Não-jornalismo a favor de Manuela, adivinha onde

20120801-225650.jpg

Qual é a intenção dessa nota “Dois corações”, da Carolina Bahia, na Zero Hora desta quarta-feira? Que sentido tem uma nota que não informa, que o leitor termina de ler se perguntando o que, quem, quando, onde, como? Ou seja, uma nota que não responde nenhuma das perguntas básicas que são a razão de existência do jornalista. Onde já se viu o leitor terminar de ler uma coisa que deveria ser jornalística curioso pela informação que a jornalista sugere mas que não está ali? Já vi fonte em off, mas a informação toda ser um grande off não é informação.

Vale pensar no que está por trás de passar pro leitor algumas frases sem conteúdo, apenas com insinuações. O que há de concreto ali é que, segundo Carolina Bahia, algum figurão do PT não apoia Adão Villaverde, o candidato do PT à Prefeitura de Porto Alegre, mas Manuela, do PCdoB. Por que se deduziu que ele apoia Manuela também não está dito, já que teoricamente a fonte da informação é a negação do tal ministro de gravar um vídeo de apoio a Villa, ou seja, poderia preferir qualquer outro candidato de qualquer outro partido ou simplesmente ser de outra tendência interna, ser personalista, não gostar do Villa. Enfim, trocentas possibilidades. Mas a não-informação foi construída convenientemente a favor de Manuela. Nada está claro ali, nada ali informa. Resta saber onde ficou o jornalismo.

Não-jornalismo a favor de Manuela, adivinha onde

Conservadora e contraditória

Sem citar nomes, o competentíssimo jornalista Marcos Rolim, histórico defensor dos direitos humanos, critica, em sua coluna semanal no diário que se esforça por (de)formar opiniões entre os leitores gaúchos, aqueles que apoiam o tal “Manifesto contra a descriminalização das drogas“, divulgado pelo Fórum Evangélico Nacional de Ação Social e Política (!). Rolim atinge (sem querer?) o jornal em que publica sua crítica. E o faz com muita classe, é preciso dizer.

Nem dois dias antes (já que o jornal de domingo sai no sábado), na sexta-feira, Zero Hora dedicou seu editorial a reforçar a postura conservadora da empresa em relação aos grandes temas da sociedade, abordando a questão da descriminalizacao do usuário de drogas, que vem sendo discutida na proposta de reforma do nosso ultrapassado código penal. O grupo que assina o manifesto, liderado pelo deputado gaúcho Osmar Terra, não só é contra a descriminalização como também apoia um projeto de lei que coloca penas mais duras para traficantes e usuários.

Além de conservador, o jornal é contraditório. Sua argumentação é simplista, apontando um cenário de causa e consequência invariável, como se descriminalizar o uso de drogas aumentasse o consumo, que aumentaria a violência. Então apoia o documento assinado por setores conservadores da sociedade, incluindo políticos, Igreja etc. É do simplismo da argumentação, pouco embasada, que nasce a contradição.

O argumento mais usado é, ironicamente, o de que repressão não resolve, que é preciso investir na prevenção. Isso num editorial que nasceu com o objetivo de defender uma política repressiva, vai entender. Olha esse trecho:

“A alternativa para livrar mais pessoas da droga é a ênfase na prevenção, não na repressão, muito menos na prisão de usuários com profissionais do crime, num ambiente propício a condená-los a viver para sempre no mundo da violência.” Pois é, então descriminalizemos o usuário, certo? Mas o texto continua em outro tom. Uma confusão.

O jornal não foge dos lugares-comuns, justamente aqueles que Rolim desmonta dois dias depois, como o tão citado exemplo de Portugal, que os contrários à descriminalização insistem ter sido negativo. Rolim ataca no ponto sensível aos jornalistas, a falta de rigor dos fatos. Afinal, é raro, nesse contexto, a fonte da informação ser citada, como não o fez o jornal Zero Hora no tal editorial. E Rolim desmonta a argumentação. Cita fontes que mostram o contrário e que desmascaram a fraqueza dos argumentos.

Assim como Rolim, faço um apelo a que ampliemos o debate, não que o interditemos, como pretende o manifesto. Até a Zero Hora reconhece a inutilidade de se investir em repressão, embora o faça de forma meio torta.

—–

Ainda na Zero Hora de domingo…

Já nas páginas que tratam do julgamento do mensalão (esperado ansiosamente pela imprensa de um modo geral), o que fica mesmo é a grande quantidade de erros de português e frases mal-escritas. São cinco páginas logo no início do jornal (4 a 8) falando do tema.

