Acorda, Brasil!

Recebi esse texto do leitor Diego Uzzun*, por conta de um post que publiquei a necessidade de planejamento urbano logo após as enchentes do Rio.

Estamos iniciando uma nova década e usualmente traçamos novas metas e aspirarmos por renovação. Afastando desde já qualquer sintoma de mero ceticismo, o que se vê na mídia é “mais do mesmo”. Chuvas acima dos volumes esperados e famílias inteiras varridas do mapa. E a história se repete ano após ano.

Por trás dos popularmente chamados “desastres naturais” (uma expressão infeliz, registre-se), há causas que precisam ser compreendidas, enfrentadas e solucionadas. Faltam políticas públicas coerentes e concretas, respeito e convivência harmoniosa do Homem com o meio ambiente, planejamento e regras sérias para a ocupação do solo, investimentos maciços em infraestrutura e oferta de mais oportunidades e condições dignas de vida aos pagadores de tributos. Todos os heróis brasileiros que a televisão nos apresenta geralmente nessa época do ano, em sua maioria anônimos e que incansavelmente lutam para salvar as vítimas das enchentes, pouco podem fazer se toda a população não tirar do papel a teoria do “começa com cada um de nós”.

No meu mundo, vejo lixo espalhado pelas ruas, assisto com irritação a pessoas atirando todo tipo de objeto no chão (o baixo número de lixeiras instaladas pelo Poder Público é algo inaceitável), pasmo com o egoísmo no trânsito, conheço lugares que ao invés de protegidos são invadidos por barracos ou mesmo mansões suspensas, e chego à conclusão de que, sem um pensamento coletivo, o individualismo acabará retirando de nossos filhos o que resta das condições de vida das quais hoje usufruímos.

Como um país como o Brasil traça planos tão grandes para sediar uma Copa do Mundo e uma edição dos Jogos Olímpicos se pensa tão pequeno e trata com descaso os episódios que ganham força conforme o avançar dos anos? A ocupação irregular do nosso solo, a sua impermeabilização excessiva e o desvio dos cursos dos rios são fatos incontestáveis, infelizes e geralmente não lembrados pela maior parte da população quando se está fazendo a contabilização das mortes e dos prejuízos causados pelas tragédias. Na mesma linha, a ausência de organização na coleta e destinação do lixo parece ser tolerada pela maior parcela da população e de certa forma passa despercebida diante de tantos outros problemas crônicos das cidades brasileiras.

Dando continuidade a esse raciocínio, a cegueira e a falta de um pensamento altruísta por parte dos nossos governantes para todas essas situações são fatos que não merecem e nem podem ser acobertados. Caso assim se permita, estará se coroando e tornando ainda mais nítida a ignorância do ser humano, que se vangloria por ser o “mais desenvolvido dos seres vivos”, mas é incapaz de proteger a preservação de sua própria raça. Qual a vida que queremos deixar para as próximas gerações?

Neste exato momento, acabo de ser surpreendido por uma estranha erupção de água vinda dos ralos da pia da cozinha. Olho pela janela e vejo o céu preto de São Paulo anunciando que vem chegando mais chuva e, com ela, provavelmente, mais lágrimas. Acorda, Brasil!

* Diego Uzzun, advogado, cursando Pós-Graduacao em Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentavel, 28 anos, Leme/SP

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Acorda, Brasil!

Por que o PSDB perdeu?

Só uma provinha do artigo de Eneas de Souza no jornal Sul 21.

Achando resultados

O PSDB não quer na sua presunção intelectual reconhecer a sua fragorosa derrota eleitoral. E estão tentando achar resultados para dizer que não foram batidos. Daqui mais uns dias, pode ser que eles tentem nos convencer pela mídia, pelo sujeito comunicacional, pela indústria ideológica, de que ganharam ou que foram os vencedores morais da eleição. E poderiam continuar, dizendo que a votação foi equivocada e que o povo não sabe votar. Mas que São Paulo deu a vitória a Serra; que Porto Alegre deu a vitória a Serra; que Curitiba deu a vitória a Serra; que Florianópolis deu a vitória a Serra. E veja-se inclusive a fragilidade do argumento: o PSDB tenta fazer pensar que ter a vitória numa cidade ou numa região é não ter nenhum voto contra. E, por outro lado, dizem no seu silêncio que o Nordeste não interessa; que Brasília não interessa; que o Rio não interessa. É dar mais peso a uns votos que a outros. É o mesmo preconceito dos que um dia votaram contra Lula porque ele era metalúrgico e não falava inglês. Certos eleitores são mais qualificados que outros. No fundo, no fundo, os conservadores se acham os donos do Brasil e não querem que haja uma nova realidade no país. Não querem desenvolvimento com distribuição de renda, porque a distribuição de renda diminui a diferença entre as classes. Não querem a tendência a uma maior igualdade. Parte do PSDB não quer aceitar essa transformação profunda na economia. Resolveram bater chapa – e foram derrotados três vezes! Três vezes: duas com Lula e uma com Dilma. Sempre tratando de dizer, mesmo que no sussurro, mesmo que disfarçadamente, que a financeirização do Brasil foi um sucesso. E esta é a diferença fundamental da política econômica do PSDB e do PT, baseadas ambas na estabilidade da economia. Um, desenvolve a atividade econômica apenas para as finanças e o outro, não só para os capitais; mas também para uma boa parte da população.

