Lembretes para o segundo turno de 2010

Por Flávio Aguiar

Aos meus amigos verdes, gostaria de lembrar que Fernando Gabeira já declarou apoio a Serra, o que mostra como de fato ele considera Marina da Silva e as instâncias do próprio partido.

Assim como a causa ambiental, uma vez que entre Serra/DEM/Índio da Costa e causas ambientais há uma distância de anos-luz.

É bom lembrar também que Serra ganhou nos estados do chamado “espinhaço do agro-business”, que vai de Santa Catarina a Rondônia. Isso permite uma bela previsão do que vai ser o seu governo, muito mais do que frases sem cabeça nem pé.

A propósito de anos-luz: o que ajudou a empurrar Serra para o segundo turno, dando mais votos a Marina, foi a campanha obscurantista, retrógrada, caluniosa e que usa o nome de todas as religiões em vão, acusando, por exemplo, Dilma Rousseff de ser a favor do aborto.

Aos preocupados com a liberdade de imprensa, lembro que na mídia que apóia a candidatura de Serra, velada ou abertamente, desde 2006 tornaram-se comuns as “operações limpeza” (inclusive a pedido), eliminando jornalistas (inclusive de renome) dissidentes (como durante a ditadura) ou que não tocavam de acordo com a música.

Já a quem se preocupe com política externa, lembro que, se Serra levar a sério suas declarações durante a campanha, erguerá uma cortina de ferro nas fronteiras do nosso país, acabando com a integração continental. Sem falar que retornaremos aos tempos do beija-mão e da barretada à potência de plantão. O Brasil vai perder todo o prestígio que acumulou nos últimos anos. Vai murchar em matéria de contatos com a África, Ásia e América Latina, sem que isso signifique uma melhor posição diante da Europa ou da América do Norte.

Se a preocupação for com a idéia de que “é bom alternar quem está no poder”, sugiro que comecemos por pensar no caso de S. Paulo, o segundo orçamento da nação, que completará vinte anos sob a batuta da coligação PSDB/DEM, com resultados precários na educação, saúde e segurança.

Para quem ache que “é tudo a mesma coisa”, lembro que a arte da política (de acordo, entre outros, com Gramsci) é a de discernir as diferenças para além das aparentes semelhanças, e que essas diferenças aparecem mais pelo acúmulo de atos do que pelo de palavras e promessas.

Lembro ainda que, devido aos resultados do primeiro turno, uma vitória de Serra vai transformar o governo federal em cabide para uma penca de políticos subitamente desempregados da sua coligação, que já deviam estar defenestrados (pelo voto, como foram) da nossa vida pública há muito tempo.

É bom não esquecer que Serra não apresentou qualquer programa. Mas seu último ato significativo no governo de S. Paulo foi a privatização da Nossa Caixa, brecada porque adquirida pelo Banco do Brasil. Isso é um bom prognóstico para o que vai acontecer com o Banco do Brasil. Caixa Econômica Federal, Petrobrás, etc.

Ao invés de programas, Serra distribuiu gestos e palavras a esmo. Dizer que quem fuma é contra Deus, puxar Ave Maria em missa, falar em austeridade fiscal e ao mesmo tempo prometer aumentos vertiginosos do salário mínimo, dizer que tem preocupação ambiental e ao mesmo tempo prometer no Pará que vai mexer na legislação que protege a Amazônia não é um programa nem um bom começo para quem quer alardear honestidade política e coerência.

E por aí se vai.

Dilma, por sua vez, defende um programa (que pôs em prática) ao mesmo tempo social e austero, demonstrou ser uma candidata de idéias próprias e não um factóide de si mesmo que fica esgrimindo promessas a torto (sobretudo) e a direito. Foi atacada, caluniada, difamada e manteve a linha o tempo inteiro (ao contrário de Serra, que seguido perdeu a linha quando confrontado com perguntas incômodas), não recorreu a esses golpes baixos tão típicos das campanhas da direita. Não é o caso de se concordar com ela em tudo. Mas Dilma é diálogo.

Leia, medite e passe adiante, se achar que é o caso. Obrigado pelo seu tempo.