Qual seria a intenção dos repórteres, por exemplo, ao dizer que “o caso chegou a suscitar o impeachment do presidente Lula”? Suscitar, do Houaiss: “ser a causa do aparecimento de; provocar, causar, originar”. Lula sofreu impeachment e não me contaram?

E quando está escrito que “o grupo teria alterado irregularmente a classificação de risco das mesmas”? Usar o “mesmo” como pronome pessoal já é naturalmente feio e errado. É o caso da placa no elevador, pedindo que verifiquemos se “o mesmo encontra-se parado no andar”. Imagina então quando não há referência nenhuma a algum sujeito feminino plural nas frases anteriores…

Há ainda frases enroladas, repetições de palavras, vírgulas fora de lugar etc.

E, pra completar, a tentativa de ironia no final do texto, na quarta página sobre o tema.

“- Tenham fé na Justiça – pediu Delúbio, aos camaradas.”

Delúbio é petista ou comunista?

Conservadora e contraditória

Quem é o incoerente?

Entendo que a situação de parte da imprensa gaúcha é mesmo delicada. Por exemplo, Rosane de Oliveira, a colunista de política da RBS. Como criticar o governo do estado por não pagar o piso ao magistério se ela apoiou os governos que mais contribuíram justamente para sucatear o salário da categoria?

Não é fácil mesmo resolver esse problema. Aí resta apelar para a incoerência e fazer uma manobra pra criticar sem se contradizer abertamente e, ao mesmo tempo, sem ficar mal com a opinião pública, o que aconteceria se defendesse que o governo simplesmente não pagasse o piso. O resultado é um texto publicado na Zero Hora deste domingo que deixa o governador sem alternativa: ou é irresponsável ou incoerente. Se correr o bicho pega; se ficar o bicho come.

Segundo a argumentação da colunista, não tem escapatória: ou Tarso dá o piso e é, portanto, irresponsável, já que o estado não tem dinheiro para isso; ou não dá o piso e é incoerente com seu discurso de campanha. O engraçado é que Rosane demonstra concordar com o governo, sabe que não tem como pagar o piso integral, mas não pode simplesmente dizer isso, porque aí estaria elogiando um governo que ela não apoia. Não pode, né. Mas por que ela não apoia um governo com o qual concorda?

E o Tarso é que é incoerente…

Mas não é tão difícil assim achar a explicação. Rosane não pode dizer que o governo tem que dar o piso, mesmo que pensasse isso, porque apoiou os governos anteriores, que não só não deram os R$ 1.451,00 como concederam reajustes pífios à categoria (e a todas as outras categorias do funcionalismo). Então, em vez de dizer que o governo atual está dando um reajuste histórico e valorizando a categoria como há muito tempo não se via, ela diz que ele está sendo incoerente.

É uma postura estranha essa, mas não incompreensível. É estranha porque não liga muito para o contexto, o que não condiz com o bom exercício da profissão. Mas não é incompreensível quando a gente pensa que os interesses do jornal não são mesmo fazer bom jornalismo e valorizar o cidadão gaúcho.

Ironicamente, ao contrário do que diz dos outros, é Zero Hora que é incoerente com o discurso. Mas é extremamente coerente com sua postura comprometida com o empresariado e com interesses neoliberais, que sempre adotou e mantém até hoje.

Quem é o incoerente?

Para Tarso Genro, OAB foi conivente com a situação do Presídio Central nos governos anteriores

Não é fácil entender determinadas coisas. Por exemplo, por que a questão do Presídio Central só foi parar no centro das atenções nas últimas semanas. Será que ninguém tinha notado que a situação lá dentro estava insustentável? Ou os 2,6 mil presos além da sua capacidade foram incorporados nos últimos poucos meses?

Tipo a Ordem dos Advogados do Brasil, que parece não ter tomado conhecimento da existência de um presídio em situação de total desumanidade no Rio Grande do Sul, já que decidiu só agora que tinha que fazer alguma coisa. Afinal, como diz a Zero Hora, só “medidas drásticas” podem resolver o problema. Problema que, pelo jeito, surgiu do nada. Pois a OAB vai, então tomar medidas drásticas, como denunciar o governador na Corte Internacional de Direitos Humanos.

(Perguntinha de quem não entende muito das coisas: a gente não denuncia alguém quando essa pessoa fez alguma coisa muito errada, tipo deixar um presídio chegar ao dobro da sua capacidade sem as mínimas condições de sobrevivência digna lá dentro? Por acaso tudo isso aconteceu em 15 meses? E só tem um responsável?)

