Um consistente balanço econômico e político dos primeiros dias Dilma, por Rodrigo Vianna

Depois do meu breve e humilde balanço dos primeiros dias do governo Dilma, recomendo (enfaticamente) aos bravos leitores um balanço bem menos breve e um tanto quanto mais consistente. Fica por conta de Rodrigo Vianna, o Escrevinhador:

Essa história de oferecer “Cem Dias” de trégua para o governo que se inicia é um modismo que vem dos EUA, mas faz algum sentido. É um tempo mínimo para que as equipes se (re) organizem e para que as primeiras diretrizes sejam tomadas, indicando os rumos da nova administração.

O governo Dilma não chegou nem à metade dos “Cem Dias”. Ainda assim, é possível já identificar algumas tendências – não só do governo que começa, mas também do quadro político brasileiro.

Nesse primeiro texto, do que pretende ser um modesto “balanço” do início de governo, vou-me concentrar mais na economia.

Os primeiros sinais do governo Dilma indicam reversão da política “expansionista” adotada no segundo governo Lula para enfrentar a crise. O ministro Mantega, da Fazenda, teve papel fundamental em 2009 e 2010, ao adotar um programa que – em tudo – contrariava a velha fórmula utilizada pelos tucanos em crise anteriores: quando o mundo entrou em recessão, com os EUA lançados à beira do precipício, o Estado brasileiro baixou impostos, gastou mais e botou os bancos estatais para emprestar (forçando, assim, o setor privado a também emprestar).

O Brasil saiu bem da crise – maior, gerando emprego, e ainda distribuindo renda. Lula, quando falou em “marolinha” naquela época, foi tratado como um néscio. E Mantega, ao abrir as torneiras do Estado, como um estúpido economista que se atrevia a rasgar a bíblia (neo) liberal.  Lula pediu que o povo seguisse comprando. Os tucanos (e os colunistas e economistas a serviço do tucanato) diziam que era hora de “apertar os cintos”. Lula e Mantega não apertaram os cintos. Ao contrário: soltaram as amarras da economia, e evitaram o desastre.

As primeiras medidas adotadas por Dilma vão no sentido inverso: corte de despesas estatais, alta de juros, aumento moderado do salário mínimo. É fato que a inflação em alta impunha algum tipo de medida para frear a economia. Mas a fórmula adotada agora indica um “conservadorismo”, ou “tecnicismo”, a imperar nas primeiras decisões do governo Dilma. Não é à toa que a velha imprensa derrama-se em elogios à nova presidenta, tentando abrir entre Dilma e Lula uma “cunha”, como a dizer: Lula era o populismo “atrasado” e “irresponsável”, Dilma é a linha justa (discreta, moderada, a seguir a velha fórmula liberal de gestão).

Há alguns sinais – preocupantes, eu diria – de que Dilma estimula esse movimento de proximidade com os setores mais conservadores da velha imprensa. Mas voltarei a isso no texto seguinte, na segunda parte desse balanço…

Voltemos à economia: as centrais sindicais fazem grande barulho por conta do salário mínimo subir “apenas” para R$ 545. Acho positiva essa pressão. O movimento sindical pode – e deve – criar um espaço para mais autonomia em relação ao governo. E deve perguntar, sim: por que, na crise, o governo quebrou regras para favorecer as empresas (corte de impostos), e não pode quebrar a regra do reajuste do mínimo para dar um aumento maior? É preciso mesmo tensionar o governo, pela esquerda. Ok. Mas, modestamente, acho que a medida mais danosa adotada pela administração Dilma, nesse início, não é o freio no salário mínimo – até porque, pelas regras acertadas durante o governo Lula (o salário sobe sempre com base na inflação do ano anterior mais o PIB de dois anos antes), o mínimo deve ter em 2012 um crescimento robusto, passando dos R$ 610. O que preocupa mais é outra coisa: a alta dos juros.