Quer ler o resto, clica aqui (recomendo a leitura até o fim).

Por que o PSDB perdeu?

Conforme o partido envolvido em denúncias, muda o tratamento dos jornais

Vem em momento oportuno a matéria da Folha sobre as fraudes na licitação do metrô. Porque é importante saber essas coisas antes de depositar o voto nas urnas. Ela é sóbria, sem juízos de valor. Como seria bom se as denúncias envolvendo o PT e Dilma fossem assim sérias.

O texto escancara uma fraude incontestável, que privilegiou empresas na licitação de obras do metrô. Na época, José Serra era o governador. Foi durante sua gestão que os nomes chegaram à Folha, evidenciando um direcionamento na licitação para as empresas escolhidas. O jornal citou o nome de Serra uma única vez. Imagino se em seu lugar, um ex-governador concorrendo à Presidência da República, estivesse um petista. Estaria no título, sem dúvida, e palavras fortes de crítica e denúncia espalhar-se-iam ao longo do texto.

Faltou a Folha dizer como conseguiu a informação, mas o jornal foi esperto ao registrar em cartório, em abril, o resultado da licitação, que saiu em outubro (na quarta-feira passada). Acertou todas as empresas das linhas 2 à 8 do metrô.

De resto, fica a questão: por que fiquei sabendo dessa matéria quase que por acaso? Tenho a impressão de que se trata de um caso grave de beneficiamento que envolve José Serra, um candidato à Presidência, diretamente. Deveria estar sendo gritado aos quatro ventos.

Por que Globo e cia. ainda não repercutiram? Por que a Folha deu mais destaque na capa ao depoimento de Erenice do que às tramoias de Serra? O beneficiamento no metrô é novidade (jornalisticamente a novidade do fato é um dos critérios para definir a sua relevância e o seu espaço), é um furo (os jornais sempre querem dar as notícias em primeira mão e vangloriam-se quando conseguem) e é mais importante, por se tratar do candidato à Presidência e não de um subordinado, por se tratar de uma denúncia nova e não do andamento de uma denúncia antiga (quase que requentada). Mas o que esperar do jornal que fez isso e que agora sequer enfatiza que o candidato está envolvido?

Conforme o partido envolvido em denúncias, muda o tratamento dos jornais

Desperdício de água e dinheiro público em São Paulo

Naquele domingo, último dia do #blogprog, valia uma confraternização entre os blogueiros progressistas. Um boteco sujo para donos de blogs sujos foi o cenário, ali perto mesmo do Sindicato dos Engenheiros, em São Paulo. Tudo muito lindo e com cheiro de peixe, já que a rua do lado tinha tido feira no dia. Mas tranquilo, a gente aguenta, o importante é a companhia.

Aguenta enquanto não tiver que tomar banho de água fedendo a peixe, claro. Quando os respingos começaram a se aproximar, foi fácil enxergar o caminhão da prefeitura andando devagar na nossa direção. Na frente, um funcionário (que seria só um pobre coitado que deve ganhar mal pacas pra fazer esse trabalho ingrato se não tivesse ficado rindo da nossa cara) segurava uma mangueira grande de onde jorrava um jato muito forte de água. Era assim que eles limpavam a rua.

Independente do incômodo de boa parte da mesa ter que se levantar pra não levar um banho fedido, fica a observação da técnica de limpeza adotada. Como querer que o cidadão economize água nas suas casas se ele vai pra rua e vê a prefeitura desperdiçando? Não é só dinheiro (público, é bom que se diga) que vai fora. É uma afronta ao meio ambiente, a todas as campanhas para se economizar água e tudo o mais.

