Quem elegeu Mario Monti e Lucas Papademos?

Emir Sader lançou a questão no seu mural no Facebook: “Saem Berlusconi e Papandreou, eleitos pelos cidadaos, entram Papademos e Monti, eleitos pelos mercados (isto é, pelos especuladores), por Merkel, Sarkozy e o BCE. Estes sao melhores eleitores do que os cidadaos? Essa é a conclusao que querem tirar?”.

Será que os líderes de Alemanha e França e o Banco Central Europeu perceberam que desta forma estão desacreditando a democracia?

Por pior que possam ter sido os governos de Georges Papandreou e, especialmente, de Silvio Berlusconi, eles foram eleitos pelo povo. Podemos questionar se foram bem eleitos ou não, podemos não entender as motivações do povo na hora do voto. É possível argumentarmos que os italianos elegeram um primeiro-ministro que tinha a mídia em suas mãos, no que a eleição fica comprometida, que isso prejudica o caráter democrático da república italiana etc. etc.

Mas há uma diferença. Mario Monti e Lucas Papademos podem ser extremamente competentes. Aliás, apostaria que o são. Mas há uma certeza que se pode ter a seu respeito. Ambos foram escolhidos com um único objetivo e de acordo com um único interesse. E esse interesse não é o bem comum, não é o melhor pra cada cidadão. O interesse que os rege é o mercado. É a ele que respondem, é para ele que são competentes. Além da ideologia que os orienta, têm quase uma dívida de gratidão. Estão onde estão para acalmar os mercados. Se não tivessem essa capacidade, não estariam lá. E se não fizeram, podem sair com facilidade.

Um modelo nada democrático na Europa, que, junto com os Estados Unidos, forma o exemplo de democracia do mundo ocidental. Aqueles que têm autoridade para invadir países e ditar regras usando como argumento a necessidade de levar democracia para onde antes só havia ditadura. São esses que agora impõem uma ditadura de mercado.

Como fica agora? Líderes eleitos pelo povo, como Angela Merkel e Nicolas Sarkozy, perdem sua legitimidade. E chefes de Estados mais fracos, como Portugal e Espanha, se veem obrigados a andar na linha ditada pelo mercado. O cidadão vai ficando cada vez mais para último plano. Cada vez mais trabalha apenas para pagar as dívidas criadas em seu nome sem o seu consentimento.

Quem elegeu Mario Monti e Lucas Papademos?

Portugal sente a crise

Não precisa mais que alguns poucos dias em Portugal para ver e sentir que a coisa está feiatugal para ver e sentir que a coisa est. O país nos recebe bem e é um lugar extremamente agradável de visitar. Mas talvez não esteja mais tão bom assim de morar. A impressão passa pela sensação de insegurança ao andar nas ruas, de tristeza pela quantidade enorme de gente pedindo dinheiro (incluindo muitos idosos), a gurizada vendendo drogas em dia claro, o aviso constante para cuidar dos pertences por causa de assalto. Fica a impressão mais subjetiva de que falta alguma coisa, de que já não é como era, mesmo que eu nunca estivesse pisado em terras portuguesas antes desta última semana. Isso vem na voz dos portugueses. E nas páginas dos jornais.

Com a notícia de que a Grécia vai fazer um referendo para decidir se continua ou não na zona do euro e a incerteza que isso causa, Portugal tremeu. Sabe que está na fila e sua vez está chegando. É o próximo a encarar o furacão, dependendo de como as coisas andarem no companheiro ainda mais fraco que está se segurando para não ir à bancarrota. Na verdade, se segurando para não admiti-la, ela que já é evidente.

A Europa está tensa. O imprudente presidente francês – que o professor universitário português Viriato Soromenho-Marques chamou, no jornal Diário de Notícias, de “insulto continuado à grandeza da França” –, Nicolas Sarkozy, já disse que seria melhor a Grécia não ter adotado o euro, mas agora treme diante da possibilidade de ela fazer-lhe a vontade.