Continue lendo a primeira parte aqui. E aventure-se também na segunda, que trata mais de política do que de economia, aqui.

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Um consistente balanço econômico e político dos primeiros dias Dilma, por Rodrigo Vianna

Os irresponsáveis sofismas de PSOL e PSDB

Não é difícil ouvir por aí, ou concluir por si próprio, que ser oposição é muito mais fácil que ser governo. Claro, não tem que fazer, o que já é bem menos trabalho, mas, principalmente, pode cobrar bastante sem a responsabilidade de colocar em prática. Sem ser cobrado.

E essa conclusão não desqualifica ninguém por ser oposição. Se está errado, tem que falar mesmo, tem que dizer por quê, e exigir que seja feito diferente. O que tem gente que não percebe é que oposição também tem responsabilidade. Oposição por oposição, qualquer um faz. Afinal, um governo não agrada a gregos e troianos, e sempre haverá descontentes. Mas exigir o que é impossível de ser feito é fazer política com má fé.

A discussão sobre o salário mínimo mostra a má fé de bastante gente. Dois sujeitos dessa história são mais notórios. Em primeiro e óbvio lugar, o PSDB, que arrochou os trabalhadores nos oito anos em que foi governo e, por conta de sua política econômica neoliberal, retirou o Estado da vida do cidadão. O que inclui diminuir a exigência, por parte do Estado, de um pagamento mínimo aos trabalhadores. O neoliberalismo deixa os mercados se virarem, e os mercados se viram melhor se o empregado ganha menos. Agora, na oposição, esquece sua história – é mais fácil pedir para esquecer o que escreveu, já que não traz resultados concretos à vida de ninguém – e cobra um valor que ele, PSDB, enquanto governo, dificilmente adotaria. E o fato de Serra ter prometido durante a campanha não quer dizer muito, porque era promessa de campanha (dã), porque ele não disse de onde ia tirar o dinheiro (provavelmente de outros benefícios sociais) e porque já teria herdado uma economia mais consolidada do que a que seu partido deixou no que diz respeito aos direitos dos trabalhadores.

Pode até ser contraditório o Partido dos Trabalhadores defender um aumento modesto, mas é contradição muito maior – para não dizer hipocrisia – o PSDB se fazer de arauto das causas trabalhistas.

Mas eu citava dois sujeitos, e por enquanto só falei em um. O outro é o PSOL.

A oposição “de esquerda”

O PSOL não chega a ser contraditório nem hipócrita, só ridículo. É evidente que quanto maior o salário mínimo, melhor seria. Acredito que ninguém negue isso. Mas propor aumento para R$ 700 é irresponsável. É a tal da oposição pela oposição.

Cobrar uma política impossível é desonesto com o governo e com o cidadão. Não se pode exigir dos outros aquilo que não tem como ser feito. Na verdade, é uma mentira. É como dizer que dá, é enganar. O PSOL também não diz de onde viria o recurso para isso. Não explica como domaria o rombo no orçamento da União. Não fala nas consequências que um aumento desses traria para o povo brasileiro.Mostra que não tem uma diretriz que lhe permitisse governar e implementar as mudanças que, enquanto oposição, exige que os outros façam. Governaria sem planejamento e sem diálogo.

Além de tudo, não é nada inteligente. Com essa defesa, o PSOL demonstra claramente sua falta de critérios e se mostra um partido fraco e ridículo. Não que seus membros sejam ridículos, não é isso. Em mais de uma ocasião defendi aqui a importância de uma oposição de esquerda. Só que ela só dá resultado se for coerente e sensata. No fim, a linha política que conduzem, quando aplicada ao partido político, causa essa impressão.

E aí fica desacreditado e não contribui para uma construção coletiva que beneficie o cidadão. E uma esquerda sofista que valoriza mais o discurso do que resultado prático mal pode ser chamada de esquerda. É uma pena.

Os irresponsáveis sofismas de PSOL e PSDB