A política pode ser pura e humana

Pra fazer política, há que se ter estômago. A maioria dos políticos mais antigos que vemos por aí, mesmo que não corruptos, mesmo que íntegros e éticos, já não são puros. Por uma razão muito simples: se o são, são engolidos. Ainda assim, acho que devemos insistir em tentar nos fazer representar por políticos puros, ou pelo menos aqueles honestos e comprometidos.

Gosto de política. Acho difícil lidar com ela, mas gosto. Não pelas jogadas, pela arte de politicar. Muito menos pela politicagem. Mas porque sei que a política tem um lado muito maior que isso tudo. Que é o princípio de tudo, na verdade. Pelo menos ao meu ver.

Porque a política tem um caráter humano muito profundo. Porque tudo que é feito pelos homens e mulheres exclusivamente dedicados à política se reflete na vida de cada um de nós. Pro mal, mas também – e felizmente – pro bem.

Abro um parênteses. Falo nesses que se dedicam apenas a isso porque a política não é só a atividade parlamentar, não é só o exercício de cargos eletivos. Política se pratica no dia a dia, a cada contato, a cada relação, a cada discussão, negociação. Seja em empresas, no relacionamento profissional ou na vida pessoal, nas conversas com amigos, no abrir mão de determinadas coisas pelo bem de um relacionamento.

Parênteses fechados. Voltando, então, à política como a conhecemos, a atividade à qual atribuímos esse nome. Às vezes nos esquecemos, porque se fala muito pouco na política com esse caráter, mas ela é fundamental para a organização em sociedade. Corrompê-mo-la, sim, mas culpados somos nós, por não levarmos a sério atividade tão importante. Não a corrompemos só roubando, mas fazendo dela essa coisa feia, da qual as pessoas criam asco.

Tarefa nossa, de quem atua diretamente na política ou a retrata pelos meios de comunicação, é lembrar desse lado a cada dia. Mostrar a quem quiser ver – e a quem não quiser também – que a política pode ser pura e bonita. Pelo menos assim espero e ainda acredito. Que cada ato, cada decisão de uma figura eleita por nós pode ser pensada para que se reflita positivamente na vida do maior número possível de cidadãos, de forma a tornar a sociedade cada vez mais justa e mais igualitária.

A política pode ser pura e humana

A direita sumiu

Já que o dia hoje é de citar grandes nomes, trago agora um trecho de um texto de Emir Sader. Só não publico inteiro por causa do tamanho, mas dou o link, é da Agência Carta Maior. Não é tão grande assim e merece ser lido.

Onde está a direita no Brasil?

[…]

Mas, principalmente, onde mais avançou a direita no Brasil foi no plano dos valores, no estilo de vida fundado no consumo, que a influência da direita – que no nosso tempo é neoliberal, mercantil. O “modo de vida norteamericano”, centrado no consumo, no shopping-center, nas marcas, no marketing, no mercado. No individualismo consumista, na visão da ascensão individual, mediante a disputa no mercado, para ter acesso a bens de consumo.

Essa visão se construiu ao substituir o consenso surgido na luta democrática contra a ditadura. Esta esvaziou o impulso democratizador com o fracasso do governo Sarney em fazer da transição algo mais do que o restabelecimento institucional da democracia liberal, sem afetar as relações de poder econômico, social e midiático.

Os governos Collor, Itamar e FHC promoveram a construção de um novo consenso, contra a política, contra o Estado, a favor do consumo e do mercado, privilegiando o individualismo no lugar das soluções coletivas. Ao longo dos anos 90 o consenso nacional foi se tornando conservador, seja por reafirmar teses liberais como a do Estado mínimo e da exaltação do mercado, seja por pregar que a ascensão social é um processo individual e se dá via mercado.

[…]

Na campanha – caso se confirme como candidato – [Serra] tentará a todo custo a polarização entre continuação e aprofundamento do governo atual ou retomada de projetos do governo FHC. Mas disso se trata. Daí o forte caráter plebiscitário que a eleição ganha, independentemente de quem prefira ou tente rejeitá-lo. E é um plebiscito entre direita e esquerda.

A direita sumiu