Uma outra cidade é possível – Final

Os interesses da cidadania, que se opõem aos das construtoras, da especulação imobiliária, “envolvem moradia, paisagem, meio ambiente equilibrado, e não podem ser sobrepujados pelo livre mercado, pelo lucro”. Betânia Alfonsin está certa, a cidade tem que ser o ponto de origem da construção democrática da sociedade. A urbanização tem que estar articulada a outros fatores, mas hoje em dia ela se mostra como um aspecto preponderante, fundamental.

E urgente, porque a expansão desse modelo antidemocrático de grandes construções é irreversível. Depois que cresce um condomínio, ele vai existir provavelmente para sempre. Depois de destruído um patrimônio ambiental, ele é muitas vezes irrecuperável. O mesmo acontece com o patrimônio histórico.

A paisagem da cidade tem que ser planejada, não pode ser implementada caso a caso. Justamente por causa dessa irreversibilidade.

Que fique claro, ninguém é contra o progresso. Sou contra o progresso a qualquer custo, e acredito que pode haver desenvolvimento com qualidade de vida. Se o lucro das empresas não é total, ele ainda pode ser bom, pode ser mantido, mas de forma que respeite o cidadão que não tem empresa, que não tem lucro. Mas que vive na cidade e que tem tanto direito quanto o dono da multinacional, desde que, no século XVIII, a Revolução Francesa definiu como princípios a igualdade, a liberdade e a fraternidade. Ainda que o movimento tenha sido burguês, pode-se aproveitar esses ideais, que são positivos, e utilizá-los como referência na construção do nosso espaço urbano. Por um futuro melhor. E melhor para todos.

Parte 1 aqui e parte 2 aqui.

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Uma outra cidade é possível – Final

Uma outra cidade é possível – parte II

Continuando a discussão, para se planejar as cidades – e para falar disso parto de Porto Alegre, mas amplio o debate para as grandes cidades do mundo – há que se considerar a imensa quantidade de gente vivendo na pobreza. Cerca de um bilhão de pessoas, segundo o arquiteto urbanista do Instituto Pólis Kazuo Nakano, na Le Monde Diplomatique Brasil do mês passado.

Betânia Alfonsin coloca em dois lados opostos os interesses do capital imobiliário e os interesses da cidadania. Parece óbvio, já estamos acostumados a pensar o mercado como um mecanismo autônomo, que deve correr livre e solto. Não parece fazer sentido impedir quem tem dinheiro de comprar, de construir, de fazer acontecer. Até porque, em alguns casos, essas iniciativas trazem dinheiro para a cidade, para o estado. Mas é um dinheiro que não é bom, que não compensa. Porque em troca vem a elitização do espaço urbano, que valoriza apenas os interesses de uma minoria endinheirada. O papel do governo é impedir isso, regular, criar normas.

A extrema pobreza de que Nakano falava vem acompanhada de uma bagunça urbana, com moradias precárias e toda a situação que acompanhamos muito bem na recente tragédia no Rio de Janeiro, por exemplo. As residências são segregadas, há uma divisão social muito nítida na configuração do espaço urbano. Esses “padrões desiguais, precários e predatórios de urbanização” são causados justamente pela desregulação do mercado de que fala Betânia. “É necessário regular as forças do mercado para evitar ataques especulativos e ampliar o acesso adequado ao solo nas cidades, em especial nas partes centrais”, diz Nakano. Para satisfazer os interesses da cidadania, aqueles da Betânia.

Isso não vem acontecendo nas cidades brasileiras. Aqui o melhor exemplo é São Paulo, que mostra muito claramente a divisão entre Centro e periferia, mas também Porto Alegre, Salvador, qualquer das grandes. A ideia é afastar o feio de quem tem dinheiro. Ou seja, tirar dos olhos da classe média as favelas, os pobres. Uma matéria de Rodrigo Martins na Carta Capital sobre o descaso no Rio de Janeiro é explícita: esse modelo, que começou com Carlos Lacerda, no Rio, mostra “o quanto o País é governado por uma minoria e para uma minoria”. No Rio de Janeiro, a favela é do lado do bairro nobre. Solução: murar as favelas para não atrapalharem a vista. Em São Paulo, empurrar para longe. Longe do trabalho, que fica no Centro, longe de condições de vida decentes.

Continua…

Uma outra cidade é possível – parte II

Uma outra cidade é possível, sim

Crescem prédios, elitizam-se espaços antes coletivos, cortam-se paisagens, as ruas enchem de carros. O ar fica impuro, a cidade oprime. Essa é a tendência que vemos, principalmente nas grandes cidades, pelo menos no Brasil. Torna-se fundamental discutir um modelo de cidade.

Esse que está se impondo revela uma inversão de valores que não é só urbana. É um modelo que coloca o lucro na frente das pessoas, o mercado antes do bem-estar. Parece heresia desperdiçar uma oportunidade de ganhar dinheiro, então investe-se. Para ganhar o máximo possível, sempre, senão é burrice.