Lembretes para o segundo turno de 2010

Que seja, então, no segundo turno

O segundo turno dá a oportunidade de termos um mês a mais de debate político democrático e discussão de ideias. Seria democrático, considerando que temos oficialmente um tempo reduzido de campanha eleitoral oficial e uma legislação cheia de restrições que muitas vezes impedem esse diálogo.

Seria, então, útil para o eleitor aprofundar as propostas dos dois candidatos mais votados, para que sejam melhor conhecidas, dissecadas uma a uma. Seria bom travarmos um debate sério e qualificado. Seria. Tudo isso teria lugar em uma democracia ideal. Infelizmente, não é o nosso caso, por um fator bem específico.

Temos visto nos últimos três meses que tem lugar privilegiado na cobertura da imprensa a curiosidade e o denuncismo, com muito pouco lugar para a discussão de ideias. Agora, com a polarização advinda da escolha entre dois nomes – dois projetos políticos – em um segundo turno, a coisa tende a piorar. Pela pouca repercussão que vi ontem à noite e pelo que observei nos últimos tempos, espero agora pelo pior em termos jornalísticos.

Se eu queria que a Dilma ganhasse no primeiro turno, era sobretudo para não ter que enfrentar a baixaria que vem nos próximos dias. Outubro vai ser um mês pesado, bastante desgastante, ao que tudo indica. Se o eleitor comum já se cansa, quem trabalha de forma mais direta com política fica ainda mais vulnerável.

Por um lado, é até bom que Dilma não tenha sido eleita. Evita o salto alto que às vezes prejudica um time que tem tudo para sair vencedor e fazer o melhor. Mas por outro traz um prejuízo considerável. A vitória no primeiro turno daria à nova presidente e ao PT uma força política muito grande, ainda mais com o aumento da base aliada na Câmara dos Deputados e no Senado. Uma força que seria útil para conquistar reformas importantes para melhorar a vida dos brasileiros e para aprimorar o nosso sistema político. Seria também uma boa barganha na hora de negociar cargos no novo governo, e talvez Dilma tivesse que ceder menos.

De qualquer forma, estamos a quatro semanas de confirmar Dilma presidente. De um jeito ou de outro, é um projeto político vitorioso porque atinge diretamente o dia a dia do povo brasileiro, melhora a vida de cada cidadão. Faz o Brasil se desenvolver, crescer economicamente, mas com reflexo direto na sua população. Então, rumo à vitória no segundo turno. Que seja.

Que seja, então, no segundo turno

Imprensa e o segundo turno

Cinco comentários pós-apuração (o resto fica pra amanhã).

– O primeiro é uma pergunta: por que o Serra e os jornalistas da GloboNews estão comemorando como se o tucano tivesse ganhado as eleições – a ponto de um jornalista falar na “derrota” de Dilma?

– O segundo vai na mesma linha, na relação entre o pessoal da emissora e o segundo colocado nas eleições presidenciais. A galerinha da imprensa trata o herdeiro de FHC nitidamente como um chefe. Em uma redação, a conversa era mais ou menos um pedido de desculpas, “a gente falou que o Serra não agradeceu a Marina e não fez não sei o que mais, mas ele fez”, e Mônica Waldvogel completou: “ainda bem, né”. Sabendo que a única chance de o tucano se eleger é fazer acontecer uma combinação de elementos que envolvem herdar todos os votos da Marina, criar mais uns factoides e rezar (em todas as religiões, a católica do Serra, a evangélica da Marina…), sua puxação de saco à candidata verde é importante para que o PSDB faça uma votação expressiva. Torcendo para isso, a GloboNews comemora. Aliás, nunca vi – especialmente nos últimos meses – a Cristiana Lobo tão risonha quanto agora. Repito, parece que fizeram 80% dos votos.

– Como é possível que 440.128 pessoas votem no casal Roriz?

– Como pode o Plinio fazer pouco mais da metade dos votos obtidos pelo palhaço Tiririca?

– O segundo turno em si não me assusta. Acho uma experiência democrática válida, que propicia o debate e tenho convicção da vitória de Dilma. O problema vai ser o desgaste por que cada um de nós vai ter que passar ao enfrentar por mais quatro semanas a baixaria que vai tomar conta do país. São quatro capas da Veja e 28 da Folha, além de 24 edições do Jornal Nacional.

Imprensa e o segundo turno