O referendo chamado pelo governo grego é uma oportunidade de o povo exercer a democracia, ainda que não tenha sido chamado por esse motivo. A verdade é que a Grécia está numa sinuca de bico, e aceitar as condições impostas desde Berlim não é tarefa fácil. As medidas de austeridade vão prejudicar ainda mais o já combalido povo grego, especialmente, como sempre, os mais pobres. Então o governo faz um pacote e joga a batata assando para as mãos dos eleitores. Ou ficam na zona do euro e aceitam as medidas ou demonstram sua soberania negando a imposição externa, mas assumem as consequências de abandonar a moeda comum. Não há meio termo.

A culpa, nesse momento, não é exatamente do primeiro-ministro grego, George Papandreou. A União Europeia lhe impôs a condição, e ele repassou-a ao povo. A situação agora é imprevisível, ainda que mais de 70% dos gregos não queiram abandonar o euro. Os mercados devem flutuar nesse tempo de incerteza até o começo de dezembro, quando o referendo deve ser realizado.

Portugal vai continuar observando e torcendo, enquanto os articulistas de seus jornais clamam por uma postura sensata de fazer o que for necessário para resguardar a estabilidade e proteger a moeda. É o que a chanceler alemã, Angela Merkel, quer, como já deixou claro ao afirmar que salvar o euro é mais importante do que salvar a Grécia. Ela sabe que a União Europeia está em crise e o euro pode dançar à medida que os países endividados (já estão na lista também Espanha e Itália, além da Irlanda) forem quebrando. A gente vê nas ruas de Portugal o resultado da sensatez de abdicar de sua soberania e submeter-se às vontades da EU. Como elo fraco, nunca dá as cartas, sempre baixa a cabeça. E como elo fraco, sempre arca com o prejuízo.

O país das grandes navegações agora vê seu navio balançar. Para a Europa, perder Portugal pode não ser tão simples quanto perder a Grécia (não que isso o seja). Mas quando a estabilidade do euro está em jogo…

Portugal sente a crise

A liberdade seletiva do Instituto Millenium

Aconteceu hoje mais um Fórum da Liberdade, no Rio de Janeiro, organizado pelo neoliberal Instituto Millenium. Um bando de gente reúne-se para debater a liberdade de acordo com o seu conceito ideológico. Eles se furtam de discutir para quem é a liberdade que defendem. Quando o diretor de conteúdo do Grupo Estado ou o vice-presidente institucional e jurídico do Grupo RBS fala em liberdade de comunicação, por exemplo, ele se refere à atual liberdade de disputar comercialmente quem tem mais dinheiro para estabelecer um grande grupo de comunicação que influencie a opinião pública ou o acesso de toda e qualquer pessoa, independente de raça, credo, classe social, região, gênero, à produção de conteúdo?

Será que um escritor que critica a criação de leis por parte do Estado com base no argumento da liberdade de cada cidadão também é contra a lei que proíbe a organização sindical, aprovada semana passada pelo estado de Wisconsin, nos Estados Unidos? Esquece o dito pensador que o Estado existe com a função, entre outras, de criar leis para permitir que a liberdade seja para a maioria das pessoas. Para que os mais fortes ou poderosos não imponham suas ideias ou vontades sobre os outros cidadãos por causa do poder que detêm. Ou seja, para que o lema de que a liberdade de um termina quando começa a do outro seja respeitado.

Mas o Fórum não deixa de ser divertido. Uma mesa com a participação de Leandro Narloch, Marcelo Tas, Reinaldo Azevedo e Rodrigo Constantino, com a mediação de Monica Waldvogel, por exemplo, deve ter sido um excelente programa de humor. Hilário é também um livro intitulado O Estado-babá, daquele pensador que critica a criação de leis. O Fórum da Liberdade é isso, uma comédia da sociedade atual. Uma reunião de ditos pensadores em defesa de uma ideologia fracassada, que, ao ser colocada em prática, gerou a maior crise mundial desde 1929. Aliás, o correto seria que nem precisássemos mencionar esse tipo de evento, se não estivéssemos presenciando um renascimento do neoliberalismo na União Europeia e nos Estados Unidos, que aplicam no doente o vírus que o acamou.

