A democracia (?) britânica

Meu professor de inglês em Londres contava hoje que o governo britânico tem o maior banco de dados de DNAs do mundo.

Como? Ele conta uma historinha: um dia, quando era mais guri, protestava contra a globalização no centro de Londres. A polícia cercou o grupo por sete horas. Só saía quem desse uma amostra de DNA. Nesse meio tempo, ficaram sem comida, sem água, sem banheiro.

Desde antes dos atentados terroristas de uma década atrás, a polícia do Reino Unido pode prender e colher amostras de DNA qualquer um que suspeite de terrorismo, o que permite praticamente tudo.

Eu, incrédula: “Mas isso não pode acontecer numa democracia”.

“Pois é”, ele respondeu, rindo da minha ingenuidade…

A democracia (?) britânica

Conheces esta história?

Faz 13 anos que cinco homens foram presos fora de seu país de origem. Eles buscavam monitorar e denunciar operações em curso contra seu país. Até hoje os cinco estão sem julgamento, mas continuam presos. Não sabe de onde são estes homens? Não conhece esta história?

Ela vem sendo denunciada exaustivamente há muitos anos, mas muita gente ainda não conhece, nunca nem ouviu falar. Não te preocupa, não precisas te considerar mal informado. O problema é que tem coisas que os jornais não contam. Uma delas é a prisão dos cinco cubanos dentro dos Estados Unidos. É isso que se chama bloqueio midiático a determinados temas.

O argumento estadunidense é que eles estavam dentro de seu território. Os cinco são acusados de serem eles os terroristas, e não o contrário. Engraçado é que quando os Estados Unidos invadem um país alheio para matar um terrorista parece tudo muito normal.

Independentemente de se concordar ou não, temos o direito de saber o que acontece. Isso vale para Cuba, vale para os Estados Unidos, vale para o Brasil.

A libertação dos cinco presos cubanos é um dos temas que serão tratados na VI Convenção Estadual de Solidariedade a Cuba, nos dias 3 e 4 de junho, no Plenarinho da Assembleia Legislativa, em Porto Alegre. O bloqueio da imprensa aos temas de Cuba também será abordado, entre outros temas.

Quem organiza as atividades, preparatórias para a XIX Convenção Nacional de Solidariedade a Cuba, é a Associação José Martí. O trecho a seguir é parte do material de divulgação:

Os processos dos Cinco são considerados uma surpreendente aberração jurídica e geram manifestações e protestos em mais de 300 entidades do mundo – além de 10 Prêmios Nobel, ativistas políticos e chefes de Estado, sem que o governo estadunidense revise a farsa que foi o julgamento e a sentença imposta aos prisioneiros.

Programação:

3 de junho:

19h – Abertura
19h30min – Tribunal Popular sobre o caso dos Cinco antiterroristas sequestrados pelos EUA

4 de junho:

9h – Bloqueios Estadunidenses a Cuba e a Política de Realinhamento Econômico e Social do Governo – embaixador Carlos Zamora Rodriguez
11h30min – Apresentação de Pedro Munhoz
14h – Apresentação de Raul Ellwanger
14h30min – O Bloqueio Midiático a Cuba e as alternativas para enfrentá-lo – jornalista e blogueira Norelys Morales Aguilera (Santa Clara, Cuba); editor dos sites Carta Maior e RS Urgente, Marco Weissheimer; presidente do Sindicato dos Jornalistas do RS, José Maria Nunes.
17h – Apresentação das propostas
18h – Apresentação do esquete “Fragmento: te doy uma canción” – Ana Campo

Durante os dois dias da Convenção, o estudante de jornalismo e fotógrafo, Michael Susin, de Caxias do Sul, expõe na Galeria dos Municípios, no térreo do Poder Legislativo, a mostra fotográfica “Minha Visão sobre Cuba”.

O encerramento da VI Convenção ocorre com a festa de confraternização homenageando os 51 anos do Instituto Cubano de Amizade com os Povos (Icap) e os 50 anos da Batalha de Praia Girón. A festa será no Bar do Ricardo, na Rua Caldre Fião, em Porto Alegre.

Maiores informações no Site da Associação José Martí.

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Dez mil pessoas pedem a Obama que solte os cinco presos cubanos

Por Stela Pastore

Neste sábado, 20, cerca de dez mil pessoas realizaram um ato pedindo ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que liberte os cinco cubanos presos injustamente há doze anos. Trabalhadores, estudantes, moradores e ativistas de 56 países realizaram uma caminhada e após um ato em frente ao monumento a Che Guevara, na Avenida dos Libertadores em Holguín, leste de Cuba. Lideranças de vários países pronunciaram-se contra a detenção e contra o terrorismo de Estado.

