Colunista de Zero Hora já julgou o mensalão

Parece sutil, difícil de notar na leitura rápida, mas o discurso de Rosane Oliveira no julgamento do mensalão, ainda antes de ele começar, já carrega em si o julgamento da jornalista.

“Ao final, os ministros vão dizer ao país se é legal o partido que está no poder distribuir dinheiro a seus aliados, pagar prestadores de serviço no Exterior, com dinheiro de origem escusa, financiar a boa vida dos membros do próprio partido com recursos supostamente emprestados por bancos cujos administradores também estão no banco dos réus.”

Presta atenção, caro(a) leitor(a)! A construção da frase da jornalista, editora de política de Zero Hora, deixa em aberto apenas a dúvida sobre a legalidade dos atos, mas já fechou questão sobre se eles foram ou não realizados.

Toda a defesa dos réus é baseada na ideia de falta de provas dos supostos crimes, ou seja, de que eles podem não ter acontecido (pelo menos não todos e não do jeito que a imprensa pintou), mas, aparentemente, Rosane não precisa delas. A jornalista já decidiu que houve tudo aquilo que ela cita ali. E isso antes de o julgamento começar. E mesmo a tese do pagamento mensal em troca de votos já ter ido por água abaixo, já ter sido escancarado que isso foi uma invenção da imprensa.

Nem os ministros do STF, que já leram o gigantesco processo, devem chegar ao começo do julgamento com decisão tomada. Jornalista pode? E pode passar isso para o leitor como informação?

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Infelizmente, hoje não deu tempo de ler com atenção a pré-cobertura de outros veículos sobre o julgamento do mensalão. Só na Zero Hora tinha muito mais detalhes (daqueles que são pequenos, mas fazem toda a diferença) pra apontar, mas decidi não incomodar tanto o leitor e mostrar apenas aquilo que escancara a postura do jornal, de posição já tomada, a ser defendida com unhas e dentes ao longo de todo o processo. Vale acompanhar com os dois pés atrás.

Colunista de Zero Hora já julgou o mensalão

Quem é o incoerente?

Entendo que a situação de parte da imprensa gaúcha é mesmo delicada. Por exemplo, Rosane de Oliveira, a colunista de política da RBS. Como criticar o governo do estado por não pagar o piso ao magistério se ela apoiou os governos que mais contribuíram justamente para sucatear o salário da categoria?

Não é fácil mesmo resolver esse problema. Aí resta apelar para a incoerência e fazer uma manobra pra criticar sem se contradizer abertamente e, ao mesmo tempo, sem ficar mal com a opinião pública, o que aconteceria se defendesse que o governo simplesmente não pagasse o piso. O resultado é um texto publicado na Zero Hora deste domingo que deixa o governador sem alternativa: ou é irresponsável ou incoerente. Se correr o bicho pega; se ficar o bicho come.

Segundo a argumentação da colunista, não tem escapatória: ou Tarso dá o piso e é, portanto, irresponsável, já que o estado não tem dinheiro para isso; ou não dá o piso e é incoerente com seu discurso de campanha. O engraçado é que Rosane demonstra concordar com o governo, sabe que não tem como pagar o piso integral, mas não pode simplesmente dizer isso, porque aí estaria elogiando um governo que ela não apoia. Não pode, né. Mas por que ela não apoia um governo com o qual concorda?

E o Tarso é que é incoerente…

Mas não é tão difícil assim achar a explicação. Rosane não pode dizer que o governo tem que dar o piso, mesmo que pensasse isso, porque apoiou os governos anteriores, que não só não deram os R$ 1.451,00 como concederam reajustes pífios à categoria (e a todas as outras categorias do funcionalismo). Então, em vez de dizer que o governo atual está dando um reajuste histórico e valorizando a categoria como há muito tempo não se via, ela diz que ele está sendo incoerente.

É uma postura estranha essa, mas não incompreensível. É estranha porque não liga muito para o contexto, o que não condiz com o bom exercício da profissão. Mas não é incompreensível quando a gente pensa que os interesses do jornal não são mesmo fazer bom jornalismo e valorizar o cidadão gaúcho.

Ironicamente, ao contrário do que diz dos outros, é Zero Hora que é incoerente com o discurso. Mas é extremamente coerente com sua postura comprometida com o empresariado e com interesses neoliberais, que sempre adotou e mantém até hoje.

