O que faz com que o governo Lula não seja neoliberal

A grande crítica ao governo Lula, e que levou parte da militância petista a abandonar o partido ainda no primeiro governo, é sua política econômica, tida como muito ortodoxa, sem mudanças significativas em relação ao governo anterior. Pois bem, é possível partir de um conceito para avaliar a sua aplicação.

Parto do neoliberalismo e por que ele não se aplica da mesma forma nos dois governos. A premissa é simples: inverteu-se a lógica. O neoliberalismo é baseado essencialmente na não-intervenção do Estado, não só na economia, mas em toda a sociedade. Não é só deixar os mercados regularem-se por si, é deixar de prestar serviços à população, transferindo-os à iniciativa privada. Deixar a sociedade se virar sozinha, resumindo. Parir a criança e não criá-la.

Assim, um governo neoliberal, que tem nos anos de Fernando Henrique Cardoso um exemplo, desenvolve menos políticas em prol da população. Privatizam-se as empresas públicas, que passam a agir pela ótica do mercado, ou seja, cobram do cidadão pelo serviço com vistas a obter lucro. Não é o fato de ser público ou privado que faz uma empresa prestar um bom serviço, é a boa gestão.

E vamos além, expandindo da questão das empresas públicas ou privadas e falando do papel do Estado no dia-a-dia do cidadão. Um Estado mínimo, característica do neoliberalismo, não teria adotado políticas sociais que melhoram a qualidade de vida do cidadão. O Estado mínimo deixa o sujeito se virar, não lhe dá ajuda. O Bolsa Família, com a amplitude que atingiu – hoje haveria 21,5 milhões de brasileiros a mais em situação de pobreza se não fossem os programas de transferência de renda -, não teria existido em um governo neoliberal, pois ali o Estado se afasta do cidadão.

Continua…

Anúncios
O que faz com que o governo Lula não seja neoliberal

A mídia e o pensamento classe média – assunto: impostos

A forma como a imprensa trata a questão dos impostos, não é de hoje, é irresponsável. Não há palavra que se ajuste melhor que irresponsabilidade. Tudo bem, não se pode tirar do brasileiro dinheiro excessivo, que ele não tenha condições para pagar, que vá prejudicar sua vida, o sustento da família.

Para cobrar os devidos impostos, é preciso dar salários dignos, empregos para todos, formação. É preciso também fornecer serviços públicos de qualidade, como saúde, educação, lazer, infraestrutura de transporte e energia, grauitamente, para diminuir os gastos mensais do cidadão.

Mas como esperar que o governo banque todas essas coisas sem cobrar impostos? É importante notar que a cobrança de impostos e o fornecimento de serviços públicos de qualidade são coisas complementares, uma não faz sentido, não existe sem a outra. Só há bons serviços se há impostos para bancá-los, e só pode haver cobrança de impostos se os serviços forem de qualidade.

Não defendo supertaxação, mas é preciso que a discussão seja feita abrangendo todas as suas nuances, com profundidade e de forma completa, explicando de onde vêm e para onde vão os recursos. É preciso discutir, por exemplo, por que pedagiar rodovias quando o brasileiro já paga pela sua manutenção.

Vale questionar de que forma a cobrança é feita, se não se está cobrando demais de quem pode menos e tirando pouco de quem ganha muito. Mas quando se fala em taxar grandes fortunas a imprensa chia. Então, que tipo de questionamento é feito?

Os verdadeiros interesses

Decerto o que a nossa mídia deseja é a política neoliberal que se tentou implementar no Brasil e já se viu que não dá certo. Querem eliminar da responsabilidade do Estado a execução de serviços públicos, passando a cobrar diretamente da população por eles.

A discussão vem torta. Numa página, criticam-se os impostos de um modo geral, quaisquer que sejam, generalizando-os. Vira-se a página e vê-se a notícia sobre a BR-386 e a BR-116. Refiro-me à Zero Hora de hoje, que mancheteou a carga tributária brasileira e depois quer-nos fazer engolir como mágica a duplicação das rodovias, como se acontecessem por obra divina.

É louvável quando a imprensa se coloca no papel de discutir a eficácia da execução da política, dos governos. E questionar a forma como a cobrança de impostos é feita é parte do processo. Mas questionar a existência de impostos pura e simplesmente é como dizer que todo político é corrupto e é preciso eliminá-los todos. Discurso de e para a classe média, que despolitiza a discussão e passa bem longe de resolver o problema.

A mídia e o pensamento classe média – assunto: impostos