Paulistas contra o ódio e o preconceito

Recebi um e-mail e, em seguida, uma resposta a ele, referentes aos casos de preconceito contra nordestinos exibido em redes sociais. São dois paulistas que repudiam o preconceito incentivado pela campanha de ódio da oposição. Reproduzo as duas mensagens:

Desabafo de um paulista

Como estudante do curso de direito, na FMU – Faculdades Metropolitanas Unidas, e por coincidência estar na mesma sala da Mayara Petruso, não posso deixar de manifestar a minha indignação com as declarações de cunho preconceituoso [de alguns sudelistas e sulistas em relação a nordestinos e nortistas e vice-versa] que vêm gradativamente aumentando em portais de relacionamento e em blogs e divulgadas pela mídia brasileira.

A meu ver, as frases postadas pela Mayara Petruso em seu Twitter e Facebook demonstram como uma parte [necessário ressaltar ser uma absurda minoria] da população da região Sudeste/Sul tem uma visão deturpada da realidade de nosso país e de nossa magnífica diversidade cultural.

Vejo a necessidade aqui de destacar como as populações de diversas partes do país sempre colaboraram para o desenvolvimento e construção de nosso Estado, principalmente a população nordestina, além de estrangeiros, sendo sempre bem recebidos em nossa grandiosa São Paulo, que tem sua grandiosidade atrelada principalmente a sua diversidade étnico/cultural encontrada somente aqui.

Hoje, ao ver a declaração da Sra. Fabiana Pereira, intitulada de articuladora do Movimento São Paulo para os Paulistas fiquei absurdamente perturbado ao saber que existe um movimento assim em meu Estado, É UM ABSURDO. Lembrei no mesmo momento das aulas de história da 7º série, quando o tema de meu trabalho para a feira cultural fora Hitler, que nitidamente compartilhava idéias como a dessa cidadã.

Percebe-se de longe o total desconhecimento da história de nosso país, quando ela divide a grandiosidade cultural brasileira em somente duas culturas, como uma assistencialista/populista e outra intelectual/elitista. Confesso que sinto medo de comentários como esse.

Como brasileiro e amante da diversidade cultural de nosso país, vejo a necessidade de todos nós não deixarmos que comentários de cunho preconceituoso continuem a ser proliferados.

O Brasil é um país que tem história principalmente pela relevância e tolerância da população. Até mesmo os judeus e os muçulmanos convivem pacificamente em nossa sociedade. Não podemos deixar que declarações inconseqüentes gerem ódio em nosso país.

A democracia é para todos, não somente para determinado Estado da Federação, cada um escolhe o que acha ser o melhor para si [Deixo de destacar a minha opinião política por achar irrelevante para o assunto].

São Paulo, 04 de novembro de 2010.

Luís Gustavo Timossi

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Prezado Luis,

Muito importante seu depoimento, e quero acrescentar:

Sou paulistano nato mas escolhi a Bahia para viver 10 anos atrás.

Não é de agora esse preconceito contra nordestinos e negros de parcela do povo do Sul/Sudeste. Isso vem do século XIX, desde o fim da escravidão.

Os povos do Norte/Nordeste são de origem índia e negra e sempre foram discriminados pelos brancos do Brasil inteiro. Repare que seu próprio texto diz “sempre colaboraram com o desenvolvimento e construção de nosso estado”. Não estou dizendo que você discrimina, mas essa idéia está enraizada em nosso subconsciente, e só me dei conta que eu também pensava assim quando mudei para Salvador.

Ninguém colaborou com ninguém; SP é Brasil e, portanto, não é dos paulistas! Quantos gaúchos, paulistas, mineiros vivem em cidades do Nordeste e sempre foram muito bem tratados? O que Mayara Petruso – e tantos outros – fez foi externar uma opinião corrente na elite branca, inclusive do Nordeste, que pensa da mesma forma.

Temo que consequências sérias acabem em violência. Na Bahia, milhares de pessoas do Sul vêm para o verão e o Carnaval, e começo a notar um clima de animosidade crescente nas pessoas daqui; o baiano mais simples, que sempre foi cordial, tendo acesso a essas informações de xenofobia e racismo, começa a externar um sentimento de vingança. Já ouvi pessoas dizendo que se um paulista falar grosso, vai ter troco!