Quem é o incoerente?

Má vontade?

A Rosane de Oliveira disse no programa Atualidade, na Rádio Gaúcha, hoje de manhã, que a oposição de ontem, que agora é governo, faz as mesmas coisas que o governo de ontem. Quase nessas palavras. Não lembro da Yeda ter dado o maior reajuste da história do magistério. E também não vi o Tarso jogar a Brigada pra cima dos professores. Lembra do Cel Mendes, Rosane?

Criticar o governo, ok. Dizer que é igual ao anterior é mudar a realidade. É no mínimo má vontade.

Má vontade?

Quando a crítica vira só má vontade

O melhor remédio pra quando se está há muito tempo sem postar é dar uma olhada nos jornais brasileiros. Rapidinho as mãos começam a coçar e escrever torna-se inevitável…

No caso, nem precisei buscar a edição de Zero Hora, à qual só teria acesso daqui de Londres se pagasse por uma assinatura que chegaria no Brasil. Recebi por e-mail e comento aqui.

A mim soa estranho quando um jornalista reclama de excesso de participação popular nas decisões de um governo. Uma coisa é questionar se o programa que o governo estadual vai lançar em novembro – “Governador Pergunta”, complementar ao já existente “Governador Responde”, que incentiva a contribuição dos indivíduos com ideias que devem passar a ser consideradas na implementação de políticas, vai de fato ser efetivo. Outra é desmerecer essa opinião dos cidadãos, como fez Rosane de Oliveira na edição de ontem (9/10) da Zero Hora, logo depois de uma matéria quase que exclusiva sobre o programa. Pior ainda é quando isso é feito com o único objetivo de criticar por criticar.

A jornalista disse que o secretário de Saúde do governo do RS, Ciro Simoni, por ser médico, entendia melhor que ninguém qual era o problema da saúde pública. Ok, o objetivo aqui não é questionar a competência do secretário. Ela deixou implícita a opinião de que o único problema é falta de vontade política. Além de desmerecer a participação cidadã, ela simplifica a questão, que é extremamente complexa. Para ela, o problema é estritamente financeiro. Sem dinheiro, sem médicos, sem saúde. Como o governo aplica 7% do orçamento em saúde, quando deveria aplicar 12% (e ela não menciona que o orçamento foi aprovado no governo anterior), não há solução. Ela ignora que é possível, com pouco ou muito dinheiro, investir bem ou mal. Parece não estar interessada em dar às pessoas a possibilidade de falar sobre onde elas acham que é mais necessário aplicar o dinheiro que, afinal de contas, é delas. Esquece que o governo existe, de forma bastante simplista e utópica, para organizar as questões sociais e fazer as coisas acontecerem, e não centralizar as decisões e tomá-las sozinho em nome de todos.

Rosane opta por simplesmente não avaliar as possibilidades positivas de mais um canal de participação popular. Ela decide negá-lo antes de que ele sequer exista. Críticas, ok, são boas para que se possa melhorar, aperfeiçoar sempre, em qualquer área. E eu as tenho também neste caso. Mas as minhas dizem respeito aos limites que esse modelo ainda impõe. A participação deveria e poderia ser mais ampla, apesar de eu achar de uma extrema vanguarda a utilização de canais digitais para incluir a sociedade no processo político do governo. Engraçado é quando a crítica é por participação demais, não de menos.

A coluna da página 10 ainda tenta confundir o leitor fugindo do foco. É evidente que o “norte do governo Tarso Genro” foi dado antes da eleição do ano passado, com a elaboração do programa de governo e a definição de uma linha política. Mas também é verdade que é possível manter uma linha política e abrir espaço para que sua implementação seja constantemente discutida e melhorada. Até porque a linha política do governo inclui a participação. A participação é parte do programa, não contraditória a ele.

Criticar é uma coisa; mas mudar de opinião para criticar por qualquer motivo, sem concender o benefício da dúvida, não passa de má vontade. Perigoso para o jornalismo em uma democracia. Especialmente aquele que se diz isento.

