorização para construir. Se um hotel está no morro, é porque a prefeitura deixou. Fala-se em área de risco. É papel da prefeitura impedir que se construa em área de risco.

O governo é o agente responsável, é quem tem o poder de agir para impedir catástrofes, de diversas formas. Mas a discussão deve passar por toda a sociedade, até para que ela cobre dos governos. Tem que atingir o rico, que tem condições de se manter bem informado e de morar bem, para que não construa sua casa de luxo no morro para ter uma vista linda da cidade. Tem que levar a informação para quem não tem.

Homem e natureza

É preciso discutir mudanças climáticas, suas causas, suas consequências e qual nosso papel nesse processo. Mas fazer dela a única explicação para as tragédias é esperteza. Atribuir as tragédias ao aquecimento global tem servido apenas para os governantes se isentarem de culpa.

O que se poderia fazer, isso sim, é aproveitar o momento para promover uma reflexão sobre o que queremos de verdade da nossa relação com o resto da natureza. Se ela deve servir apenas como uma fonte inesgotável (sic) de recursos ou se podemos ter uma relação integrada, de troca e respeito. Essa é uma das reflexões que poderiam ser provocadas.

Mas usar o aquecimento global para justificar a inação do governo, como fez José Serra em seu Twitter, é calhordice.

http://twitter.com/#!/joseserra_/status/26789005135712256

http://twitter.com/#!/joseserra_/status/26789199952740353

É o momento de usar a tragédia da Serra fluminense para evitar que outras aconteçam. Lembrando sempre que um sistema eficiente de alerta de emergência é muito importante, mas mais fundamental ainda é entender as causas dessas catástrofes e agir para que sejam mudadas. É transformar a lógica, e compreender que, entre a vida das pessoas e o lucro das construtoras, vale mais a primeira.

—————–

A primeira imagem é do estado do Rio de Janeiro. A segunda é do Nordeste, na metade de 2010.

A palavra-chave é planejamento

Rio de Janeiro avança na criação do Conselho de Comunicação Social

Publicado em 08/12/2010 por Nau Capitania:

Aconteceu na última segunda-feira, 06/12, a Audiência Pública para debater a criação do Conselho Estadual de Comunicação Social do Rio de Janeiro, CECS-RJ, realizada na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, ALERJ.  O deputado Paulo Ramos, presidente da Comissão de Trabalho, Legislação e Seguridade Social da Alerj, apresentou para debate o projeto de lei 3.323/10, de sua autoria, que trata da criação do conselho. Esse debate é uma iniciativa extremamente importante para a sociedade, e enfrenta uma campanha desleal de alguns segmentos que tentam lhe imputar o estigma de censura, com o peso sombrio de retrocesso ao que tivemos em épocas de ditadura. Mais do que relatar o que aconteceu, quero apresentar algumas reflexões.

O encontro contou com a presença de interlocutores importantes, em grande parte já engajados na discussão do papel da Comunicação na formação do imaginário social. Essa preocupação é comum a vários países desenvolvidos, democráticos e defensores da liberdade de expressão, como Estados Unidos, França, Itália, Inglaterra, Portugal e Espanha. O parlamentar apresentou um levantamento  sobre a legislação desses países que têm agências reguladoras e conselhos destinados a regulamentar a comunicação. Porque no Brasil ainda não conseguimos avançar nesse sentido?  Vou arriscar um palpite: a sedimentação do aparato da grande mídia em monopólios familiares acostumados ao não questionamento de suas estratégias de manipulação e poder.

A criação do conselho trata tão somente de regular o que é feito de uma concessão pública de radiodifusão. Uma concessão que, diga-se de passagem, não é algo facilmente obtido nem está ao acesso de qualquer cidadão que deseje se aventurar no mercado de comunicação. Toda concessão pública deve prestar contas à sociedade se está atingindo seu propósito. Seja qual for o segmento. Não cabe a sociedade, por exemplo, arbitrar sobre o lucro obtido pela SuperVia ou pelo Metrô, mas se não atendem a suas finalidades de transporte, podem e devem ser questionados publicamente. Porque então as empresas de comunicação querem pleitear para si o direito de intocáveis, detentoras de direitos de liberdade e isenta de deveres sociais. Uma concessão implica em obrigações, em grande parte não cumpridas pela mídia comercial. Questionar isso é censura?