O que mais me incomoda, no entanto, é ver ninguém falar nada, como se discordar desse povo fosse crime. Pois o governador decidiu retrucar. E a gente, então, decide divulgar. Foi no programa do Sérgio Zambiasi, o Comando Maior, na rádio Farroupilha, nesta sexta-feira (21). Segue um trecho.

Sérgio Zambiasi – Como o senhor vê a questão do presídio central? 

Tarso Genro – Há um histórico. A minha relação com a questão do Presídio Central começa quando era ministro da Justiça. Na ocasião destacamos dois presídios como as vergonhas nacionais, o Central e o Aníbal Bruno, em Pernambuco. Eu destaquei R$ 20 milhões do orçamento para repassar R$ 10 milhões para o RS iniciar a reforma do Central e R$ 10 milhões para Pernambuco, com contrapartida de 100% dos estados. Ou seja, cada estado investiria R$ 10 milhões, totalizando R$ 20 milhões cada presídio. Eu tive sucesso no Aníbal Bruno, que sofreu uma das reformas mais importantes. Aqui eu não consegui repassar o dinheiro porque não houve uma reação, uma apresentação de projetos. Eu não sei o que houve, se foi um problema técnico do governo do estado ou desgosto político do governo anterior. O fato é que não pude passar o dinheiro para o RS, então o presídio ficou paralisado, como já estava desde a década de 90.

Agora nós assumimos e começamos a tocar duas obras importantes como a do esgoto e a da cozinha, mas com todas as dificuldades que vocês sabem, de entrar no Presídio Central, de fazer licitações, fazer o projeto e ir tocando as obras do presídio que estavam em andamento no governo anterior, mas que tiveram de parar por problemas técnicos. Problemas inclusive de relação com os financiamentos que vinham do Ministério da Justiça.

Tudo que está sendo colocado pelo Presídio Central é verdadeiro e não é novo. O que me estranha é que a Ordem dos Advogados do Brasil, que esteve omissa durante oito anos, tenha tomado uma atitude escandalosa agora, fazendo investigações, verificações, como se fosse uma grande novidade. Atitude esta que ela não tomou em nenhuma oportunidade anteriormente. Que eu saiba, é a primeira vez e com holofotes para fazer escândalos. Inclusive, quando tentei passar os recursos para cá, a direção da OAB, que era muito vinculada ao governo que apoiava anteriormente, não tomou nenhuma atitude, nenhum conhecimento a respeito. Eu saúdo a iniciativa da OAB, mas só lamento que não tenha sido feito antes.

Nós temos condições de oferecer todos os dados, nós temos um relatório, que vamos publicar amanhã, inclusive com informações de como está o Presídio Central, do que foi feito nos últimos oito anos. Nosso objetivo é reduzir pela metade a ocupação dos presídios nos próximos quatro meses.

SZ – A intenção do governo é reduzir para a metade a população, aí consegue fazer a obra e mantém certa segurança?

TG – É muito difícil sofrer reforma substancial com a superpopulação que nós recebemos. Então nós estamos empenhados, e é uma questão de humanismo. Mas me causa certa indignação a forma como está sendo divulgado, como se a inércia fosse do nosso governo, quando é exatamente o contrário. Nós é que estamos interferindo na questão do Presídio Central para melhorar e para investir lá, coisa que não foi feita nos últimos oito anos.

SZ – Este anúncio é talvez o melhor alento.

TG – Atualmente o Presídio Central – veja bem como nós o recebemos – tem 2,6 mil presos acima da capacidade normal. É um campo de concentração, é uma coisa horrorosa. Então nós estamos tomando providências e estamos fazendo intervenção pesada. Vamos investir. E quando tivermos a metade da lotação do presídio vamos discutir que atitude tomar, se ele vai ser utilizado como presídio. Nós vamos fazer um negócio e fazer render. Fazer outra estrutura prisional em outro local. Na época do governo Britto, foi anunciado em página inteira que o governo tinha determinado que se vendesse a área do presídio, e nada foi feito.

SZ – Há a possibilidade de fechar o PC?

TG – Nós agora vamos construir o complexo de Canoas. Já estamos fazendo recursos e inclusive estamos pedindo recursos para fazer uma contratação em regime de urgência e discutindo com o Tribunal de Contas do Estado e o Ministério Público para agregar mais vagas no sistema prisional. O PC é um símbolo de desumanidade e tragédia herdado por nós, e agora existe um movimento político dirigido pela OAB para nos outorgar a responsabilidade. A OAB foi omissa nos últimos oito anos em relação a qualquer questão relacionada ao Presídio Central.