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A íntegra da coluna assinada por Rosane de Oliveira:

Risco de frustração

Todas as formas de participação popular são bem-vindas numa democracia, mas não se pode vender a ilusão de que quem decide os rumos do governo é o cidadão que vota pela internet numa lista de prioridades ou participa de uma assembleia. O norte do governo Tarso Genro foi dado por sua equipe ainda na campanha eleitoral. O plano de governo é o fio condutor dos programas que ganharam a etiqueta de prioritários. O poder da participação popular ainda é reduzido, apesar de todos os instrumentos criados no Piratini para popularizar o rótulo de governo digital.

O projeto Governador Pergunta – A Primeira Assembleia Digital do Brasil, que será lançado em novembro, tem tudo para se transformar em sucesso de marketing, no Brasil e no Exterior. É questionável, no entanto, a utilidade de se mobilizar a população, pela internet ou pessoalmente, para que diga como se pode melhorar o atendimento e o acesso à saúde pública. Os gestores sabem muito bem o que falta aos usuários do Sistema Único de Saúde. Por ser médico, o secretário estadual da Saúde, Ciro Simoni, sabe melhor do que ninguém. Não precisa fazer pesquisa. Sabem, também, que para atender às demandas mínimas da população é preciso ter recursos.

Soa estranho o governo consultar a população para saber o que fazer para melhorar o acesso à saúde pública e se comprometer a “adotar as 50 propostas mais votadas”, se o Estado aplica menos de 7% da receita líquida em saúde, quando deveria aplicar 12%. Com dinheiro, Estados e municípios poderiam contratar mais médicos para programas de prevenção e mais especialistas para reduzir as filas, comprar equipamentos de última geração para oferecer diagnósticos mais precisos, aumentar a oferta de leitos, reduzir o tempo de espera nas emergências, oferecer melhor qualidade no atendimento à gestante e ao idoso, tornar realidade as maravilhas prometidas numa campanha eleitoral.

O excesso de canais para a sociedade se comunicar com o governo traz um risco ao futuro da consulta popular: o da frustração, se as demandas não forem atendidas por falta de dinheiro.

Quando a crítica vira só má vontade

A quem interessa barrar o plano de sustentabilidade do governo Tarso? #simRS

Vou até roubar uma tabela da Rosane de Oliveira que é bem simples e de fácil visualização para falar um pouquinho sobre as mudanças na Previdência que o governo Tarso propôs, e a Assembleia, depois de muita verborragia, aprovou ontem à noite.

Quem ganha até os R$ 3.689,66 que dividem os que não vão ter aumento em sua contribuição dos salários mais altos (cujas contribuições vão aumentando à medida que sobe o valor da remuneração, até chegar a 14%) não vai sentir qualquer mudança. Acima disso, os percentuais começam a ser aplicados e vão subindo. Quem ganha R$ 5 mil vai ter que pagar R$ 39,30 além do que já pagava. Na faixa dos R$ 7 mil, aumenta na prática R$ 99,30. São menos de R$ 100 em um universo de R$ 7 mil. Não faz uma diferença tão fenomenal, certo?

Quando a gente chega nos salários mais altos, a contribuição chega a R$ 723,51. Parece alto. Mas quando se vê o valor total do salário, R$ 24.117, torna-se extremamente justo que a contribuição seja maior para garantir o pagamento das aposentadorias, especialmente dos que ganham menos e dependem mais do Estado. Repara que acima de R$ 8 mil de salário, o índice de contribuição não mais se altera, fica fixo em 14%.

No projeto originalmente apresentado (antes da negociação inclusive com a própria base aliada em que o governo cedeu nos índices), os valores para quem ganha R$ 5 mil, R$ 7 mil e R$ 24.117 seriam, respectivamente, de R$ 52,25, R$ 132 e R$ 814,54. Ou seja, depois do acordo com o PTB, a contribuição dos que ganham menos continuou igual. A dos salários intermediários não mudou muito da proposta original para a votada, até subiu um pouco em algumas faixas, e os salários mais altos é que tiveram maior diminuição na comparação com o projeto original apresentado pelo governo do estado, que teria esses índices de contribuição:

Sinceramente, se ganhasse R$ 24.117 eu teria vergonha de reclamar de um aumento de R$ 814,54 na minha contribuição social. Sabendo-me privilegiada, já estaria plenamente satisfeita e não veria como um problema essa contribuição.