A jornalista Claudia Abreu, representante da campanha “Ética na TV” e diretora da Tv Comunitária de Niterói, defendeu a necessidade de uma política pública para os meios de comunicação, como forma de assegurar a liberdade de expressão e a democratização da informação. “O fim da censura foi uma conquista muito importante, mas ela não pode ser um cheque em branco para os radiodifusores”, argumenta.

Ela citou o caso do ex-BBB Marcelo Dourado que afirmou no programa que “homem hétero não pega AIDS”. A emissora se defendeu na figura do apresentador Pedro Bial, que se limitou a dizer logo após a exibição do trecho que “as opiniões e batatadas emitidas pelos participantes deste programa são de responsabilidade exclusiva dos participantes deste programa. Para ter acesso a informações corretas sobre como é transmitido o vírus HIV, acesse o site do Ministério da Saúde”. Verdade isso? A emissora não é responsável por promover um retrocesso em anos de campanhas de prevenção?

O programa é um “reality show” transmitido em sua totalidade e ao vivo somente para assinantes desse produto específico. Mesmo para

usuários de tv por assinatura é preciso contratar a parte a liberação dessas imagens. Grande parte do que acontece nesses programas ficará restrita a uma minoria que adquirir esse pacote. Como vender esse produto tão estranho: o voyeurismo de estranhos confinados em uma casa? A emissora vem apostando nas polêmicas, no apelo sexual, nos “barracos”. Quando ela edita, entre tantas imagens captadas em um dia, a tal “batatada” de Dourado para ser exibida no horário nobre na tv aberta, ela passa a ser responsável sim. Edição é escolha, e somos todos responsáveis por nossas escolhas. Ou pelo menos deveríamos ser.

O procurador Cristiano Taveira, defendeu a proposta como viável e constitucional, e não pode ser confundida com censura. “Censura é quando a liberdade se concentra nas mãos de uma minoria”, ele pondera. O procurador ressalta que a Constituição prevê uma série de obrigações, refentes a concessão dos meios de radiodifusão, que não são cumpridas pelos veículos comerciais. “Há princípios constitucionais como o pluralismo, o princípio democrático, o acesso à informação e a proibição do monopólio, entre outros. O que estamos defendendo é o pluralismo na mídia, e não a censura” destacou Taveira.

Orlando Guilhon presidente da Associação das Rádios Públicas do Brasil (ARPUB) lembrou que “o termo controle não facilita junto a setores que tentam imputar o estigma de retorno à censura”. Precisamos nos despir desse preconceito senão corremos o risco de nos perdermos em considerações pragmáticas quanto ao peso das palavras. Para Guilhon, para avançar na proposta falta organização, mobilização e pressão da sociedade. Concordo plenamente. E lembro que boa parte da mobilização pelo projeto Ficha Limpa foi feita por meio virtual, através das redes sociais, fóruns, blogs e outros espaços. Já vimos que é possível fazer acontecer. Façamos novamente.

Roseli Goffman, do Conselho Nacional de Psicologia ressaltou que é difícil definir o que é censura, e apresentou algumas considerações sobre o momento delicado vivido pelos cariocas e espetacularizado pela grande imprensa. “A ficção da guerra do Iraque foi vivida aqui no Rio de Janeiro”, ela disse. Uma frase impactante e terrivelmente verídica. Alguns jornais até apresentaram um comparativo de imagens. Era preciso informar a população sobre os acontecimentos? Com certeza. A questão muitas vezes não está no conteúdo, mas no formato. Quais os efeitos subliminares do formato adotado? Essa é uma questão social relevante. Eu escrevi uma monografia sobre como a violência transformada em espetáculo afeta o imaginário social. Está disponível na seçã o “Caixa P”, eu autorizo a reprodução não-comercial, só peço o crédito de autoria e a gentileza de me enviarem mail informando.