O contraponto

Nos dias 10, 11 e 12 de abril, acontece em Porto Alegre o Fórum da Igualdade, com uma agenda voltada para a inclusão social, em uma programação em torno da questão da comunicação, com protagonismo de blogueiros, chargistas e outros distantes da tal grande imprensa que participa ativamente de discussões como a que se deu hoje no Rio. Apesar de louvar a iniciativa de um contraponto, fica a ressalva de que liberdade e igualdade não se opõem, mas se complementam, como já comentei por aqui. O Fórum da Liberdade não valoriza a igualdade, mas o contraponto deve enfatizar a existência de ambas, combinadas.

A liberdade seletiva do Instituto Millenium

O que diz a Carta Capital sobre a crise e seus remédios

Acabei de ler a matéria de Antonio Luiz M. C. Costa da Carta Capital e, depois do post que escrevi hoje de manhã, não deu pra não puxar uns trechos. Deixo o post sobre Marina Silva no Painel RBS para amanhã.

“Dentro da Europa, como também no âmbito global, o livre comércio falha em amenizar as diferenças de desenvolvimento e às vezes as acentua, apesar dos dogmas neoliberais.

A alternativa à desintegração da Zona do Euro e, por tabela, da União Europeia é reforçar a solidariedade entre os países e conferir mais poder aos órgãos centrais da organização. (…) Mas a estrutura tecnocrática da União Europeia cada vez mais dá a impressão, tanto aos povos do Norte quanto aos do Sul, que sua função é abolir gradualmente os mecanismos da democracia, da participação popular e do bem-estar social, o que torna politicamente impopular qualquer iniciativa desse tipo.”

“Mas a maior parte dos eleitores alemães e do baixo clero do culto aos mercados acredita que o remédio para qualquer problema econômico é mais disciplina, corte de gastos e austeridade, a mesma receita que lhes foi imposta goela abaixo por décadas.”

“No momento em que mais se precisaria de ousadia e liderança, todos os principais países do Ocidente têm governos fracos. Apesar do socorro trilionário, é preciso manter as barbas de molho. A crise pode voltar, com mais força, em 2012 ou 2013.”

O que diz a Carta Capital sobre a crise e seus remédios

Europa: estão tratando o doente com o remédio errado

Quando a crise imobiliária começou, em setembro de 2008, se falou muito em crise do capitalismo, os mais modestos em crise do neoliberalismo. Chegou-se a falar que o neoliberalismo estava acabando. E os que foram mais longe viram o fim do longo período do capital. A discussão seria sobre o que viria a seguir. Vi grandes nomes falando que tínhamos que mostrar logo um caminho sustentável e possível, mais solidário, para orientar os rumos da economia, da sociedade, antes que os interesses capitalistas se metessem e criassem outro monstro.

Eu cheguei a comentar que devíamos comemorar a situação. Achava ótimo uma crise que mostrasse que esse não é o modelo certo, que especular para acumular cada vez mais e mais não é uma coisa natural, não é saudável. E é injusto, causa desigualdade, exclui.

Aí a crise acalmou, leigos como eu achavam que as coisas estavam aos poucos voltando a ser o que eram, talvez um pouco melhores. Eis que vem essa crise europeia. Justo na Europa, que diziam estar mais forte que os Estados Unidos, apesar de também um tanto fragilizada. Parecia um cenário meio absurdo, mas tá, era óbvio que a grande crise não podia ter acabado assim, sem maiores danos ao sistema. Refletindo melhor, parecia lógico, então, que problemas estourassem de novo.

