Zero Hora, Folha e a Venezuela

Com todo o seu direitismo, que a levou a cometer grandes equívocos jornalísticos durante as eleições de 2010, ainda assim a Folha de S.Paulo consegue mostrar um pouquinho mais de qualidade que o nosso quase único representante no setor, ainda que não seja muita. O destaque fica para a versão online do periódico paulista, um tanto diferente da impressa. Nas suas edições impressas de hoje, a Zero Hora publicou uma nota na parte de dentro do pé da página 28, com um parágrafo apenas, e a Folha, uma matéria que abre a página A19 a respeito da nova lei relativa à internet aprovada ontem (20) na Venezuela.

Não que a matéria da Folha seja um exemplo de jornalismo, muito longe disso, mas a comparação, por gritante, torna-se inevitável.

O mais irônico é que, apesar de nenhum dos dois jornais impressos afirma que redigiu o texto com informações de agência ou que se baseou em outros veículos, mas o parágrafo único de Zero Hora – no site dividido em dois – é praticamente igual aos três primeiros parágrafos da Folha, com alguma ordem de frase invertida ou palavra trocada.

Ambos fazem juízo da decisão do Parlamento venezuelano antes de explicar do que se trata. A primeira informação a que temos acesso é que a lei aprovada foi considerada “um golpe ‘sem precedentes’ contra a liberdade de expressão na internet” pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). Só depois vem a explicação do que está acontecendo, o que diz a nova lei, mas apenas parcialmente. Dizem que regras vigentes para TV e rádio serão incorporadas pela rede, mas não diz que regras são essas. Em seguida, trata apenas dos pontos polêmicos, ou seja, dos atacados pela oposição, para depois criticar pontos referentes a outros setores do governo também aprovados esta semana.

Aliás, é impossível negar que a expressão “dominada pelo chavismo” para se referir à Assembleia Nacional, o parlamento venezuelano, tenha conotação pejorativa.

Das três, a que se salva é a da Folha online, que deixa para começar as críticas no quinto parágrafo. Antes disso, faz o que se aprende nos cursos de jornalismo: contextualiza. E no sexto parágrafo já dá voz a um aliado de Chávez. Manuel Villalba também é citado na Folha impressa, mas em outra passagem de sua fala, que não diz muito e não vem propriamente defender a nova lei. Ou seja, está ali apenas para que não se possa dizer que o governo não foi ouvido. Na Zero Hora, nem menção.

Ainda assim, faltam informações na Folha online. A matéria fala em multas que seriam aumentadas com a nova lei, mas não explica que “infrações” são multadas. O segundo subtítulo é sacana, “Superpoderes”, em alusão a uma lei que dá a Chávez poder para governar por decreto por 18 meses.

A Folha online traz ainda um infográfico, falando um pouco sobre as leis. Na legenda, há três definições: “já aprovada”, “aprovada em 1º turno”, “sem discussão”. O leitor não consegue entender o que significam os dois últimos. Aprovada em 1º turno significa que falta o quê? Ela vai entrar em vigor ou ainda não se sabe? “Sem discussão” quer dizer que a lei não vai nem ser encaminhada ou que já foi consensuada?

Dei uma olhada em matérias sobre o mesmo assunto em outros jornais da grande imprensa. Decidi focar na Folha e na Zero pelas discrepâncias entre elas e para não me alongar demais. Mas cabe uma reflexão: se a matéria mais completa sobre um tema internacional é publicada apenas na internet e deixa mais dúvidas do que certezas, alguma coisa está errada na nossa mídia. De repente somos nós que devemos nos reformar…

Zero Hora, Folha e a Venezuela

As velhas novidades do WikiLeaks

Nenhuma novidade na terrinha. Um monte de documentos veio à tona através de uns vazamentos. O responsável pela publicação – não por vazar os dito-cujos, fique bem claro – foi preso, é o inimigo número 2 dos Estados Unidos. Muito se tem questionado o motivo de sua prisão. Comentaristas apontam para o fato de ele não ter cometido crime ao divulgar os documentos e a falta de coerência na sua prisão enquanto outros que ajudaram a espalhar a notícia continuam soltos e louvados como defensores da liberdade de imprensa. Mas tem outra questão.

