Diretor da Secretaria do Meio Ambiente do RS defende monocultura de eucaliptos

Foi ainda em janeiro a nomeação do atual diretor do Departamento de Florestas e Áreas Protegidas (Defap) – atentem para o significado do nome do departamento! – da Secretaria de Meio Ambiente (Sema) do Rio Grande do Sul, por indicação da secretária, Jussara Cony. Integrante do PSB, Roberto Magno Ferron é engenheiro florestal e já havia publicado alguns artigos por aí.

Chamam a atenção dois em especial, de 2007, na revista do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do RS (Crea). Para quem não se lembra, a essa época o estado vivia um debate vigoroso na área do meio ambiente. A governadora Yeda Crusius – do PSDB, atual oposição, é sempre bom lembrar – contrariava os técnicos concursados do estado ao ignorar o Zoneamento Ecológico-Econômico da Silvicultura e liberar o plantio de eucalipto. Os funcionários, especialistas na área, haviam delimitado zonas em que o plantio era mais aceitável e outras em que traria enormes prejuízos ambientais, com diferentes gradações e alternativas produtivas.

Mas aquele governo, não canso de insistir, não estava exatamente preocupado com o meio ambiente. A sorte do nosso Pampa foi que uma crise econômica monstruosa pegou as papeleiras e frustrou suas expectativas de investimento por essas bandas. Se não fosse isso, até área de fronteira estaria tomada.

Mas voltando ao causo em questão, eu falava dos artigos de Roberto Ferron, integrante do atual governo – do PT -, escolhido pela atual secretária – do PCdoB – e filiado ao partido do vice-governador – o PSB. Pois ele, naquela época, escrevia que,

Por todos estes atributos amplamente positivos que beneficiam o ser humano, há de se defender e respeitar este excepcional e exemplar cidadão vegetal, chamado Eucalipto.

Na parte II, continua no mesmo ritmo:

Fica evidente e claríssima a tentativa de empurrar “goela abaixo” as restrições ao plantio de florestas, sem a opinião dos verdadeiros atingidos – a população da Metade Sul do RS.

Sem contar o absurdo:

Vale lembrar que o bioma pampa só é campo, porque o “boi” está sobre ele desde o tempo dos jesuítas, há mais de 300 anos, e impede a sucessão natural das espécies vegetais.

E a inversão dos fatos (não dá pra negar o senso de humor):

O Estado não pode ser refém de meia dúzia de tecnoburocratas que se acham acima da lei, ditando normas e regras ao seu bel-prazer, em detrimento da sociedade, sem contemplar as opiniões divergentes da comunidade técnico-científica, das entidades afins, dos representantes da população. Isso não faz parte do Estado democrático.

Pois eis que o Departamento de Florestas (!) e Áreas Protegidas (!!) adota o discurso dos empresários, não dos ambientalistas. E não quero dizer que o governo do PT tenha que adotar totalmente o discurso verde, mas a Secretaria do Meio Ambiente é a responsável por fazer o contraponto aos interesses econômicos que não enxergam a nossa natureza e a importância de conservá-la, diante da tentação do lucro – vale ainda lembrar que a silvicultura não distribui renda, antes a concentra ainda mais, ao contrário do que argumentou Ferron. Se o Defap, que deveria ser ferrenho defensor da preservação ambiental – ou seja, mata nativa -, não o faz, o que sobra pro resto?

Importante ressaltar que grande parte dos integrantes do governo ao qual Ferron pertence, à época na oposição, posicionou-se contrária à liberação da silvicultura. Agora no governo, nomeia uma figura identificada com a postura tucana. Vai entender.

Diretor da Secretaria do Meio Ambiente do RS defende monocultura de eucaliptos

Mais da metade do Bioma Pampa já não existe mais

O Bioma Pampa é muitas vezes desprezado porque não tem como característica árvores frondosas, matas fechadas, tudo aquilo que se costuma associar a biodiversidade. Mas é um ecossistema tão completo e importante quanto uma floresta, uma mata. Tem diversas espécies tanto animais quanto vegetais, e a preservação deles em seu ambiente natural, mantendo as características nativas, é fundamental para o equilíbrio, não só do próprio bioma, mas do equilíbrio entre os diversos ecossistemas.

É por isso que os ambientalistas insistem tanto na preservação da metade Sul do estado, onde domina o Pampa. Pela paisagem fácil de se domar e por ser uma região relativamente pouco explorada, chama a atenção de investidores. Não faz muito tempo as principais empresas de celulose do mundo, Aracruz, Stora Enso e VCP, compraram grandes extensões de terra e pretendiam se instalar por essas bandas.

Não deu certo porque a crise pegou-as desprevenidas – bem feito! -, porque, se dependesse do governo Yeda, o estado havia sido entregue, sem se tocar no assunto preservação ambiental. E isso que técnicos do estado haviam feito um zoneamento prevendo áreas em que havia maior necessidade de se conservar e outras em que as restrições eram menores. Ele não vetava a plantação de eucaliptos, apenas restringia.

Um levantamento feito pelo Centro de Monitoramento Ambiental do Ibama comprova agora que esse pessoal tinha mesmo motivos para se preocupar e que o governo tucano no Rio Grande do Sul foi irresponsável ao vetar o zoneamento e liberar para avaliação caso a caso (o que significava, dados os nomes de quem mandava, que seria liberada qualquer plantação, em qualquer região, sem restrições). O estudo mostra que mais da metade do Bioma Pampa já não existe mais. Alegrete lidera a lista de municípios responsáveis por esse desmatamento que já chega a 54%, ou 95 mil km².

Chegamos em um ponto em que é preciso comemorar uma crise. Só assim pra segurar a fome de lucro desse pessoal, que passa por cima de qualquer coisa.

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As informações são da Agência Brasil.

A charge é do Santiago.

A primeira foto mostra o Pampa como ele é. A segunda mostra o Pampa de Yeda.

Mais da metade do Bioma Pampa já não existe mais