Os custos disso são uma qualidade de vida cada vez pior, poluição, congestionamentos, utilização pouco democrática do espaço urbano.

Conversando com a advogada e coordenadora do Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico Betânia Alfonsin, tive clareza de algumas coisas importantes, que vêm sendo discutidas por bastante gente nos últimos tempos. O Fórum Urbano Mundial e o Fórum Social Urbano, que aconteceram concomitantemente esse mês no Rio de Janeiro (o primeiro da ONU e o segundo em oposição ao primeiro), são prova dessa tendência. A questão principal é discutir uma cidade inclusiva, voltada para todos, que propicie uma vida saudável para seus habitantes.

Por vida saudável, entendo ter possibilidade de andar na rua sem medo, de se locomover de um lado a outro sem stress e no menor tempo possível, de respirar ar puro, enxergar a paisagem, ter parques. É não ser oprimido por prédios gigantescos e colados um no outro, que, não parece, mas nos sufocam, tiram a vontade de andar na rua. Vida saudável pressupõe transporte coletivo decente, ciclovia.

Tem que ter casa para todo o mundo, mas não se pode jogar os pobres para a periferia. A política habitacional não pode partir do pressuposto de que qualquer coisa é melhor que nada. As pessoas não são pobres porque querem, e tem os mesmos direitos de escolher onde morar que qualquer cidadão. Tudo bem, não podemos colocar todos em áreas nobres, a coisa tem que ser feita de forma organizada.

Mas tomando como exemplo o caso do terreno da Fase, fica clara a política que impera. Se a área for mesmo permutada ou alienada, os moradores dali vão acabar sendo expulsos, se a Justiça fechar os olhos, ou vão vender seu espaço por uma mixaria qualquer. Como resultado, vão acabar sendo transferidos para a periferia e percebendo, com o tempo, que foi um péssimo negócio. Dali, vão em 15 minutos pro Centro. Da Restinga, se vai em uma hora, por exemplo.

Continua…

Uma outra cidade é possível, sim

Porto Alegre do futuro, concretamente

Antes de se desincompatibilizar, o ex-prefeito de Porto-Alegre-é-Demais, José Fogaça, andou por aí divulgando aos seus (políticos e órgãos de imprensa) o projeto para a Copa de 2014. Tem também uma exposição na Usina do Gasômetro, que até quero ir ver, sobre a “Porto Alegre do Futuro”. Não, meus caros, não esperem metrô ligando as zonas Norte, Sul e Leste. Nem uma solução de verdade para o trânsito. Moradias dignas para a população pobre. Empregos. Educação decente para o nobre objetivo de receber bem os turistas. Nem isso, nada.

Os projetos bacanudos para o mundial envolvem prédios, principalmente. Tá, tem uma ciclovia lá, só pra constar, porque sinceramente duvido que venha a funcionar (juro, não estou agourando, vou ser a primeira a usar se der certo). O aumento no tratamento do esgoto é uma iniciativa positiva. Pena que tenha que depender da vinda de um evento desse porte para acontecer. (Acho o máximo os prefeitos se gabarem de fazer suas obrigações só porque está vindo uma Copa do Mundo.)

Além disso, o frustrado e já concluído camelódromo entra no pacote de projetos. (O que me faz lembrar da minha prima, que coloca embaixo do pinheirinho no Natal tudo que comprou para si nos últimos três meses, como se fosse presente, para parecer mais importante. O pinheirinho de Fogaça tem uns seis anos.)

Portais da Cidade. Faz-me rir.

Mas o mais interessante é observar o que a turma de Fogaça entende por modernização, que pode levar Porto Alegre ao “futuro”. Prédios. Altura. Concreto. Falta de ar.

O Cais da Mauá, que teve seus índices construtivos alterados e agora permite prédios de 100 metros, é citado, mas poderiam ser também tantos outros. O Beira-Rio, com seus hotéis, centro de convenções, super construções. A Arena do Grêmio, no Humaitá. O Pontal do Estaleiro, inesquecível. O futuro terreno da Fase, se não conseguirmos reverter o processo em curso (Quem quer entregar a área é o estado, mas quem tem que aprovar os índices construtivos, no futuro, é a Prefeitura. Mas não se preocupem, é fácil.). E como esses diversos prédios de impacto urbanístico, ambiental, paisagístico, estão crescendo por aí. O impacto pode até ser menor que o desses casos emblemáticos, mas existe.

Respiremos ar enquanto podemos. Daqui a pouco, vamos respirar obras, poeira. E depois, concreto. Só que esse fica.

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As imagens que ilustram são respectivamente de Porto Alegre e de Fortaleza. Embora a cidade nordestina seja banhada por mar e não por lago, serve de exemplo. Um exemplo que não quero pra cá, obrigada.

Porto Alegre do futuro, concretamente