Por que tanto esforço pra prender o cara se a única coisa que ele fez foi provar aquilo que todo o mundo já sabia? Afinal, o que apareceu de mais polêmico, entre outros, foi que:

– Os Estados Unidos se acham os donos do mundo e querem que todos os países – que julga inferiores – lhe prestem obediência;

– O ministro da Defesa brasileiro, Nelson Jobim, é devoto do imperialismo norte-americano e não é confiável;

– O PSDB quer entregar o Brasil de lambuja para investidores estrangeiros;

– O Vaticano procurou esconder casos de pedofilia envolvendo padres;

– O ex-presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, gostaria de ter invadido a Venezuela com forças militares;

– As mudanças no Código Florestal propostas pelo deputado Aldo Rebelo (PC do B) favorecem interesses estrangeiros;

– O golpe sobre Manuel Zelaya em Honduras foi exatamente isso, um golpe, inconstitucional.

Qual a novidade? Fora, é claro, a comprovação de que não somos loucos paranóicos por dizer tudo isso tempos antes de ser comprovado, como a mídia brasileira gostava de fazer crer.

Mais informações qualificadas sobre os vazamentos do WikiLeaks no blog mantido pela jornalista independente Natália Viana na Carta Capital.

As velhas novidades do WikiLeaks

A fajuta democracia americana

Não, não acho certo que oposição tenha mais votos e situação fique com mais vagas, como aconteceu na Venezuela. Mas isso me lembra outro caso bem pior, que não foi tratado com tanto assombro por aqui. Mas antes de chegar lá, quero comentar algo que li na Zero Hora semana passada. Não encontro o link agora, mas era uma nota pequena, nem lembro ao certo a notícia, mas o repórter dizia alguma coisa como “parece estranho alguém dizer que a democracia brasileira é mais perfeita que a americana, reconhecida sempre como um exemplo”. As palavras eram outras, mas o conteúdo ia no sentido de dizer que a democracia dos ianques era tida como a ideal.

Pois é essa democracia que permite, por exemplo, que um presidente seja mais votado e outro, um Bush, assuma o posto. E, em se tratando de presidente da República, a coisa é bem mais grave. Até porque a Venezuela adota um sistema de representação distrital, escolhe parlamentares para representarem regiões. O presidente não representa regiões, mas o conjunto do povo. Ou seja, devia ser aprovado pela maioria absoluta.

Como no Brasil, aliás. Nesse Brasil que a imprensa vem acusando de pouco democrático. Que tem o sistema eleitoral mais avançado do mundo, que quase elimina fraudes. Que tem problemas, sim, e muitos. Que poderia contar com formas mais diretas de democracia, como a participativa, que tem no Orçamento Participativo criado pelo PT na Prefeitura de Porto Alegre seu exemplo máximo. Mas, considerando democracias representativas, é um exemplo para os americanos.

Estados Unidos, sistema político baseado no bipartidarismo. No Brasil, reclamam que o PT vai para o terceiro mandato, que vai chegar a 12 anos de poder. Nos Estados Unidos, foram séculos de alternância entre dois grupos políticos hegemônicos. E que continuam tendo o mesmo poder que sempre tiveram. Um um pouco mais conservador que o outro, mas nenhum efetivamente progressista (no sentido original da palavra, não o surrupiado pelo PP). Naquele 2000 em que Bush foi alçado ao cargo máximo do poder americano, o governo da Flórida estava nas mãos de seu irmão. Por coincidência, as regras das eleições foram alteradas pouco antes do pleito, as cédulas lá foram “mal planejadas” e dificultaram as eleições, atrasando a contagem dos votos e oportunizando fraudes. E, mesmo depois da eleição de Bush, continua sendo tratado como exemplo de democracia. Não é.

Tida como exemplo, torna-se ainda mais fajuta que as outras.

Ou seja, se vamos falar de democracia, se vamos questionar Venezuela, até mesmo Irã – não defendo o sistema político iraniano, por favor -, vamos questionar Estados Unidos. Vamos chamar na chincha a “democracia perfeita”.

Com telhado de vidro, não se atira pedra nos outros.

A fajuta democracia americana

Para o Jornal da Globo, Lula é o culpado de tudo de ruim que acontece no mundo

Vi a chamada e fiquei com um pé atrás. De tanto que o Jornal da Globo fala mal dos países de esquerda, já acho sempre que vem bomba. A matéria de ontem, sobre o rompimento de relações entre Venezuela e Colômbia, foi crítica a Hugo Chávez, claro, mas até que não foi das piores – quando nosso parâmetro de comparação é baixo, qualquer coisa razoável passa por fantástica.

Foi irônica, como sempre, com algumas pausas lacônicas como a tratar de um ser notadamente inferior, que não merece consideração, apenas pena ou desprezo. Mas a sacanagem maior ficou por conta da chamada no primeiro bloco, que responsabilizava o Brasil pela crise entre Venezuela e Colômbia. Como se tivesse voltado os olhos para o Oriente Médio e esquecido da América Latina. Ou seja, a suposta omissão, a alegada falta de intervenção do Itamaraty teria causado a tensão. Bem simples assim, sem mais elementos complicadores na história. Incrível como cabe tanto significado em tão poucas palavras.