“Eu vejo com muita preocupação a inexistência de uma regulação para o setor, o que faz com que alguns poucos poderosos se apropriem de uma liberdade que é de toda a sociedade”, afirmou o deputado Paulo Ramos. “O que existe hoje não é liberdade, é o monopólio, a censura por parte do poder econômico”, ele acrescenta. O parlamentar mencionou exemplos de outros conselhos em funcionamento, e a semelhança do seu projeto com o aprovado recentemente pelo estado do Ceará. Entre as muitas proposições apresentadas pelos presentes, destaco: a criação de grupos de trabalho, a necessidade de mobilizar a sociedade para participação na discussão, a necessidade de garantir a pluralidade no conselho, a necessidade de estratégias políticas para tramitação do projeto. Uma unanimidade aparente, é preciso avançar e os presentes estavam dispostos a contribuir com idéias e ações.

Estiveram presentes na audiência representantes da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), de emissoras de TV comunitárias do Estado, do Coletivo Brasil de Comunicação (Intervozes),da Associação Brasileira de Rádios Comunitárias (Abraço), do Sindicato dos Petroleiros (Sindipetro),dos Diretórios Centrais dos Estudantes (DCEs) da Universidade Federal Fluminense (UFF) e das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), do Movimento dos Blogueiros Progressistas do Rio de Janeiro (#RIOBLOGPROG), o diretor do curso de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio) e da Federação Nacional de Professores de Jornalismo (FNPJ), Leonel Aguiar, o presidente da Associação de Diretores de Jornais do Interior do Estado, além do diretor do Sindicato dos Jornalistas do Estado do RJ, Álvaro Britto.

Apesar da relevância profissional do que estava sendo tratado nessa audiência, da grande mídia comercial somente o Estadão e a CBN enviaram jornalistas, e não para representá-los no debate, mas tão somente para cobrir o evento. O deputado Paulo Ramos encerrou agradecendo a presença de todos, garantindo que outras reuniões vão acontecer, com todas as partes interessadas, para acolher sugestões de modificações no texto do projeto, e afirmando que é preciso “inserir a Assembléia Legislativa de uma maneira institucionalizada nessa discussão”.  Em seguida, concedeu uma coletiva, cujo trecho em audio disponibilizo abaixo.

 

Rio de Janeiro avança na criação do Conselho de Comunicação Social

Para reflexão

Leio Antonio Luiz M. C. Costa dizendo que “ao menos um setor industrial, o bélico, será poupado de cortes significativos em meio à pior crise desde 1929, mesmo se gastos sociais são cortados sem piedade e a existência dessas armas nunca pareceu tão irracional”, na Carta Capital online. Quase que ao mesmo tempo, vejo José Junior, coordenador do AfroReggae, falar à MTV de dentro do Complexo do Alemão que armas matam muito mais do que drogas, mas ninguém nunca viu um plano Estados Unidos ou um plano Israel como vemos o Plano Colômbia, porque armas dão muito mais dinheiro do que drogas.

Para reflexão

A ocupação no Rio: pontos a considerar

Tenho visto muita gente argumentando que a Polícia invade morro mas não quebra sigilo de gente rica. E a afirmação serve de justificativa para questionar a ação policial e se posicionar contra. Existem alguns mitos importantes a se discutir, alguns pontos a se considerar.

1. Polícia não tem poder para quebrar sigilo. Importante diferenciar Poder Executivo de Poder Judiciário.

2. É evidente que é preciso combater o crime de colarinho branco, das “coberturas da Vieira Souto”, como tenho visto em alguns Twitters por aí. Mas uma coisa não anula a outra. É importante cobrar para que todas as formas justas de combate sejam feitas e que não se esqueça de perseguir os bandidos brancos dos bairros nobres, mas não é por isso que o governo deve deixar de tomar providências para combater o crime na favela, para enfrentar momentos de maior tensão, sempre mantendo o respeito à população, evidentemente.

3. Se não agisse, o governo estadual manteria as comunidades sob risco, nas mãos dos traficantes. Minha conclusão a respeito do começo do confronto é de uma revolta frente à perda de poder que eles temiam perder com a implantação das UPPs e a chegada do Estado às favelas. Ou seja, se não ocupasse agora, era deixar que a população dos morros continuasse sob domínio dos traficantes.

4. É ingenuidade criticar a ação policial com base na necessidade de se fornecer serviços públicos às comunidades. Ela é evidente e tem que ser defendida. Mas em um momento de crise uma escola não dá conta. O acesso a saúde, educação, segurança, lazer é importante para que não ocorram crises, para que haja dignidade nos morros. Mas em um momento agudo é preciso tomar providências urgentes. Que não sejam matar todo o mundo, evidentemente, mas que seja firme.