Precisamos desconstruir esse racismo, antes que nos transformemos em um país dividido pela condição social e pela cor! Mais uma obra de Serra: espalhar o ódio!

Abraço a todos.

Julio Pegna

Paulistas contra o ódio e o preconceito

Xenofobia por toda a parte?

Artigo de Immanuel Wallerstein*, publicado no Diário da Liberdade

O dicionário define xenofobia como o “medo dos estranhos ou estrangeiros, ou de qualquer coisa que é estranha ou estrangeira.” Parece ser uma praga endémica em toda a parte do mundo. Mas só às vezes infecta um maior número de pessoas. Esta é uma dessas vezes.

Mas quem é o estrangeiro? No mundo moderno, parece que a principal lealdade é para com o Estado de que somos cidadãos. Chama-se nacionalismo ou patriotismo. Sim, algumas pessoas põem outras lealdades à frente do patriotismo, mas parece que estão em minoria.

Claro que há muitas situações diferentes nas quais as pessoas expressam os seus sentimentos nacionalistas. Numa situação colonial, o nacionalismo expressa-se como uma reivindicação de libertação do poder colonial. Parece assumir formas semelhantes em situações que alguns chamam semi-coloniais, que são aquelas em que um país é tecnicamente soberano, mas vive sob a sombra de um estado mais forte, e se sente oprimido.

E há também o nacionalismo do Estado forte, que se expressa na afirmação de uma superioridade técnica e cultural, e cujos defensores sentem ter o direito de impor as suas opiniões e valores aos estados mais fracos.

Podemos aplaudir o nacionalismo dos oprimidos como algo valioso e progressivo. Podemos condenar o nacionalismo opressivo dos fortes como sendo indigno e retrógrado. Mas há, porém, uma terceira situação em que o nacionalismo xenófobo levanta a cabeça. É o de um Estado cuja população sente, ou teme, que está a perder força, que de alguma forma está em “declínio”.

O sentimento do declínio nacional é particularmente exacerbado, inevitavelmente, em tempos de grandes dificuldades económicas, como aquele em que hoje o mundo está mergulhado. Por isso não surpreende que essa xenofobia tenha começado a desempenhar um papel crescentemente importante na vida política dos estados em todo o mundo.

Vemo-la nos Estados Unidos, onde a autodenominada Tea Party quer “trazer o país para trás” e “restaurar a América e a sua… honra.” No comício de 28 de Agosto, o organizador, Glenn Beck, disse: “Quando olho para os problemas do nosso país, muito honestamente, penso que o bafo quente da destruição está a soprar nos nossos pescoços e que resolvê-los politicamente é uma intenção que não vejo em lado nenhum.”

No Japão, uma nova organização, a Zaitokukai, cercou uma escola primária coreana em Quioto, exigindo a “expulsão dos bárbaros”. O seu líder diz ter modelado a organização à imagem do Tea Party, partilhando o sentimento de que o Japão sofre actualmente de falta de respeito na cena mundial, e seguiu uma direcção errada.

A Europa, como sabemos, tem visto em quase todos os países o crescimento de partidos que querem expulsar os imigrantes e devolver o país exclusivamente às mãos dos supostos verdadeiros cidadãos, apesar de parecer difícil determinar quantas gerações de linhagens contínuas são necessárias para definir um verdadeiro cidadão.

Este fenómeno não está ausente dos países do Sul – da América Latina, da África e da Ásia. Nem vale a pena citar as múltiplas e repetidas instâncias em que a xenofobia levantou a sua feia cabeça.

A questão real é saber o que pode ser feito – se é que se pode fazer alguma coisa – para contrariar as suas perniciosas consequências. Há uma escola de pensamento que essencialmente defende que é preciso cooptar os slogans, repeti-los de uma forma adocicada, e simplesmente esperar o momento cíclico em que a xenofobia terá morrido porque os tempos económicos melhoraram. Esta é a linha da maioria dos que podem ser chamados de partidos de direita e de centro-direita do Establishment.