Resta a Globo definir se a sua posição é de defender que o Brasil deve ou não intervir na relação entre outros países. Ficar mudando de opinião de acordo com as conveniências é que não dá.

Assinantes da Globo.com podem assistir aqui. Os demais têm acesso à matéria, mas não a íntegra do jornal, em que aparece a chamada do primeiro bloco.

Para o Jornal da Globo, Lula é o culpado de tudo de ruim que acontece no mundo

A carta do embaixador da Venezuela ao Estadão

Puxada do vi o mundo:

A O Estado de S.Paulo

Sr. Ruy Mesquita — diretor de Opinião

Sr. Antonio Carlos Pereira — editor responsável de Opinião

Sr. Ricardo Gandour — editor de Conteúdo

Senhores,

É com grande preocupação e mal-estar que a República Bolivariana da Venezuela, por meio de seu Embaixador no Brasil, dirige-se a esse jornal, de reconhecidas qualidade e tradição entre os veículos da imprensa brasileira. E a razão não é outra senão nossa surpresa e indignação com os termos e o tom de que sua edição de hoje (20/07/10) lança mão para atacar o presidente de um país com o qual o Brasil e os brasileiros mantêm relações do mais alto nível e qualidade.

O respeito à plena liberdade de imprensa e de expressão é cláusula pétrea de nossa Constituição e valor orientador do governo de nosso país. A estas diretrizes, no entanto, cremos que devam sempre estar associadas a lhaneza na referência a autoridades constituídas ­– democraticamente eleitas — e a plena divulgação de todos os fatos associados a uma cobertura jornalística.

Cremos descabido que um jornal como O Estado de S.Paulo se refira ao presidente Hugo Chávez, eleito e reeleito pelo voto livre da maioria dos venezuelanos, com o uso de termos e expressões como ”lúgubre circo de Chávez”, “autocrata”, “protoditador”, “circo chavista”, “caudilho”, “lúgubre picadeiro”, “costumeira ferocidade”, “rugiu”, “toque verdadeiramente circense da ofensiva chavista – no gênero grand guignol”.

Mais graves ainda são a distorção e ocultação de informações que maculam os textos hoje publicados.

O presidente Hugo Chávez nunca “atropelou” a Constituição Bolivariana, instituída por Assembleia Nacional e referendada em plebiscito. Ao contrário, submeteu-se, inclusive, a referendo revogatório de seu próprio mandato, prática democrática avançada que pouquíssimos países do mundo têm o orgulho de praticar.

O editorial omite que o cardeal Jorge Savino já foi convocado pela Assembleia Nacional para apresentar provas de sua campanha difamatória frente aos deputados — também democraticamente eleitos –, mas o mesmo rechaçou a convocação. Prefere manter suas acusações deletérias a apresentar aos venezuelanos e à opinião pública internacional os fatos que lastreariam suas seguidas diatribes.

Outros trechos do texto só podem ser lidos como clara campanha de acobertamento de um terrorista, como o é, comprovadamente, Alejandro Peña Esclusa: “O advogado de Esclusa assegura que o material foi plantado pelos policiais que invadiram a casa de seu cliente –-  considerando o retrospecto, uma acusação mais do que plausível” (grifo nosso)

Esclusa foi preso em sua residência em posse de explosivos, detonadores e munição, após ter sido denunciado, em depoimento à polícia, pelo terrorista confesso Francisco Chávez Abarca –- este criminoso, classificado com o alerta vermelho da Interpol, foi preso em solo venezuelano quando dirigia operação de terror, visando desestabilizar o processo eleitoral de setembro deste ano.

A prisão de Esclusa ocorreu de forma pacífica, com colaboração de sua família, e segue os ritos jurídicos normais: ele tem advogado constituído, direito a ampla defesa e será julgado culpado ou inocente de acordo com o entendimento da Justiça, poder independente de influência governamental ou partidária, assim como no Brasil.

Inadmissível seria o governo da Venezuela ter permitido que um terrorista ceifasse vidas e pusesse em risco a democracia, que nos esforçamos arduamente para defender, ampliar e aprimorar em nosso país, assim como o fazem, no Brasil, os brasileiros.

O Estado de S.Paulo tem pleno conhecimento desses fatos, tendo inclusive recebido, em 14/07/10 a Nota de Esclarecimento desta Embaixada, a respeito do desbaratamento da operação terrorista internacional que estava em curso (cópia anexa). O responsável pela editoria Internacional, Roberto Lameirinhas, inclusive confirmou seu recebimento à nossa assessoria de comunicação.