5. Ouvi falar em carnificina, mas não vi as fontes da informação. Houve alguns abusos, injustificáveis e que devem ser punidos, mas são alguns casos. É preciso avaliar a ação como um todo, a orientação que foi dada pelo governo. E essa orientação foi no sentido certo, de combater sem massacrar, como é de praxe. De evitar o confronto direto para não tirar a vida de inocentes.

6. A grande maioria dos comentários contrários à ocupação do Complexo do Alemão parte de pessoas que estão distantes e não conhecem a realidade da favela. Como eu, têm limitação na capacidade de avaliação. Para romper essa barreira e entender melhor o que se passa com os moradores das favelas, nada pode ser melhor do que ouvir quem está lá dentro vivendo essa realidade. Recomendo seguir alguns perfis no Twitter: @vozdacomunidade, @JJAfroReggae, @celsoathayde, @Cufa_Brasil. É com base neles e, claro, em especialistas, que tento formar minha opinião.

Os donos da razão

Pelo que se lê e ouve, todo o mundo conhece melhor a favela do que os moradores de lá. Chama a atenção como os ouvidos se fecham ao que não se quer ouvir. Em entrevista à Rádio Gaúcha hoje de manhã, José Junior, coordenador do AfroReggae, quase perdeu a paciência. Ao fim da conversa, fiquei curiosa para saber onde a Rosane de Oliveira e o André Machado, ambos jornalistas políticos gaúchos, fizeram suas especializações em segurança pública, para falar com tanta propriedade sobre o tema.

Chegou a ser patético quando a Rosane perguntou sobre os 16 mil envolvidos com o tráfico no Complexo do Alemão e, ao ser questionada se a informação abrangia a Penha, não respondeu, limitou-se a dizer que “é, são os números que a mídia nacional está divulgando”. Ficou sem argumentos quando José Junior rebateu que “a mídia nacional não entra no Alemão; os institutos de pesquisa não entram no alemão, então esses números são um chute, que não condiz com a realidade”.

Depois de desligar o telefone, leu um comentário de um ouvinte questionando a entrevista, com base no argumento de que o coordenador do AfroReggae teria citado serviços privados quando questionado sobre os serviços públicos levados ao complexo pelo governo Cabral. O comentário não considerou que ele começou, sim, falando nas empresas, mas sua resposta foi mais ampla, apesar da tentativa dos jornalistas de interrompê-la, e terminou fornecendo dados de investimentos já feitos e a serem realizados no Alemão.

Mas a Rosane de Oliveira “viu pela TV” que faltam serviços públicos na Penha. Ah bom! Então deve ser verdade. Se deu na Globo…

(Observação: é óbvio que faltam serviços públicos na Penha. Faltam em praticamente todas as favelas do Brasil. São décadas sem serviços públicos, suponho que demore um pouquinho para conseguir levá-los a todas as comunidades de forma a atender todas as pessoas, o que não anula o mérito de se ter começado. Inclusive, no Rio de Janeiro, ainda é um número reduzido de comunidades que têm UPPs. Elas estão sendo instaladas aos poucos. E mesmo as que já têm estão recém começando um processo de transformação, que ainda leva muito tempo.)

A lição que tiro, pra mim e pra todos, é que é sempre bom ouvir e ler bastante quem entende do assunto antes de formar uma opinião. Não precisa ficar especialista no tema, mas é importante prestar atenção em quem é diretamente envolvido.

——————–

Legenda e crédito das imagens:

Policiais e comunidade convivem pacificamente no Complexo do Alemão. Uma nova realidade para os moradores, que estavam acostumados com o poder do tráfico. Reinaldo Marques / Terra

Um ônibus é queimado durante os ataques que vêm ocorrendo desde o final de semana no Rio de Janeiro. Jadson Marques / Futura Press

As duas acima foram tiradas do portal Terra. Recomendo uma olhada nas outras imagens. São muitas, de muita qualidade.

Tweet do José Junior, coordenador do AfroReggae.

Da reportagem do New York Times sobre as UPPs, tirada do Viomundo.

A ocupação no Rio: pontos a considerar