Delegação gaúcha com 14 pessoas integrou as manifestações, que tomaram as ruas.  O padre inglês Geoffrey Bottons disse que Obama deve fazer jus ao prêmio Nobel da Paz e libertar os cubanos. “Não estamos pedindo que abra o Mar Vermelho ou que alimente todo o mundo com pães e peixes, como faria Fidel. Estamos pedindo que ponha fim à injustiça e solte os companheiros presos”. Líderes sindicais, da juventude, membros de comitês de solidariedade, representantes de partidos políticos pediram justiça e maior divulgação do caso, que segue sendo omitido. Há muita desinformação sobre o assunto. Esclarecer todos os detalhes é um dos objetivos do encontro.

O ato integra a programação do VI Colóquio pela Liberdade dos Cinco e Contra o Terrorismo. Familiares dos presos estao presentes no evento e, junto com os mais de 300 delegados, plantaram na véspera dezenas de árvores como um ato simbólico de solidariedade dos povos.

Em mais de 150 países existem associações desolidariedade com os cinco antiterroristas cubanos presos arbitrariamente nos Estados Unidos desde 1998. Fernando Gonzales, Ramon Labañino, Antônio Guerrero, Gerardo Hernandez e René Gonzales estão detidos por terem evitado atos de grupos terroristas norte-americanos contra Cuba.

Mais de quatro mil cubanos já foram mortos em atentados terroristas patrocinados pelos Estados Unidos.

Dez mil pessoas pedem a Obama que solte os cinco presos cubanos

O problema não é a crise de hegemonia, mas como lidar com ela

Não se consegue mais controlar pessoas pela ideologia. Não há uma forma de pensar, uma forma de ver o mundo que partilhe da unanimidade – ou quase – da população, um senso comum. Não há um american way of life que faça com que todos hajam da mesma maneira, tenham os mesmos objetivos, julguem a vida a partir da mesma ótica. Esse é o argumento principal da matéria de Antonio Luiz M. C. Costa sobre a crise de hegemonia do Ocidente, capa da Carta Capital dessa semana.

A hegemonia é tratada por ele do ponto de vista de Gramsci, que é mais ou menos isso que foi descrito no parágrafo anterior como inexistente, como em crise. Não sei se concordo. Compartilho da visão do jornalista de que surgem o tempo todo grupos que divergem do tal senso comum, que na Europa principalmente a coisa é muito grave com relação aos imigrantes, que nos Estados Unidos aparecem terroristas que definitivamente não concordam com a visão do Estado.

Mas ainda acho que há um senso comum capitalista. Ele é centrado no consumismo, tem nele sua base. Emir Sader falou em uma palestra, também já li textos dele a respeito, que o mais difícil de enfrentar na direita é a dominação ideológica, centrada justamente no consumismo. Isso é difícil de romper, é o terreno onde fica mais complicado de lutar.

A matéria informa que é devido a essa crise de hegemonia, que concordo que há, mas em escala menor do que o autor atribui, que são tomadas medidas autoritárias, que usem a força. Naquela velha tática de que quando conversar não resolve, palmada. É a força bruta, guerras, violência contra imigrantes, mas também coerção, humilhação, invasão. Tanto por grupos extremistas como pelo governo.

Humilham-se os imigrantes, a xenofobia só cresce, tanto na Europa quanto em outros lugares, inclusive na América Latina – em São Paulo, por exemplo, cidade que recebe muita imigração, bolivianos são tratados como lixo. Nos Estados Unidos, foi aprovada a continuidade de medidas coercivas do governo Bush, como vigilância telefônica, invasão de residências etc. E como não lembrar da paranóia em que se transformaram os aeroportos?

Isso tudo serve para combater supostos terroristas, ou seja, a divergência, o pensamento diferente. Funciona? Claro que não. A paranóia só tem aumentado, acompanhada de medo, pânico. E com eles a desorganização, o caos. A violência só aumenta, porque as divergências ficam mais claras com esse combate a elas. E aumentam.

Se há uma crise de hegemonia que vem preocupando pela exacerbação da violência, pelo crescimento do número de atitudes radicais, pela força cada vez maior da extrema direita, ela não pode ser combatida com mais hegemonia. A matéria não fala qual é a solução para o problema, até porque encontrá-la é tarefa das mais difíceis, e resolveria os conflitos atuais mais importantes. Mas definitivamente, boicotar as ideias divergentes não parece o melhor caminho. A Carta Capital afirma: “A combinação de ódio, medo e força acabam com as possibilidades de consenso”. Mas o consenso é bom? Bom para quem? A dominação fica mais fácil, é fato. As elites lucram com a calmaria. Já diria Nelson Rodrigues que toda unanimidade é burra. E olha que ele era de direita, que é exatamente onde se encontram aqueles que querem coibir a qualquer custo os que não se encaixam no padrão ocidental.

Se há uma solução para essa crise, ela passa pela tolerância. Religiosa, racial, de gênero, de fronteiras. É no respeito à diversidade que se vai chegar à paz. Se isso vai de fato acontecer, impossível saber. Mas só enxergo essa alternativa. Quanto mais agredida uma pessoa se sentir por determinada característica ou forma de pensar, mais revoltada ela vai ficar. Violenta. A solução se resume em tolerância e solidariedade.

O problema não é a crise de hegemonia, mas como lidar com ela