No fim, o governador disse ainda que a decisão final sobre o que fazer com o Presídio Central vai acontecer depois, quando a população já estiver pela metade. “A primeira coisa é reduzir as condições de desumanidade”, disse. A meta da Secretaria de Segurança Pública, segundo ele, é abrir 1,6 mil vagas para depois construir o complexo de Canoas, que já está sendo negociado com o prefeito Jairo Jorge.

Para Tarso Genro, OAB foi conivente com a situação do Presídio Central nos governos anteriores

Uma falsa e perigosa polêmica

No dia do aniversário do golpe que mergulhou o Brasil em mais de 20 anos de ditadura, a Zero Hora publica um artigo (“A dita dura brasileira”) de um coronel que defende os responsáveis por toda a dor causada naquele período. Não vou entrar no mérito do artigo, mas de sua publicação. Generais e coronéis de pijamas existem uns quantos, e alguns deles não se importam de assumir o ridículo de defender uma ditadura que causou mortes, torturas, desaparecimentos.

Antes que surjam os argumentos de que o jornal gaúcho estava apenas abrindo espaço para o contraditório, antecipo-me a contestá-los. As mortes, as torturas, os desaparecimentos, embora não tenham sido julgados, são incontestáveis. Abrir espaço para que alguém, o coronel Sparta, defenda o regime de exceção que causou-os é como ceder a página a um assassino em série para que defendesse seus atos. Não para que se dissesse inocente, mas para que justificasse as mortes, dizendo-as necessárias e apontando consequências positivas em tirar vidas.

O jornal diz que prega a democracia e não se furta de criticar enfaticamente cada vez que se faz qualquer movimento que possa ser interpretado como censura (até os que não o são). Pois esse jornal publica um artigo de um coronel que justifica e defende um período em que os jornais não podiam contar os fatos a seus leitores, em que a censura era regra. Fica por conta do leitor avaliar a contradição.

Vão dizer que queriam causar polêmica, suponho. Então quero que me expliquem onde está a polêmica, o que querem discutir. Querem que apareçam pessoas dizendo que os mortos da ditadura não estão mortos? Ou, pior, que estão mortos porque mereciam? Essa polêmica é falsa, porque os fatos estão dados. Permitir esse “debate” é incentivar que não investiguemos a nossa história e proporcionar uma reavaliação do passado que pode, em última análise, reavivá-lo.

Sei bem que a Zero Hora, como a maioria dos jornais, não necessariamente concorda com as opiniões publicadas em suas colunas. E isso é democracia, concordo (embora ache importante observarmos que dificilmente o jornal publica opinião de representantes de movimentos sociais, por exemplo, e não seja tão democrático assim). Mas quando isso significa publicar uma opinião defendendo a ditadura, isso extrapola os limites da democracia. A defesa da ausência de democracia não tem como ser democrática.

Há duas opções. A primeira é a de que jornal acredita que houve um golpe militar e que milhares de pessoas desapareceram, morreram e sofreram nas mãos de seus coronéis e generais e assume que, sabedora disso, aceitou publicar um artigo que defende esses atos – insisto, é tortura e assassinato. Ou então ele publicou porque não acredita que existiu o tal regime de exceção, e aí, bom, aí nem preciso continuar a comentar.

Não ficou claro? Partamos para uma comparação. Parece admissível que qualquer veículo europeu publique uma defesa do holocausto? Não, e é por isso que eles não o fazem. As proporções podem não ser as mesmas, mas a crueldade de uma época e de outra não é tão diferente. Tanto o holocausto quanto a ditadura militar brasileira mataram sem julgar, torturaram, sumiram com pessoas e fizeram muitas outras saírem forçadamente de seu país. Nenhum dos dois é aceitável, e trata-los como assunto passível de debate é justificá-los.

Uma falsa e perigosa polêmica

Zero Hora já está em campanha para a Prefeitura de Porto Alegre

Metade da capa de sábado, 10, dividindo espaço apenas com a manchete (que, diga-se de passagem, é uma mensagem de dúvida em relação ao governo do estado, na medida em que manda recortar e guardar a promessa de investimentos em escolas para cobrar depois). Ali está uma foto grande, ainda que, na minha opinião, não muito apropriada, sob o título “O Centro reinventado”. Só é preciso saber juntar dois com dois pra perceber a mensagem (in)direta. Quem é o responsável pelo Centro de Porto Alegre hoje e nos últimos anos?