Resumindo, quem reclama são os mais ricos. São principalmente os integrantes do Judiciário, que têm os maiores salários e enormes benefícios. O grande problema é que são os donos das maiores fortunas que têm acesso aos meios de comunicação que influenciam a opinião da sociedade. Aquele velho cenário que já conhecemos muito bem da ausência de pluralidade na comunicação no Brasil.

São 18% dos funcionários do Estado que vão sentir o aumento da contribuição. Destes:

No Executivo, 33.735 servidores do total de 227.426
No Legislativo, 1.636 servidores do total de 2.082
No Judiciário, 9.183 servidores do total de 12.811
No Tribunal de Contas, 1.220 servidores do total de 1.345
No Ministério Público Estadual, 2.309 servidores do total de 2.879
Na Brigada Militar, 7.840 servidores do total de 42.902
Em outros órgãos, 1.705 servidores do total de 8.335

Uma carga tributária mais justa é um importante passo para diminuir a desigualdade. Democratizar a comunicação é outro, e esse essencial para que consigamos continuar caminhando e terminar de trilhar a estrada.

A quem interessa barrar o plano de sustentabilidade do governo Tarso? #simRS

FHC, o bom mocinho

Na hora de sair, neste sábado pré-Páscoa de manhã, tive a não muito boa ideia de levar embaixo do braço uma edição de Zero Hora, para ler na subida da Serra. Não pelas curvas, às quais já estou acostumada, acabei enjoada.

A página 10 tenta uma forçada comparação entre Lula e FHC, alegando que eles “têm mais em comum do que aparentam e admitem”. Foram separados, segundo Rosane de Oliveira, pela “disputa de poder”. Ainda que não sejamos ingênuos de ignorar as artimanhas do poder, ela exagera para o outro lado e ignora completamente a influência ideológica e programática no afastamento dos dois para campos opostos do cenário político brasileiro.

No segundo parágrafo, ela diz nas entrelinhas que Lula é hopócrita ao criticar Fernando Henrique por sua sensatez – ou melhor, “lucidez” e “coragem”, nas palavras da jornalista – em defender que o PSDB pare de disputar o “povão” e invista na classe média. Ou seja, o tucano não pode ser criticado por sua pragmática preferência elitista. E o povão, este está seduzido, pobre povão, pelos programas de Lula – “um eleitorado que está amalgamado ao PT pelo Bolsa-Família e por outros programas sociais que proporcionaram algum tipo de ascensão”. Claro, o tal povão vota com o estômago. Decerto deveria votar racionalmente no sociólogo que aumentou o desemprego do que emocionalmente no operário que transformou sua realidade, diminuindo a pobreza. Burro esse povão, que se deixa levar por uma distribuiçãozinha de renda.

Chama a atenção o parágrafo que diz: “Falando mais como sociólogo do que como ex-presidente, alertou que, para enfrentar o PT nas próximas eleições, a oposição terá de conquistar a classe média. Lula fez o mesmo. Orientou o PT a investir nessa faixa da população, especialmente em São Paulo, fazendo alianças ao centro, como ele fez quando escolheu o empresário José Alencar como vice”. Afinal, por que mesmo, ao agir exatamente da mesma forma, de acordo com a coluna, FHC age como sociólogo e Lula como político? Normalmente mais camuflado, dessa vez veio assombrosamente explícito demais esse dois pesos duas medidas do jornal. Dessa forma, a opinião de FHC ganha um caráter mais sério, porque baseado em ciência, enquanto Lula apenas joga o jogo feio e sórdido da política, esta tão desprestigiada em nossos meios de comunicação.

Sobre os números do Datafolha sobre a preferência do eleitorado por partidos políticos, Rosane diz que “a pesquisa indica que eleitor que ascendeu socialmente durante os oito anos do governo Lula é o mais fiel ao PT”. Realmente, difícil de entender por quê.

Toda essa ladainha, no fim das contas, pra nada, já que “o PT é o partido preferido dos eleitores em todas as classes” e, por ironia, dispara na nova classe média. FHC quer disputar o eleitorado que até pode ser conservador, mas foi o que mais se beneficiou pelas políticas de Lula. O resumo da ópera é que a oposição está completamente perdida e sem rumo.

FHC, o bom mocinho