Mas e quanto aos partidos da esquerda e centro-esquerda? A maioria, apesar de não serem todos, parecem amedrontados. Parecem temer ser chamados, mais uma vez, de “impatrióticos”, ou de “cosmopolitas”, e de poderem ser varridos pela maré, mesmo que a maré possa refluir no futuro. Por isso falam, debilmente, de valores universais e de “compromissos” práticos. Será que isto os salva? Às vezes, mas nem sempre. Muitas vezes são varridos pela maré. Por vezes, eles chegam mesmo a entrar na maré. A história passada dos partidos fascistas está repleta de líderes de esquerda que se tornaram fascistas. Isto depois da história do homem que virtualmente inventou a palavra fascista – Benito Mussolini.

A plena disposição de abraçar valores igualitários, incluindo o direito de todos os tipos de comunidades verem respeitada a sua autonomia, numa estrutura política nacional que inclua a tolerância múltipla e as múltiplas autonomias, é uma posição politicamente difícil tanto de definir quanto de manter. Mas é provavelmente a única que oferece qualquer esperança de sobrevivência da humanidade a longo prazo.

* Immanuel Wallerstein, sociólogo norte-americano, crítico do capitalismo global, criador da teoria do sistema-mundo. A grosso modo, ela diz que não existem mundos diferentes, eliminando o conceito de Terceiro Mundo, porque há um sistema capitalista global interligado, em que existem países de Centro, Periferia e Semiperiferia, que se relacionam entre si.

Xenofobia por toda a parte?

Cresce xenofobia na Europa

Chegam ao Brasil informações de aumento da xenofobia nos Estados Unidos e na Europa que assustam. Especialmente no nosso país, que acolheu tantos europeus em período de dificuldades no Velho Continente, a notícia chateia. Mas o grave mesmo está acontecendo com grupos de origem muçulmana, ciganos, africanos e até europeus mesmo, de países mais pobres, do Leste.

O preconceito é de classe, de cor e de religião, além da questão nacional. Antonio Luiz M. C. Costa dá um retrato muito bom na Carta Capital dessa semana. A xenofobia assusta quem se coloca no lugar dos imigrantes e até quem tenta imaginar o futuro dos europeus “legítimos”.

Os casos mais flagrantes vêm se dando na França. O presidente Nicolas Sarkozy tem atacado grupos de ciganos, proibiu o uso de véu pelas mulheres em território francês e vai minando as culturas estrangeiras. Mas os imigrantes já vêm sendo uma parcela cada vez mais significativa dos país europeus. No futuro, os “brancos” serão minoria.

Xenofobia é igual a falta de solidariedade

O preconceito contra eles é grave porque demonstra uma falta de humanidade muito grande. Ofende o princípio da igualdade, que deveria transcender as fronteiras. Se todos os homens são iguais, não são todos os homens brasileiros ou todos os italianos ou todos os marroquinhos, mas TODOS de fato. E se a lei trata de forma diferente os que nascem no país, seja ele qual for, dos que vêm de fora, o nosso princípio de amor ao próximo, de solidariedade, de fraternidade e principalmente de justiça e igualdade deveria prevalecer e reger nossas relações. A xenofobia é o egoísmo tomando força.

É nesse sentido que a xenofobia se identifica com a direita. É porque igualdade e justiça são princípios historicamente defendidos pela esquerda. Diante da crise, a direita se fortalece, e junto com ela cresce essa onda discriminatória, que diferencia um homem de outro como se um tivesse um gene que o tornasse melhor que o outro.

A xenofobia não é diferente do preconceito já condenado por lei que leva à cadeia aquele que ofende um negro por conta da sua cor ou daquele que despreza uma mulher como se fosse de uma classe inferior.

Europeus “brancos” serão vítimas de si mesmos

É prejudicial para os imigrantes, claro, que veem sua cultura vilipendiada e sofrem diariamente, mas um dia há de trazer prejuízos também à Europa mais tradicional, que vai precisar da população mais jovem que vem com a imigração para não sobrecarregar o sistema previdenciário da população europeia, que vai ficando cada dia mais velha.