Nada contra divulgar melhorias, se o que a gente visse nas ruas do nosso bairro histórico fosse de fato tudo isso que a matéria diz. Pois vamos a ela. Lá está, nas páginas 4 e 5, a primeira reportagem que se enxerga ao abrir o jornal, uma “Reportagem Especial” assinada por Erik Farina e Lara Ely. Lendo o que está escrito ali, eu teria ímpetos de largar tudo o que estou fazendo e ir correndo para esse lugar tão legal. Até porque me lembro bem de uma outra matéria, um tempo atrás, no mesmo jornal, que mostrava como os ricaços gaúchos estão voltando a investir na região, não só profissionalmente, mas também comprando seus apartamentos lá (não encontrei o link). E tenho que dizer que não tenho nada contra o Centro. Na verdade, gosto bastante de andar por lá, mas isso desde adolescente. Pena que agora cada vez menos se possa “andar” por lá. E, justamente por isso, fico triste com o que vejo acontecer.

Uma das citações da matéria diz que “O Centro deve se tornar o principal local de convívio social nos próximos anos, atraindo novos negócios”. Duas constatações:

1) como um lugar que cada vez tira mais espaço de pedestres para colocar carros pode ser um espaço de convívio social, se convívio implica em coletivo e carro é um incentivo ao individual? A liberação de algumas ruas antes exclusivas aos pedestres e de mais áreas de estacionamento, como o Largo Glênio Peres, não são sequer lembrados na matéria.

2) a ideia toda da matéria, e que o entrevistado corrobora pela última parte de sua frase (“atraindo novos negócios”), vai de encontro à ideia de convívio social.

Explico: a mensagem toda do texto é extremamente positiva. Mas é um positivo num sentido classe média capitalista. A Zero Hora exalta a ideia de que o Centro está virando um shopping. Oras, shopping não é lugar de convívio social, é lugar de compras. Quem conhece o vendedor da gigante Renner do shopping, como conhecia o da loja de tecidos da esquina? Ninguém interage com o outro no shopping. Não se ampliam as relações sociais nesse ambiente.

Isso sem falar na falácia criada por um texto ardiloso de que as classes A e B estão passando a investir no Centro. Elas frequentam o Iguatemi, o Moinhos, o Barra. Não que eu ache que a presença dos ricaços seja símbolo de recuperação e qualidade, mas enxerguemos a falta de verdade da publicação. Que, aliás, se preocupa em dizer que eles estão frequentando o Centro justamente porque, para ela, os ricaços são, sim, símbolo da recuperação e da qualidade. São eles que levam sofisticação. Se eles não frequentam, está ruim. Mas ruim pra quem, cara pálida?

Acontece que a Zero Hora faz é um jogo de palavras, pra não ser pega na mentira, mas não deixar clara a verdade. Ela diz que as classes A e B estão “voltando a investir no centro histórico”. Mais adiante, fala mais em classe média frequentando os novos empreendimentos. Quer dizer, o dono da Renner está abrindo mais uma loja, mas quem frequenta é o trabalhador do Centro. Está escrito lá, mas de tal forma que numa leitura rápida o leitor entende que os ricaços estão passeando pela Rua da Praia. E aí, fruto de uma sociedade que inverte valores, ele passa a achar o Centro bacana, porque passam a circular carrões.

Ainda no exemplo da Renner, a matéria diz que toda essa retomada do Centro se dá “em harmonia com as características históricas e culturais da região”, em que pese a inauguração da nova super loja de departamentos onde antes ficava a belíssima Livraria do Globo. A justificativa para a afirmação é de que o prédio, tombado, vai ser valorizado. Mas não enxergar que a mudança de uma livraria histórica para uma loja gigante de roupas (daquelas que ficam tocando música e lá pelas tantas gritam que o vendedor Fulano ganhou a meta de vendas do mês) muda tudo é um tanto mal-caráter.

E outra: se o Café à Brasileira, na rua Uruguai, “nunca parou de crescer”, há 15 anos, como ele pode ser exemplo dessa recuperação do Centro que se dá pelas “obras de melhoria dos últimos anos”?

Isso sem falar na contradição entre a cartola e o título, que, desde a última reforma gráfica do jornal, têm quase os mesmos tamanho e destaque. Sob a frase “A volta do charme”, ela diz “Um outro jeito de ir ao Centro”. Como consegue ao mesmo tempo voltar a como era e fazer tudo diferente?

Não fala em “Prefeitura”, mas não precisa. A ideia toda está em criar uma atmosfera positiva em torno da cidade. Foi dessa forma indireta que, durante muitos anos, a mesma empresa de comunicação destruiu a imagem dos movimentos sociais em grande parcela da sociedade. Ela vai, aos poucos, construindo ou desconstruindo ideias, que se colam no imaginário do leitor cotidiano.

Zero Hora já está em campanha para a Prefeitura de Porto Alegre