Então o cara tem que tomar banho de 5 minutos e a prefeitura troca as vassouras e baldes por uma mangueira potente que usa muito mais água do que o necessário. E mais, o funcionário mirava os bueiros para direcionar o lixo. Depois a cidade alaga e ninguém sabe por quê. Muito bonito.

PS: Olha a Maria Frô fotografando lá no fundo.

Desperdício de água e dinheiro público em São Paulo

Interesses políticos na cobertura jornalística local

Na linha Congresso da Abraji:

Cláudio Weber Abramo Evandro Spinelli (@evandrospinelli) – “Cobertura da política local”

“Quando o dono do veículo está no poder, está tudo ótimo. Quando é oposição, o jornal se esmera em jornalismo investigativo.” Foi esse o tom da fala de Cláudio Weber Abramo, que criticou enfaticamente o jornalismo praticado no Brasil. Evandro Spinelli foi um figurante contestador, mas um figurante nessa palestra. Pelo menos em termos de conteúdo, não acrescentou muita informação.

Nos veículos pequenos, de cidades do interior, Abramo disse que os colunistas vendem seu espaço para quem pagar mais (“método Assis Chateaubriand”). Nos grandes, o que orienta a linha editorial é o interesse político mesmo.

Abramo trabalha com estatísticas para fazer suas avaliações. Não se permitiu opinar sobre qualquer assunto sem ter dados em que pudesse se basear. Uma das conclusões a que chegou foi que a cobertura de corrupção no Brasil é feita quase que estritamente pelos veículos do Sul e do Sudeste. Estados que, junto com a Bahia, geram 80% do PIB brasileiro e baseiam as discussões mais gerais de política nacional – 92% das matérias que são atribuídas a agências de notícias referem-se a Agência Estado e FolhaPress.

É também onde a informação penetra mais na população. Os jornais em SP, por exemplo, têm penetração 151 vezes maior que em Sergipe. Trocando em miúdos e sem falso preconceito, significa que os ricos leem muito mais que os pobres. “A pobreza relativa é dterminante na qualidade de informação que chega ao público”, disse. E essas regiões leem mais sobre outros estados. Os jornais do Sul e do Sudeste publicam, muitas vezes, mais notícias do que nos locais de origem da informação.

Nos lugares mais pobres e de imprensa mais débil, se sabe mais sobre Rio de Janeiro e São Paulo do que sobre política local. Nesses lugares, a imprensa é um meio de satisfação da oligarquia local. Já em SP e RJ, se sabe mais sobre Brasília do que sobre sua cidade.

“Interessa mais aos jornais paulistas cobrir Brasília, que o governo é do PT, do que cobrir o estado, que o governo é um aliado ideológico.”

De um modo geral, no Brasil os estados são mais cobertos do que os municípios, mas São Paulo é exceção. Os grandes jornais brasileiros, que são paulistas, dedicam suas páginas a cobertura de Brasília e têm cadernos especialmente para cobertura dos problemas municipais. A política estadual acaba ficando em segundo plano.

Interesses políticos na cobertura jornalística local

São Paulo, megacidade em movimento

O que é São Paulo? Na introdução do livro de crônicas sobra a cidade mais maluca do país, organizado em 2004 em homenagem aos seus 450 anos (São Paulo, 450. Organizado por Oscar Pilagallo. Publifolha), Marcelo Coelho não consegue descrevê-la. Não por incompetência, o prefácio é ótimo e dá bem a noção do que é essa megacidade. Acontece que essa cidade é grande e múltipla demais para algumas linhas dizerem o que ela é. Isso que, além de sociólogo, cronista, blogueiro, escritor etc. e tal, ele é paulistano.

Mas sabe que a sua cidade não é a mesma que em 1800 realizava touradas na Praça da República. Ou a que viu emergir uma revolução em 1932. Uma cidade que se transforma a cada dia. Como, na verdade, acontece com todas, mas de forma mais forte e marcante com uma capital tão heterogênea, que abriga tantos e tão diversos tipos.

São Paulo é o retrato perfeito do que o Boaventura de Sousa Santos chama de espaço-tempo. Uma cidade cujas ruas históricas fazem sentido para determinadas pessoas em épocas específicas, mas que na geração seguinte não têm mais significado. As ruas que têm história passam a ser outras.

São Paulo é um exemplo de vida. Das mudanças constantes, da evolução, da beleza da novidade cotidiana. Um espaço-tempo, retomando Boaventura, de sofrimento e de esperança. De morte e de resistência. Um constante e múltiplo movimento.

São Paulo, megacidade em movimento