Daí manifestarmos nossa estranheza com a reiterada negativa do jornal em dar tais informações a seus leitores. E ainda tomando como verdade declarações do advogado do referido terrorista.

Temos certeza que os senhores não desconhecem, até pela história recente do Brasil, o quão frágil pode ser a liberdade diante do autoritarismo tirano da intolerância e do uso do terror como método de ação política.

Reafirmamos que não nos cabe emitir qualquer juízo de valor sobre as opiniões político-ideológicas do jornal dirigido por V. Sas., por mais que delas discordemos. O que nos leva a enviar-lhes esta correspondência é, tão somente, a solicitação de que se mantenha a veracidade jornalística e o respeito que se deve sempre às pessoas, sejam ou não autoridades constituídas, mesmo quando o jornal as considere, de moto próprio, como seus inimigos ou desafetos.

Esta Embaixada permanece à disposição do jornal e de seus leitores, para esclarecimentos adicionais sobre quaisquer dos assuntos supracitados, bem como de novos temas julgados pertinentes e reivindica, formalmente, a publicação da presente carta, com o mesmo destaque dado ao editorial de hoje, intitulado “O lúgubre circo de Chávez”, publicado à página A3.

Atenciosamente,

Maximilien Arvelaiz

Embaixador da República Bolivariana da Venezuela no Brasil

Brasília, DF

A carta do embaixador da Venezuela ao Estadão

O Globo publica editorial autista

Chega a ser assustador o editorial d’O Globo de hoje, dia 7. Ele afirma com todas as letras que não há democracia na Venezuela com base em argumentos bastante discutíveis. Dizer, por exemplo, que não há imprensa livre naquele país é uma afirmação que parte do mesmo pressuposto de que não deve haver um marco regulatório para a imprensa brasileira. Confunde-se liberdade de imprensa com liberdade de empresa. É essa segunda que temos atualmente no Brasil.

Mas voltemos ao editorial. O jornal consegue misturar a entrada da Venezuela no Mercosul com o asilo de Zelaya na embaixada brasileira em Honduras como se se tratasse da mesma coisa. E consegue ser igualmente retrógrado em ambos os casos. Mesmo a direita brasileira, ou grande parte dela, é favorável à aceitação da Venezuela no Mercosul. E essa direita compartilha da visão d’O Globo de que lá não há democracia, mas vê o momento como uma oportunidade de ajudar o país a voltar a um regime democrático.

Com relação a Honduras, O Globo se posiciona como toda a mídia brasileira tem feito. Todos os veículos devem ter ido juntos à mesma loja comprar o tapa-olhos que os está impedindo de ver o que o resto do mundo inteiro enxerga e comenta. A diplomacia brasileira foi exemplar, inclusive para os norte-americanos, que deixaram o espaço vago nas negociações em Honduras. Espaço providencialmente ocupado pelo Brasil, de forma muito inteligente.

Mas, para O Globo, receber Zelaya na embaixada era compactuar com um “projeto chavista” que transformou a embaixada em um “bunker de agitação e propaganda contra o governo interino de Micheletti”. Ou seja, parece querer perguntar como o Brasil ousa incentivar as críticas a um governo golpista. Para O Globo, que compactuou com a ditadura militar brasileira que chegou ao poder através de um golpe na década de 60, isso parece inadmissível. Se há golpe, deve-se apoiá-lo. Suponho que esse princípio deve fazer parte da política editorial do jornal.

Segundo o texto de hoje, o asilo a Zelaya só trouxe dividendos negativos não só para o Brasil, “inclusive para o Lula, sócio de um projeto que visa apenas a converter Honduras em possessão bolivariana”. E termina dizendo que “alianças com Chávez são contagiosas”. Além de esse final ser meio incompreensível, parece absurdo que algum veículo ainda seja capaz de dizer tal quantidade de barbaridades. Mais uma vez, comprova-se que o mundo inteiro vê uma coisa e a imprensa brasileira, autista, vê outra.

O Globo publica editorial autista

Marcas globais

Esse negócio de ter canais de vários lugares do mundo, uma novidade a que tive acesso essa semana, faz com que a gente preste atenção em umas coisas que eu nunca tinha pensado que seriam relevantes.

Vendo um canal da Venezuela, além da rapidez com que eles falam, me saltou aos olhos a publicidade. Não porque fosse muito diferente do que estou acostumada, muito pelo contrário. É impressionante como é igual! Não só as marcas, mas os logos, as cores, os formatos. Lembro agora das propagandas do sabão em pó ACE, do sal de frutas ENO e de alguma coisa da Philips.

Nessas horas a gente enxerga a tal da globalização nitidamente.

Marcas globais