Mas quem consegue usar a razão contra o preconceito? Se houvesse algum pensamento lógico na cabeça de quem agride, a discriminação não aconteceria, porque ela não faz sentido algum.

Cresce xenofobia na Europa

O problema não é a crise de hegemonia, mas como lidar com ela

Não se consegue mais controlar pessoas pela ideologia. Não há uma forma de pensar, uma forma de ver o mundo que partilhe da unanimidade – ou quase – da população, um senso comum. Não há um american way of life que faça com que todos hajam da mesma maneira, tenham os mesmos objetivos, julguem a vida a partir da mesma ótica. Esse é o argumento principal da matéria de Antonio Luiz M. C. Costa sobre a crise de hegemonia do Ocidente, capa da Carta Capital dessa semana.

A hegemonia é tratada por ele do ponto de vista de Gramsci, que é mais ou menos isso que foi descrito no parágrafo anterior como inexistente, como em crise. Não sei se concordo. Compartilho da visão do jornalista de que surgem o tempo todo grupos que divergem do tal senso comum, que na Europa principalmente a coisa é muito grave com relação aos imigrantes, que nos Estados Unidos aparecem terroristas que definitivamente não concordam com a visão do Estado.

Mas ainda acho que há um senso comum capitalista. Ele é centrado no consumismo, tem nele sua base. Emir Sader falou em uma palestra, também já li textos dele a respeito, que o mais difícil de enfrentar na direita é a dominação ideológica, centrada justamente no consumismo. Isso é difícil de romper, é o terreno onde fica mais complicado de lutar.

A matéria informa que é devido a essa crise de hegemonia, que concordo que há, mas em escala menor do que o autor atribui, que são tomadas medidas autoritárias, que usem a força. Naquela velha tática de que quando conversar não resolve, palmada. É a força bruta, guerras, violência contra imigrantes, mas também coerção, humilhação, invasão. Tanto por grupos extremistas como pelo governo.

Humilham-se os imigrantes, a xenofobia só cresce, tanto na Europa quanto em outros lugares, inclusive na América Latina – em São Paulo, por exemplo, cidade que recebe muita imigração, bolivianos são tratados como lixo. Nos Estados Unidos, foi aprovada a continuidade de medidas coercivas do governo Bush, como vigilância telefônica, invasão de residências etc. E como não lembrar da paranóia em que se transformaram os aeroportos?

Isso tudo serve para combater supostos terroristas, ou seja, a divergência, o pensamento diferente. Funciona? Claro que não. A paranóia só tem aumentado, acompanhada de medo, pânico. E com eles a desorganização, o caos. A violência só aumenta, porque as divergências ficam mais claras com esse combate a elas. E aumentam.

Se há uma crise de hegemonia que vem preocupando pela exacerbação da violência, pelo crescimento do número de atitudes radicais, pela força cada vez maior da extrema direita, ela não pode ser combatida com mais hegemonia. A matéria não fala qual é a solução para o problema, até porque encontrá-la é tarefa das mais difíceis, e resolveria os conflitos atuais mais importantes. Mas definitivamente, boicotar as ideias divergentes não parece o melhor caminho. A Carta Capital afirma: “A combinação de ódio, medo e força acabam com as possibilidades de consenso”. Mas o consenso é bom? Bom para quem? A dominação fica mais fácil, é fato. As elites lucram com a calmaria. Já diria Nelson Rodrigues que toda unanimidade é burra. E olha que ele era de direita, que é exatamente onde se encontram aqueles que querem coibir a qualquer custo os que não se encaixam no padrão ocidental.

Se há uma solução para essa crise, ela passa pela tolerância. Religiosa, racial, de gênero, de fronteiras. É no respeito à diversidade que se vai chegar à paz. Se isso vai de fato acontecer, impossível saber. Mas só enxergo essa alternativa. Quanto mais agredida uma pessoa se sentir por determinada característica ou forma de pensar, mais revoltada ela vai ficar. Violenta. A solução se resume em tolerância e solidariedade.

O problema não é a crise de hegemonia, mas como lidar com ela