O menos lógico, o mais difícil de entender e o mais decepcionante é o remédio que estão dando. Quando a crise aparecia como uma oportunidade de rever conceitos, de criar alternativas, de esquerdizar a política, tratam-na com o remédio que a causou. A América Latina sai mais forte, é a menos afetada. Não é coincidência o grande número de governos de esquerda por aqui, não pode ser. Poderia ser um exemplo para o resto do mundo, para o Centro do mundo. Mas não. Injeta-se dinheiro na Grécia exigindo a mesma flexibilização que outrora causou problemas aqui quando o resto do mundo não os tinha. Na Inglaterra, faz-se uma coalizão bastante pendente para a direita, com um primeiro-ministro conservador.

No fim das contas, a América Latina mostrou-se mais inteligente na solução de uma crise que, embora não fosse extamente a mesma, chegou aqui uma década antes. Reagiu mudando, não deixando tudo igual. Além de manter tudo como está, continuar a exploração do trabalho e a desigualdade se aprofundar, fica a dúvida: até quando essas medidas seguram a bolha? A Europa vai acabar deixando a coisa estourar mais para frente. E aí talvez a força seja maior, e as consequências, mais incontroláveis.

Europa: estão tratando o doente com o remédio errado

Neoliberalismo se combate com… neoliberalismo?

“Sitiado e dividido, o Parlamento grego aprovou ontem as medidas de austeridade exigidas pela União Europeia (UE) e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para salvar a Grécia do caos.” (Estadão)

Não me lembro dos textos dos jornais lá nos anos 90, mas podia jurar que em algum momento eles publicaram coisas bem parecidas com isso, trocando “Grécia” por “Brasil” ou “Argentina”.

Reduzir salários, cortar empregos e benefícios, aumentar impostos (tudo em troca de um empréstimo de 110 bilhões de euros da UE e do FMI) lembram as reduções dos gastos públicos recomendados pelo Consenso de Washington em 1989 e impostos pelo FMI aos latino-americanos, com o único objetivo de quebrar os países, de acordo com Emir Sader (em “A vingança da história”, de 2007). Incrível ver a Europa mergulhar nos mesmos erros que a América Latina cometeu 20 anos atrás.

E mais absurdo ainda é constatar que a crise causada pela implantação de políticas neoliberais – que foram mais aprofundadas aqui pelos latinos do Sul, mas que orientaram a economia do mundo inteiro – está sendo enfrentada por… políticas neoliberais!

Aliás, muito divertido o título do projeto de lei aprovado ontem que prevê as medidas: “Projeto de medidas para a aplicação do mecanismo de apoio à economia grega pelos países membros da zona do euro e do Fundo Monetário Internacional”.

Cheguei a achar que eu estava enlouquecendo ao vislumbrar esse cenário, que me assusta muito, considerando o ponto em que chegamos no final dos 90, início dos anos 2000. Não poderia haver exemplo mais explícito que a bancarrota a que Carlos Menem levou a Argentina. Não via ninguém lembrar isso. Nesses poucos dias em que o assunto vem sendo mais discutido, não lia nada a respeito nos jornais, não via na TV. Ninguém dizia que as medidas que vão “salvar” a Grécia (e isso eu li muito) são as mesmas que quebraram o Brasil duas vezes nos anos Fernando Henrique Cardoso.

Acalmei-me quando li uma frase perdida lá no fim de um texto de Paul Krugman no Estadão online: “A Grécia já começa a parecer com a Argentina de 2001”. Não é exatamente uma denúncia, pouquíssima gente chega a ler – ou, se lê, a prestar a atenção no detalhe -, mas é pelo menos uma comprovação de que não estou tão distante assim dos fatos.

Ok, acabo de descobrir que tem mais gente compartilhando a mesma visão. Cristóvão Feil, do Diário Gauche, por exemplo. “É aquela situação da anedota, o sujeito adoeceu de tanto comer batatas, vai ao médico e este, depois de examiná-lo, passa-lhe a seguinte dieta: batatas!” Posso cancelar a Maracugina, ainda não enlouqueci.

Afinal, não ler nada a respeito por aí não quer dizer que ninguém veja. Talvez queira dizer que ninguém quer ver.

Neoliberalismo se combate com… neoliberalismo?